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Na Ucrânia, na Rússia e no mundo: quem mais perde com conflito são os trabalhadores

Cabe constituir amplo movimento de massas pelo fim imediato da guerra, a segurança coletiva na região, fim da OTAN e autodeterminação dos povos
Carlos Russo Jr
Diálogos do Sul Global
Florianóolis (SC)

Tradução:

Como esperado, a invasão da Ucrânia pelas tropas russas tornou-se realidade. Porém, por trás de um conflito militar de caráter regional, com um longo histórico de hostilidade e agressões e alimentado por interesses capitalistas concorrentes, esta guerra revela a gravidade da crise da ordem social do capital. 

Crescentemente incapaz de resolver suas contradições e tendências recessivas senão pela via militar e pelas sanções econômicas, o capitalismo em crise contraria seu próprio discurso sobre o fim das rivalidades nacionais e as maravilhas cooperativas oriundas da integração de todos os países pela globalização neoliberal

No plano das relações internacionais, esta crise se manifesta no colapso da chamada “Nova Ordem Mundial”, estabelecida após a Guerra Fria e baseada na supremacia inquestionável dos EUA, exercida de forma unilateral e agressiva ante inimigos e aliados; e na crise de representatividade e total falência da capacidade de mediação dos organismos internacionais, principalmente a ONU.

Cabe constituir amplo movimento de massas pelo fim imediato da guerra, a segurança coletiva na região, fim da OTAN e autodeterminação dos povos

Pxhere
Russia e Ucrânia já tem um longo histórico de hostilidade e agressões

Diante da ameaça econômica e militar representada pela aliança sino-russa, os EUA, o Reino Unido e a União Europeia estabeleceram como objetivo estratégico imediato o cerco da Rússia, com vistas à anulação de sua capacidade de dissuasão militar – hoje garantida por sua dianteira tecnológica em novos armamentos, tornando-a impotente diante de um processo de desmembramento territorial impulsionado a partir de fora. 

Nestes termos, a débâcle da Rússia imporia um limite muito difícil de transpor para as pretensões imperialistas da China, repondo a hegemonia estadunidense em novas bases. Daí a expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, incorporando os países do antigo Bloco Socialista, e sua pretensão de nuclearizá-los, instalando armas atômicas em suas bases militares. 

O solene desprezo dos EUA, do Reino Unido e dos principais países da UE (Alemanha e França) para com as insistentes advertências da Rússia de que não admitiria a entrada da Ucrânia na OTAN e menos ainda sua nuclerização torna o Ocidente corresponsável pela invasão russa e pela guerra. Aliás, para os governantes destes países, todos enfrentando uma conjuntura de crise de legitimidade junto ao seu público interno ou precisando afirmar-se politicamente, a guerra veio bem a calhar como oportunidade única para propaganda e fortalecimento político, agregando a esta tragédia humanitária as tintas do cinismo e do oportunismo.

De sua parte, ao governo de extrema-direita russo interessa não apenas defender a segurança militar da Rússia diante da ofensiva ocidental, por meio da destruição das instalações militares ucranianas e da ocupação de territórios estratégicos que garantam a defesa russa e impeçam a Ucrânia de servir de base para um ataque da OTAN, mas também fortalecer-se internamente, mobilizando o velho nacionalismo grão-russo, intensificando a repressão e restabelecendo laços com setores russófilos da burguesia ucraniana. 

No plano mais geral, a invasão da Ucrânia visa reforçar os laços com a China e com os países da antiga URSS e dar um claro recado aos dirigentes com pretensões de soberania ou mesmo de aliança com o Ocidente, como recentemente tentaram a Geórgia, o Cazaquistão e a aliada Belarus. 

Esta orientação geopolítica revela os vínculos do governo russo com frações burguesas rapidamente enriquecidas com base na rapina do patrimônio público, na exploração brutal dos trabalhadores e na corrupção, e que apresentam pretensões imperialistas cuja plataforma imediata é a manutenção de sua posição econômica junto no Leste Europeu e na Ásia Central.

Na Ucrânia, prevalece um governo fantoche, o segundo desde o golpe de 2014 orquestrado pelos EUA, que agrega testas de ferro do imperialismo ocidental, principalmente estadunidense; a burguesia nativa associada, beneficiária do entreguismo e da pilhagem do Estado; demagogos da “nova política”, como Zelenski, e grupos neonazistas financiados pela OTAN. A este condomínio interessa a entrada da Ucrânia na OTAN para a consolidação militar de sua aliança com o imperialismo e de seus interesses conjuntos. 

Daí a postura beligerante de Zelenski desde o início da crise, mantendo a ofensiva contra Luhansk e Donetsk, exigindo o envolvimento da OTAN no conflito, distribuindo armas para milícias neonazistas de todos os quadrantes e sacrificando seu povo numa guerra perdida com a finalidade de generalizar o conflito e salvar seu próprio governo. Apesar de pouco provável no momento, a possibilidade de generalização do conflito, com o envolvimento das principais potências militares numa guerra nuclear, é real.

Neste cenário de privações, morte e destruição criado por um capitalismo senil, que não pode ir além da defesa irrestrita dos interesses exclusivistas das burguesias e de seus funcionários, ganha o imperialismo estadunidense e europeu, ganha o capitalismo de gângsteres tanto na Rússia quanto na Ucrânia, ganham todas as camarilhas burocráticas e militares de todos os lados.

Por isso, quem mais perde são os trabalhadores. Em primeiro lugar perdem os trabalhadores ucranianos, privados de suas casas, empregos e vidas e obrigados a lutar uma guerra que não é sua; também perdem os trabalhadores russos, forçados a apoiar as aventuras de um governo que reprime suas organizações e cassa seus direitos. 

Por fim, perdem os trabalhadores de todo o mundo, sobre quem cairão os efeitos mais nocivos da guerra econômica desencadeada pelas sanções impostas à Rússia e para quem a perspectiva de intensificação da corrida armamentista e radicalização da escalada militarista entre as potências, anunciada pela Guerra da Ucrânia, representa uma tragédia de proporções inimagináveis.

Nesta guerra sem nobreza e sem moral, aos trabalhadores e à esquerda socialista não cabe “torcer” por ninguém, mas constituir um amplo movimento de massas pelo fim imediato da guerra, com o estabelecimento de negociações que garantam a segurança coletiva na região, pelo fim da OTAN e pela auto-organização e autodeterminação dos povos!


Contrapoder, 10 de março de 2022

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As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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