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Não é fato isolado. Tempestade de areia no interior de SP é efeito da degradação ambiental

No Brasil o modelo de “desenvolvimento”, no qual as práticas sócio ambientais são impostas pela visão “economicista”, privilegiam a moeda em detrimento da felicidade humana.
Claúdio di Mauro
Diálogos do Sul
Uberlândia (MG)

Tradução:

As nuvens e tempestades de poeira e solo invadiram nossas cidades no Triângulo Mineiro e no Estado de São Paulo, dentro da Bacia Sedimentar do Paraná. Fato inusitado, semelhante aos vendavais com areias que acometem regiões desérticas do globo terrestre. A aparência é que essas tempestades são mais alguns recados oferecidos para nosso processo “civilizatório” e seus modos de produção que prevalecem nas áreas rurais com o agronegócio capitalista.

São importantes as discussões sobre as causas dessas movimentações de ventos que levantam os solos em grandes quantidades e afetam significativas extensões territoriais. Uberlândia, Uberaba, Frutal, Campina Verde foram alguns dos municípios mineiros contemplados com essa “poeira tóxica”. Afinal tais sedimentos removidos e transportados a partir dos solos são os mesmos que recebem adubos e agrotóxicos desde muitas décadas.

Envolvendo toda a cidade com suas residências, portanto as pessoas, certamente teremos consequências para a saúde humana e animal. As represas e reservatórios de águas que abastecem as populações urbanas e rurais estão afetados por aumento de acidez e por cargas de agrotóxicos. Juntamente com esses materiais sedimentares ainda se anexaram as fumaças das queimadas promovidas em largas extensões do Cerrado.

A Bacia Sedimentar do Paraná composta por rochas sedimentares e solos com elevados teores de areias são mais suscetíveis a serem transportados pelo vento, na medida em que estão desprovidos da proteção por cobertura vegetal.

Cláudio Di Mauro | Alguns efeitos das mudanças climáticas já podem ser sentidos no Planeta

O Cerrado tanto no Estado de Minas Gerais, da mesma forma no Estado de São Paulo tem sido imensamente degradado. Fogo e desmatamento para introdução de culturas voltadas aos agronegócios capitalista caracterizam essas porções dos Estados referidos. Tais áreas com relevo de baixas declividades são adequadas para o plantio e corte da cana de maneira mecanizada. 

Produtores de energia pela cana suprimiram terraços e “terracetes” que formavam curvas de nível. Com o emprego de mecanização pesada aplainaram, alisaram o relevo, afetaram diretamente a superfície dos solos. Os solos que formavam essas pequenas elevações foram esparramados pela superfície do relevo e ficaram a disposição para serem transportados.

No Brasil o modelo de “desenvolvimento”, no qual as práticas sócio ambientais são impostas pela visão “economicista”, privilegiam a moeda em detrimento da felicidade humana.

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É recomendável a adoção de políticas fundamentadas em princípios do trabalho e renda na perspectiva da economia solidária

No Estado de São Paulo adotou-se o mesmo procedimento em grandes proporções municipais, a exemplo de Franca e Ribeirão Preto.

Na medida em que as condições meteorológicas favoreceram a formação de ventos fortes, esse material solto nas superfícies dos solos foi erguido e transportado formando imensas nuvens de sedimentos finos. Isso provocou o fenômeno da escuridão nas cidades. Ou seja, nas cidades o dia se fez noite. Trata-se do comportamento de risco adotado pelas corporações de produtores, resultando em possibilidade efetiva de acontecer as nuvens com sedimentos e fumaças.

Embora as cidades referidas tenham sido afetadas em todas as suas extensões, entretanto em função das desigualdades sociais, os setores mais empobrecidos são os que ficaram mais expostos aos riscos de terem a saúde afetada. Pessoas que vivem nas ruas e também aquelas que residem em casas menores e mais abertas certamente foram mais afetadas pela fumaça e tempestade tóxica.

Da mesma forma que esses setores das populações também foram mais atingidos pela ausência da disponibilidade de água para se higienizarem em função da pandemia do covid19. É nítido que o problema da degradação ambiental afeta preferencialmente e de maneira mais intensa as populações subalternizadas, na expressão adotada pelo saudoso sociólogo Florestan Fernandes.

Com desigualdade social, sofrimento humano está chegando a níveis insuportáveis

Juntamente com esses fatos eólicos temos a seca produzida em diversas partes do Brasil, mas acometendo especialmente a Região Hidrográfica do Rio Paraná. A combinação desses episódios acarretam o que Dom Mauro Morelli reconheceu como “…um horror… enquanto for produzido alimento para ser convertido em moeda, haverá degradação ambiental, miséria e fome.”

Podemos acrescentar, ainda mais quando o agronegócio capitalista está priorizando a produção de energia e de soja para exportação e para alimentar animais no estrangeiro. Enquanto isso prevalecer, haverá fome em meio às grandes plantações.

A mudança climática está expressa pela situação que tem acarretado modificações nas distribuições das chuvas. Períodos com chuvas torrenciais afetam drasticamente, especialmente as cidades que não obedeceram um planejamento para essas situações de inundações e catástrofes. A subida dos níveis dos mares tende a submergir imensas áreas de alagados e de aterros existentes nas orlas marítimas.

Mais uma vez, as populações que habitam áreas próximas aos rios e mares são e serão as mais afetadas pelas enchentes causadas por chuvas, elevações dos rios e movimentos das águas salgadas. Há que se lembrar que cerca de 85% das populações nos Estados do Sudeste Brasileiro habitam cidades que não são construídas considerando-se tais situações de riscos e vulnerabilidades.

Capitalismo mostrou na pandemia que exploração levará planeta à autodestruição

Daí as situações de catástrofes se tornam iminentes. Uma nova forma de pensar e Planejar as Cidades torna-se indispensável. Há que se considerar que as cidades devem ser caracterizadas como produtos da construção coletiva. Cabem aos Governos Centrais da União e dos Estados pensar com os municípios seus processos de implantação e crescimento, considerando-se as funções sociais das cidades e das propriedades privadas.

É indispensável a preparação do planejamento considerando os riscos inerentes às mudanças climáticas. Não se pode esperar os problemas acontecerem para que depois sejam tomadas as providências que salvaguardem as vidas das pessoas e lhes permitam viver com dignidade e sob menores vulnerabilidades.

Os sistemas produtivos do agronegócio precisam ser substituídos por modelos que priorizem a vida em relação aos ganhos financeiros. Há que se criar as melhores condições do bem viver e isso implica em mudança do modelo econômico. 

Nesse roteiro é recomendável a adoção de políticas fundamentadas em princípios do trabalho e renda na perspectiva da economia solidária. Morar em locais que reduzam em muito os riscos ambientais, se preocupem com a atenção e promoção da saúde, oportunidade de trabalho e renda são condições mínimas que devem ser conquistadas por todas as pessoas.

Se no Brasil o Planeta está em fúria, deve-se ao modelo de “desenvolvimento” no qual as práticas sócio ambientais são impostas pela visão “economicista”, privilegiando a moeda em detrimento da felicidade humana.

Cláudio di Mauro, geógrafo e ex prefeito de Rio Claro. Colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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