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Neoliberalismo, mídia desonesta e corrupção: o tsunami que condena o Brasil ao colonialismo

Onda varre o Brasil desde 1980, levando nossas riquezas, nossa tecnologia, nosso desenvolvimento e, até mesmo, nossa moral
Pedro Augusto Pinho
Viomundo
São Paulo (SP)

Tradução:

O que houve com o Brasil, que crescia a taxas médias maiores do que 7% ao ano, entre 1930 e 1980, para chegar à atual condição colonial?

Está aí uma pergunta que não fazemos. Por quê?

Certamente, criou-se alguma farsa, colocou-se um problema inexistente, como a invasão comunista ou dos hereges, para assustar a população ludibriada, que não teve instrução, principalmente política.

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas” (Bertold Brecht, 1898-1956).

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Leonel Brizola — único político brasileiro que foi governador de dois estados, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro — sabia que a educação era a única saída para o povo brasileiro. E, com a assessoria do gênio Darcy Ribeiro, criou os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Bastou Brizola deixar o governo do Rio de Janeiro, seus sucessores trataram de eliminar os CIEPs.

Para a elite servil que temos, o povo educado é o maior perigo. Até porque esta elite vive de farsas, engôdos e aparências. É tão ou mais ignorante do que o povo que ela despreza.

Que tsunami foi esse que atravessou o Brasil, de ponta a ponta, a partir de 1980, levando nossas riquezas, nossa tecnologia, nosso desenvolvimento e, até mesmo, nossa moral?

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Onda varre o Brasil desde 1980, levando nossas riquezas, nossa tecnologia, nosso desenvolvimento e, até mesmo, nossa moral

Foto: Rodrigo Soldon Souza/Flickr
É indispensável que o povo brasileiro entenda as falácias, as burlas, que lhes são colocadas pelas comunicações de massa oligopolistas




Recordando a guerra fria

Duas grandes guerras – 1914/1918 e 1939/1945 – mudaram a história e a geopolítica mundial. Mas comecemos bem antes, fazendo algumas remissões para acompanhar a construção dos pensamentos.

Pelos séculos 15/16, o Oriente deixara de trazer as novidades da época do Renascimento europeu, também os mongóis já não mais ameaçavam o “Ocidente”, e a Europa criava seus impérios além-mar.

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A conquista do Novo Mundo enriqueceu a Europa e consolidou a escravidão, sob diversas formas. Assim transcorreram, os séculos 16 e 17. Surge nesse momento a ideia da liberdade, porém só aplicável às diversas formas do capital.

Era o que faziam crer os discursos e escritos de treze grandes pensadores, entre o nascimento de Thomas Hobbes (1588) e de Hegel (1724), sendo mais destacáveis: Descartes (1596-1650), Adam Smith (1723-1790) e Immanuel Kant (1724-1894), formando a cultura ocidental, que dominou o mundo até o século 20.


Revoluções

As revoluções europeias do século 18 (Industrial, 1760, e Francesa, 1789), e a Constituição dos Estados Unidos da América (EUA), de 1787, produziram novos padrões no relacionamento dos homens que, aparentemente, gozavam de maior liberdade.

Era uma cultura que podemos denominar genericamente de “liberal”, ou seja, a liberdade individual. Na passagem do século 19 para o 20, notou-se que esta liberdade não atingia toda sociedade; havia os que dela lucravam e os que viviam como escravos.

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Surgiram, então, políticos, pensadores, cientistas com viés humanista, pensadores, que foram conquistando povos e intelectuais: Saint-Simon (1760-1825), Jean-Baptiste Fourier (1768-1830), Robert Owen (1771-1858), Papa Leão XIII (preocupado com as condições dos trabalhadores, promulgou em 1891 a Encíclica Rerum Novarum) e os materialistas como Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), que estruturaram o sistema político, econômico e social que veio a ser denominado comunismo.

O fato é que, na sociedade florescente após o fim da Segunda Guerra (1945), estaria fadada à derrota propor o retorno às condições de imobilidade social dos tempos em que a escravidão era tão marcante.


Guerra fria

A Guerra Fria que dominou a segunda metade do século 20, com muitas guerras ”quentes”, selou o fim dos impérios europeus e colocou a questão da liberdade, identificada como capitalismo, contra a do humanismo socialista e comunismo, como o maior confronto no Planeta.

Aqui, entre 1930 e 1980, os governos, com maiores ou menores competências e ênfases administrativas, aproveitaram a Guerra Fria para tirar proveito para o Brasil.

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De modo genérico, foram governos nacionalistas os que nos dirigiram na Era Vargas (1930 a 1945).


Retorno ao século 18 com tecnologia do século 20

As finanças inglesas e suas projeções na Europa e nos EUA foram a grande derrotada das guerras e dos pensamentos formados no século 19. Embora a Guerra Fria se apresentasse como o capitalismo lutando contra o comunismo, a verdadeira luta, efetivamente, era travada entre o industrialismo e o rentismo financeiro.

Do lado industrialista, estavam capitalistas e socialistas, como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que colocavam a industrialização como o passo seguro para o socialismo. O industrialismo visava à produção em grande escala, que reduzia custos, mas exigia, por outro lado, a atualização tecnológica para garantir a qualidade dos produtos.

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A industrialização em larga escala resultava numa sociedade de consumidores, que, para consumirem, necessitavam de recursos que, nas dimensões nacionais e mesmo internacionais, significavam empregos e salários. Isso ocorria não só nos EUA, mas também nas Américas, Europa, África e Ásia, a ponto de levar a Associação Francesa de Economia Política a criar a expressão “os trinta anos gloriosos”.

São aqueles compreendidos entre o fim da II Grande Guerra e as crises do petróleo (1973-1978), que provocaram a queda do desenvolvimento e dos anos de fartura. No início do século 20, as finanças se unem na Escola Austríaca de Economia em torno das ideias neoliberais de Carl Menger (1840-1921), congregando, entre outros, Frank Fetter (1863-1849), von Mises (1881-1973) e Friedrich Hayek (1899-1992).


Neoliberalismo

O neoliberalismo começa então sua trajetória política com as farsas, falácias e muita corrupção. Pode-se dizer que essas condições existiam em todos os tempos e em todas as sociedades. Só que sempre foram formalmente condenadas e reprimidas. Não se conhece, fora do neoliberalismo, quem as adote como política de conquista e manutenção do poder.

Em 2010, 630 economistas assinaram manifesto denunciando as farsas dos neoliberais na economia europeia. Entre outras farsas, estão a eficiência dos mercados financeiros, que favorecem o crescimento econômico, que estes mercados são “bons juízes do grau de insolvência dos Estados”, que a subida extraordinária das dívidas públicas deve-se ao excesso de despesas, que o euro é um “escudo de proteção contra a crise”.

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Do Manifesto dos 630 economistas reproduziremos abaixo a questão da redução das despesas para diminuir a dívida pública, pois é a que mais se divulga no Brasil, para levar o Estado não colocar dinheiro em saúde, educação, moradia, mobilidade urbana e saneamento básico, condições mínimas para a cidadania.

Do “Manifeste des économistes atterrés” (Les Liens que Libèrent, Paris, 2010, em tradução livre):

“ainda que, parcialmente, o aumento da dívida pública resultasse do aumento das despesas públicas, o corte destas despesas não contribuiria, necessariamente, para a solução. Porque a dinâmica da dívida depende de vários fatores, entre eles a diferença entre a taxa de juros e a taxa de crescimento da economia”.

E, adiante, explica: “a própria taxa de crescimento da economia não é independente da despesa pública: no curto prazo a existência de despesas públicas limita a magnitude das recessões e a longo prazo, os investimentos e as despesas públicas estimulam o crescimento. Portanto é de todo falso afirmar que o déficit público aumenta necessariamente a dívida pública e que qualquer redução deste déficit permite reduzir a dívida”.

Estes economistas também criticam, como já o fazia Aristóteles (384/322 a.C. – Política), que a economia do Estado nada tem a ver com a economia doméstica.

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A governança sem ética e comunicação desonesta

Sendo o neoliberalismo um embuste, o que se pode esperar de suas governanças?

É o que o Brasil está conhecendo desde 1980:

— privatizações, que transferem para o exterior os patrimônios formados pelo suor do povo brasileiro;

— exploração dos recursos naturais do País por estrangeiros;

— redução quando não a eliminação dos direitos trabalhistas;

— escravidão dos ubers e dos MEIs;

— constantes ameaças às aposentadoria e pensões;

— desmembramento do Estado Nacional, incapacitando-o à defesa do País;

— falta de um plano estratégico de desenvolvimento e investimentos em infraestrutura;

— desemprego ou subemprego;

— aumento da miséria, doenças, mortes neonatais pelo baixo peso, infecções e prematuridade, entre muitas outras tragédias na área da saúde;

— insegurança permanente das pessoas pela violência nas ruas.

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A religião, no Ocidente, sempre foi usada no processo de dominação.

“Há aí a hipocrisia que, depois de minar debaixo da terra durante anos, surge enfim à luz do Sol e, balouçando o turíbulo, incensa todos os que abusam da força, declarando-os salvadores da religião, como se a religião precisasse de ser salva ou coubesse no poder humano destruí-la” (Alexandre Herculano, “História da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal”, 1854).

Nas farsas do poder neoliberal, misturam-se ideias, religiões, interesses econômicos inconfessáveis, tudo enfim que possa confundir ainda mais um povo analfabeto político. E o velho, o pré-industrial, se apresenta como o moderno, como o inexorável, um inelutável futuro, do Estado Mínimo, do poder do mercado, da liberdade concedida somente ao capital.

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E quem é o capital após as desregulações da década de 1980?

Todos. Dos capitais das famílias aristocratas possuidoras de terras onde se encontram cidades na Grã-Bretanha, passando pelos industriais que deixaram suas fábricas, mas não os cargos nas federações das indústrias, aos traficantes de drogas e seres humanos. Os capitais provenientes do crime são ainda os que têm o poder da liquidez. E os mais importantes não são os nos capitais fundiários nem aplicados em títulos de longo prazo. Mas os que recebem à vista pelos vícios e pelos crimes.

O Brasil, no século 21, vive esta trágica realidade: a questão nacional foi substituída pelas identitárias, como se questões de cor, sexo, etnia existissem sem um território, como se fosse possível lutar pela cidadania, onde não existem cidadãos!

É indispensável que o povo brasileiro entenda as falácias, as burlas, que lhes são colocadas pelas comunicações de massa oligopolistas e pelos meios virtuais, todos sob controle externo, de interesses estrangeiros, com único objetivo de espoliar, furtar, dominar este rico Brasil.

Pedro Augusto Pinho | Administrador aposentado.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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