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Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Novo relatório alerta: crise climática matou, causou fome e extrapolou recordes em 2023

Ondas de calor, inundações, secas, incêndios e ciclones se intensificaram, atingindo a vida de milhões de pessoas e causando milhões de dólares em perdas
Redação IPS
IPS
Genebra

Tradução:

Carolina Ferreira

O ano de 2023 foi o mais quente já registrado e foram batidos recordes de níveis de gases com efeito de estufa, calor e acidificação dos oceanos, aumento do nível do mar e derretimento de geleiras, mostrou um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgado em março. “O conhecimento científico sobre as alterações climáticas existe há mais de cinco décadas, mas perdemos toda uma geração de oportunidades. Agora soou o alerta vermelho sobre o estado do clima global”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, ao apresentar o relatório.

Ondas de calor, inundações, secas, incêndios florestais e ciclones tropicais que se intensificaram rapidamente causaram miséria e caos, perturbaram a vida quotidiana de milhões de pessoas e infligiram milhões de dólares em perdas econômicas, afirma o relatório. Esse relatório confirmou que 2023 foi o ano mais quente já registrado, com uma temperatura média global próxima da superfície de 1,45 graus Celsius acima da linha de base pré-industrial e coroou o período de 10 anos mais quente já registrado.

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O Acordo de Paris, adotado em 2015 por quase todos os países do globo, visa reduzir a emissão de gases de efeito estufa, que aquecem a atmosfera, para que a temperatura média global não ultrapasse 1,5 °C até o ano 2050, nem mais que dois graus no final do século, em relação à era pré-industrial (1850-1900).

Rio Negro, no bairro São Raimundo em Manaus, próximo ao estaleiro Santa Fé, com seu nível muito baixo, sendo a maior seca em 121 anos (Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil)

As concentrações dos três principais gases com efeito de estufa (dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso), observadas, atingiram níveis recorde em 2022 e continuaram a aumentar em 2023.

Para além da temperatura do ar

A OMM afirma que as alterações climáticas são muito mais do que a temperatura do ar, pois o aquecimento sem precedentes dos oceanos e o aumento do nível do mar, o derretimento de geleiras e a diminuição de gelo marinho na Antártida também fazem parte do panorama sombrio. Em um dia típico de 2023, quase um terço da superfície do oceano foi afetada por uma onda de calor marinha, danificando ecossistemas vitais e sistemas alimentares.

As geleiras sofreram a maior perda de gelo já registrada desde 1950, com derretimento extremo no oeste da América do Norte e na Europa. Por exemplo, as da Suíça perderam cerca de 10% do seu volume. “A crise climática é o desafio decisivo que a humanidade enfrenta. Está intimamente relacionada com a crise da desigualdade, como demonstrado pela crescente insegurança alimentar, deslocamento populacional e perda de biodiversidade”, disse Saulo.

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O relatório recorda que o número de pessoas que sofrem de insegurança alimentar aguda mais do que duplicou, passando de 149 milhões antes da pandemia de COVID-19 para 333 milhões em 2023, segundo dados do Programa Alimentar Mundial (PAM). Na seção sobre a América Latina e o Caribe, o relatório observa que foram registradas temperaturas invulgarmente quentes no ano passado, no México e na América Central, bem como em grandes áreas da América do Sul.

As temperaturas da superfície do mar aumentaram no Golfo do México e no Caribe, e a assinatura do fenômeno El Niño – ventos quentes sobre o Pacífico equatorial central e oriental – tornou-se visível com o aumento do nível do mar e alterações nos regimes climáticos, chuvas e secas na região.

Perdas econômicas

A maior perda econômica registrada em um único evento em 2023 foi causada pelo furacão Otis, que atingiu a costa do Pacífico do México no final de outubro. O furacão causou destruição generalizada na cidade turística de Acapulco e arredores, com 47 mortos, 32 desaparecidos e perdas econômicas estimadas em 15 milhões de dólares.

Entre as áreas de seca mais significativas estavam o norte da Argentina e o Uruguai, um país onde as reservas de água atingiram níveis criticamente baixos, o que afetou seriamente a qualidade do abastecimento aos principais centros, incluindo a capital, Montevidéu. Oito estados brasileiros registraram as menores precipitações de julho a setembro de 2023 em mais de 40 anos.

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Em 2023, a produção recorde de milho no Brasil compensou colheitas abaixo da média em outras partes da América do Sul devido a períodos prolongados de seca, especialmente na Argentina, onde a produção de cereais deverá diminuir 15% em comparação com a média de cinco anos.

O retorno do El Niño em 2023 teve consequências adversas em todo o ciclo de cultivo do milho na América Central e nas áreas do norte da América do Sul, onde o déficit hídrico e as altas temperaturas reduziram tanto a área de plantio quanto os rendimentos.

Motivos para otimismo

O relatório da OMM também oferece alguns motivos para otimismo: em 2023, as adições de capacidade de energia renovável aumentaram quase 50%, atingindo um total de 510 gigawatts (GW), a taxa mais elevada registrada em duas décadas. O aumento da geração de energia renovável, impulsionada principalmente pela radiação solar, pelo vento e pelo ciclo da água, posicionou-a como uma força líder na ação climática para atingir as metas de descarbonização.

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Desde a adoção, em 2015, do Quadro de Sendai (no Japão) para a redução do risco de catástrofes, tem ocorrido um aumento no desenvolvimento e na implementação de estratégias locais de redução do risco de catástrofes. Também entre 2021 e 2022, os fluxos financeiros globais relacionados com o clima quase duplicaram em comparação com os níveis de 2019-2020, atingindo quase 1,3 bilhões de dólares.

No entanto, isto representa apenas cerca de 1% do produto bruto global, evidenciando uma lacuna financeira significativa. Para atingir os objetivos da trajetória de 1,5°C, os investimentos anuais no financiamento climático devem aumentar mais de seis vezes, atingindo 9 biliões de dólares até 2030, sendo necessários 10 biliões de dólares adicionais até 2050, afirma a OMM no seu relatório.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Redação IPS

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