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Países cobram "giro dramático" do Banco Mundial e FMI frente à emergência climática

Segundo The Economista, o FMI "aspira representar todo mundo, e ao mesmo tempo é um clube controlado pelos EUA e seus aliados ocidentais”
Jim Cason
La Jornada
Washington

Tradução:

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) inauguram suas reuniões semianuais em Washington rodeados de críticas de quase todos, desde nações em desenvolvimento, líderes internacionais e até alguns de seus países membros mais poderosos por sua lentidão em reformar suas políticas e práticas para abordar a mudança climática de maneira efetiva e o fracasso de suas estratégias de desenvolvimento.

Em janeiro, o secretário geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, condenou o “sistema financeiro global moralmente em bancarrota… Desenhado para beneficiar os ricos e os poderosos”.  

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O Plano de Implementação Sharm el-Sheikh emitido na conclusão da cúpula sobre mudanças climáticas COP-27 no Egito, em novembro de 2022, apelou por “uma transformação rápida e integral do sistema financeiro internacional e suas estruturas e processos”.  

A primeira-ministra Mia Motley, de Barbados, a qual se converteu em uma das vozes internacionais mais destacadas em apelar a uma ação urgente sobre as implicações da mudança climática, declarou também em novembro que o mundo tem que mudar “o sistema financeiro que… está nos impedindo de ser arquitetos e artesãos de nosso próprio destino, em lugar de simplesmente permanecer à espera da caridade de outros no Norte Global”.  

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Por sua vez, a liderança política eleita em anos recentes em algumas das principais nações da América Latina, questiona diretamente o modelo de desenvolvimento que foi promovido historicamente por estas duas instituições multilaterais. 

Estas pressões a favor de uma mudança no sistema sustentado por estas duas instituições multilaterais estão obrigando alguns dos maiores contribuintes destas entidades a abraçarem o apelo a um giro dramático. Depois da COP-27, a França aceitou ser anfitriã de uma conferência em junho chamada Cúpula para um Novo Pacto Financeiro Global, à qual já confirmaram presença o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e Mia Motley.  

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A Alemanha já se somou aos apelos por “reformas fundamentais” no BM. Em fevereiro, a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, afirmou que o modelo multilateral atual é “insuficiente para abordar o momento”. 

Segundo The Economista, o FMI "aspira representar todo mundo, e ao mesmo tempo é um clube controlado pelos EUA e seus aliados ocidentais”

Agência Brasil
Para conseguir a mudança necessária, países pequenos e médios terão que atuar de maneira coletiva, aponta especialista




FMI: Crise de identidade

A revista The Economist descreveu o FMI como uma instituição padecendo de uma “crise de identidade”, e declarou que o Fundo “está paralisado porque é uma instituição multilateral que aspira representar todo mundo, e ao mesmo tempo é um clube controlado pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais”.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, ao falar em um foro na semana passada em Washington, rechaçou que sua instituição esteja paralisada. “Nossos membros falam com suas ações, e 96 deles votaram por ingressar ao FMI só nestes últimos anos… Desde que iniciou a guerra na Ucrânia, tivemos 40 novos programas [acordos de crédito]”, afirmou. O fato de que países continuam solicitando empréstimos ao FMI é, segundo ela, um voto de confiança no sistema.

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Banco Mundial e o mapa do caminho revolucionário

O BM, que tem um papel diferente ao do FMI, respondeu às críticas elaborando o que chama de “um mapa de caminho revolucionário”, que será apresentado aos governadores da instituição nos próximos dias.

O mapa reconhece que “o sistema de desenvolvimento global permanece extremamente insuficiente para mitigar estas crises e assegurar um desenvolvimento sustentável, inclusivo e resiliente. Um esforço de maior escala e financiamento será necessário por parte de todas as fontes, domésticas e internacionais, e também do setor privado”. 

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O texto acrescenta que “o Grupo do BM tem que evoluir em resposta à confluência sem precedentes de crises globais que voltou o progresso em desenvolvimento e ameaça as pessoas e o planeta”.


Desafios do curto prazo

Mas grande parte do debate público em Washington se focou nos desafios de curto prazo. 60% dos países de baixos ingressos estão em apuros por dívida ou enfrentando alguma vulnerabilidade de dívida com uma quarta parte de economias emergentes qualificadas como em “alto risco”. 

O FMI projetou este mês que o crescimento global será menor que 3% durante os próximos cinco anos, um nível que a diretora gerente Georgieva reconhece que tornará mais difícil a pobreza, sanar as feridas econômicas da pandemia e melhorar a vida do planeta. 

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Críticos apontam que será necessário elevar dramaticamente os montantes de dinheiro disponível e mudar o paradigma de desenvolvimento destas duas instituições.


Transição para energia renovável

Em seus comentários na semana passada, Georgieva reconheceu que alguns calculam que se requer até 1 trilhão de dólares anuais em financiamento para apoiar uma transição internacional à energia renovável. O BM calcula que são requeridos US$ 2,4 trilhões anuais para que países em desenvolvimento possam abordar a mudança climática, conflitos e pandemias entre 2023 e 2030.

A cifra da COP27 é ainda mais alta, concluindo que são requeridos investimentos de pelo menos 4 a 6 trilhões de dólares anuais para uma economia de baixo carbono. 

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Embora o FMI e o BM conseguiram oferecer bilhões a mais para países em desenvolvimento tanto para redução da pobreza como para abordar desafios estruturais relacionados à mudança climática em anos recentes, os números não chegam nem perto da cifra de um trilhão de dólares anuais que supostamente são necessários.


Conflitos de objetivos

Um problema, comenta Niranjali Amerzasinghe, diretora executivo da ActionAid USA, é que o marco de políticas costuma estar em conflito com os objetivos de desenvolvimento e clima. O que encontramos, desde que se adotou o Acordo de Paris sobre Mudança Climática, é que mais da metade dos países que o FMI assessora ampliaram sua infraestrutura de combustíveis fósseis para manejar suas balanças de pagamentos”, alguns através de novos empréstimos, comentou em entrevista ao La Jornada. Ela agrega que esses países depois correm o risco de que essa infraestrutura perca valor diante da competição de produtores de energia limpa e, além disso, fiquem com a nova dívida. 

“Há uma brecha ampla entre a necessidade de reforma e as mudanças graduais que ocorrerão em 2023 – não temos tempo para que isto tome 20 anos”, comenta Kevin P. Gallagher, professor de políticas de desenvolvimento global na Universidade de Boston. Em entrevista ao La Jornada, Gallagher diz que o mundo em desenvolvimento tem que examinar de maneira crítica não só os projetos apoiados pelo BM, mas todo o esquema de política detrás deles. 

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Uma pergunta que fica no ar ao se reunirem os ministros de finanças do mundo nas reuniões do FMI e do BM, e é se os representantes dos países mais impactados pela consequência da mudança climática e antigos modelos de desenvolvimento terão a vontade política para insistir em mudanças de grande escala. Para países pequenos e até alguns médios, é perigoso confrontar de maneira individual estas poderosas instituições que regulam o sistema financeiro global. Portanto, para conseguir uma mudança, terão que atuar de maneira coletiva.

David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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