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PoderData: eleito com 50,9% dos votos, Lula já é aprovado por quase 60% dos brasileiros

Presidente termina seu primeiro mês de mandato com 43% dos entrevistados considerando o governo ótimo/bom

Renata Mielli
Holofote
São Paulo (SP)

Tradução:

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Quando um veículo de comunicação estampa manchete sobre o resultado de uma Pesquisa de Opinião, seu objetivo claramente é dar para aquela notícia uma camada adicional de credibilidade. Afinal, pesquisas são resultado de uma aferição objetiva, baseada em uma metodologia científica, quase inquestionável. Será?

Mesmo pesquisas de opinião pública possuem viés. Desde a amostragem, passando pela formulação das perguntas, até a tabulação dos resultados. Claro, há sem dúvida um processo metodológico, mas ele não é blindado de interferências. Principalmente, qualquer pesquisa precisa ser avaliada à luz da situação política em que foi realizada.

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Mas o pior viés da pesquisa ocorre no momento da sua divulgação por um veículo de comunicação, que escolhe por critérios editoriais – que não são objetivos e nem imparciais – o que ressaltar como mais importante.

É o caso da manchete do Poder 360 desta terça-feira, 7, – Novo Governo Lula: o 3º mais rejeitado da Democracia, retratando resultado da pesquisa PoderData, apontando que 35% dos eleitores consideram o primeiro mês do governo Lula ruim ou péssimo.

Quer saber como Lula tem trabalhado? Confira 31 ações do primeiro mês do novo governo

A primeira coisa a se avaliar é que Lula foi eleito no segundo turno com uma pequena diferença de votos, numa das eleições mais divididas e conflagradas do país desde a democratização. A reportagem do Poder 360 não toma o cuidado de contextualizar a pesquisa a este cenário e à conjuntura do país.

Pior, mostra que a reportagem também adota um viés. Ao olhar o resultado da pesquisa, o dado que merece atenção não é a rejeição de 35%, o que seria esperado diante de um país que passou por uma eleição na qual houve questionamento da lisura das urnas eletrônicas, com parcela da base radicalizada da direita clamando por intervenção das Forças Armadas, e que viveu uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro.

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O que chama atenção é que mesmo depois de todo o cenário que vivemos, o presidente Lula termina seu primeiro mês de mandato com 43% dos entrevistados considerando o governo ótimo/bom e 14% como regular, o que somados mostram que há uma aprovação do governo por 57% dos entrevistados. Este sim é um dado muito mais relevante no atual cenário, do que os 35% de ruim/péssimo.

As comparações numéricas feitas pela tabela do Poder 360, não podem ser vistas apenas pela frieza dos números que isolados de seus contextos não conseguem dimensionar exatamente o que significam do ponto de vista político, cada medição feita.

Olhar os índices de ótimo e bom dos presidentes eleitos pós democratização nos faz refletir que os 43% de Lula no atual contexto é muito mais significativo do que, por exemplo, os 48% que o mesmo Lula teve no primeiro mês de seu segundo mandato.

Presidente termina seu primeiro mês de mandato com 43% dos entrevistados considerando o governo ótimo/bom

Ricardo Stuckert
Será que o jornalismo está se rendendo à produção de chamadas no formato caça cliques para buscar maior audiência nas redes sociais?




Algumas questões para reflexão

Qual o significado de fundo da escolha desta manchete pelo Poder 360?

O que esse tipo de abordagem representa do ponto de vista do tom que a cobertura de parte da mídia pretende adotar sobre o atual governo?

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Será que o jornalismo está se rendendo à produção de chamadas no formato caça cliques para buscar maior audiência nas plataformas de redes sociais?

Quaisquer que sejam as respostas para estas perguntas, o que precisamos urgentemente é qualificar o conteúdo e a forma da produção jornalística na perspectiva de buscar oferecer à sociedade informações que ajudem a superar a divisão política e a elevar a qualidade do debate público, o que, infelizmente, não me parece que é o caso da reportagem do Poder 360

Renata Mielli | Jornalista, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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