Pesquisar
Pesquisar

Por que EUA precisam do maior orçamento militar do planeta se a ameaça vem de dentro?

Neste ano, os principais demônios e monstros que ameaçam este país já não vêm de “fora”, não são estrangeiros, nem extraterrestres, mas são sim estadunidenses
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Desde suas origens, este país tem se definido, em grande medida, em torno ao temor diante do “outro”; seus políticos justificaram guerras, invasões, intervenções, tortura, genocídios de indígenas, escravidão, discriminação e um fervor armamentista sem igual até hoje.  

Quase tudo organizado em torno a uma constante “ameaça” que quase sempre provém do exterior.  O inimigo, como em quase todos os países, é “demonizado” — a ameaça mexicana, a “amarela”, a “vermelha” (primeiro indígenas, depois comunismo) — e assim nutrindo mais guerras, ondas anti-imigrantes, a xenofobia e uma percepção do crime vinculado a minorias e aos “outros” (com isso se chegou a ser o país que mais encarcera no mundo).  

O país mais poderoso da história é aparentemente o país mais assustado do mundo.  

Por isso é que os Estados Unidos necessitam o orçamento militar mais massivo do planeta (maior que o total combinado dos próximos 11 países com maior gasto militar) — o temor sempre esteve entre as melhores armas dos políticos para justificar e manter seu poder e as guerras quase constantes ao longo da história deste país. 

Mas neste ano, os principais demônios e monstros, “inimigos” e outros que ameaçam este país já não provêm de “fora”, não são estrangeiros, nem extraterrestres, nem estão disfarçados de outra coisa, mas sim são estadunidenses.  

EUA gastaram trilhões em guerra contra Afeganistão e saldo foi aumento de refugiados

Segundo o consenso das agências de inteligência e segurança interna e de uma ampla gama de analistas políticos, a maior ameaça aos Estados Unidos hoje provém de extremistas brancos e seus promotores, entre eles o ex-presidente Donald Trump e seus aliados.  

Neste ano, os principais demônios e monstros que ameaçam este país já não vêm de “fora”, não são estrangeiros, nem extraterrestres, mas são sim estadunidenses

Freepix
O país mais poderoso da história é aparentemente o país mais assustado do mundo.

“Quando visitava Estados Unidos nos sessenta e setenta, tinhas que assinar uma declaração de que não tinhas a intenção de derrocar o governo estadunidense pela força. Nunca percebi que isso só se aplicava aos estrangeiros”, tuitou recentemente o grande cômico inglês John Cleese, integrante do Monty Python.

As investigações em curso sobre a tentativa de golpe de Estado em 6 de janeiro continuam revelando uma rede cada vez maior de cumplicidade entre grupos extremistas de direita e legisladores federais e assessores republicanos. 

O Washington Post, em uma ampla pesquisa, conclui que esse dia foi uma parte do “assalto pelo Presidente Donald Trump sobre a democracia estadunidense” que impulsionou desde meses antes e que essa “insurreição não foi um ato espontâneo nem um evento isolado. Foi uma batalha de uma guerra mais ampla em torno à verdade e sobre o futuro da democracia estadunidense”.

Há uma semana uma gama extraordinária de proeminentes escritores, acadêmicos e analistas conservadores tradicionais, centristas e liberais publicaram uma “Carta Aberta em Defesa da Democracia” deplorando o assalto por forças trumpistas do processo político-eleitoral.  

“Instamos a todos os cidadãos responsáveis a quem lhes importa a democracia — funcionários públicos, jornalistas, educadores, ativistas, cidadãos comuns — ter como prioridade urgente agora a defesa da democracia… Agora é o momento para que líderes de todos os tipos… se apresentem para oferecer seu apoio à República”. 

Durante os anos de Trump e agora com o Partido Republicano subordinado ao seu projeto neofascista, vozes desde Noam Chomsky à de ex-generais — algo inusitado — repetiram que o experimento democrático estadunidense está mais ameaçado hoje que nunca desde a Guerra Civil, algo que poderia ter graves consequências internacionais. 

Enquanto o Halloween desafortunadamente tem contaminado o México há anos, o Dia dos Mortos está se infiltrando cada vez mais nos Estados Unidos. Talvez isso abra a possibilidade de convocar os grandes defensores deste povo de imigrantes — com cempsuchil e copal e talvez um pouco de uísque também — a acompanhar a luta para resgatar seus princípios democráticos e para deixar de assustar-se, e com isso, assustar todos ao seu redor. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

LEIA tAMBÉM

Malnutrition in Zamzam camp, North Darfur
Guerra no Sudão: Emirados Árabes armam milícias, afirma investigação; Espanha dificulta asilo
estudo-Lancet-palestinos
186 mil palestinos assassinados: Lancet divulga estudo alarmante sobre vítimas em Gaza
Quenia-FMI
Nova jornada de manifestações no Quênia exige queda de Ruto e das políticas abusivas do FMI
begona-gomez-pedro-sanchez-ksuF--1200x630@diario_abc1
Esposa de Pedro Sánchez se recusa a depor em processo de corrupção e tráfico de influências