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“Projeto europeu” é mito para impor neoliberalismo, usando violência se necessário

Belicismo e rearmamento da “Europa”, tido como necessidade para defesa dos “valores europeus”, resulta que bloco e ucranianos são já os grandes vencidos
Daniel Vaz de Carvalho
Resistir.Info
São Paulo (SP)

Tradução:

Este artigo é uma continuação da publicação Suicídio, assassinato, eutanásia: O que explica submissão da União Europeia aos EUA?.


4 – A UE e a guerra na Ucrânia

Disse o primeiro-ministro A. Costa, na AR, que há várias causas estruturais para a inflação, mas a principal é a agressão da Rússia contra um Estado soberano e independente como a Ucrânia. Faltou acrescentar: uma agressão perpetrada por um Estado que não faz parte da Otan ou aliados como a Arábia Saudita (Iémen) ou Israel (Líbano, Palestina), pois só estes estão autorizados – pela “comunidade internacional”, eles próprios – a agredir Estados ou povos em qualquer continente.

Nem se esperava que dissesse outra coisa, pois na Otan compete aos governos submeterem-se ao que é decidido em Washington. Na realidade não existe uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia, essa acabou nas duas primeiras semanas; nem mesmo da Otan europeia com a Rússia, que dois meses depois teria terminado. O que existe é uma guerra entre os EUA e a Rússia, com a UE pelo meio exibindo a sua irrelevância militar, desorientação política, fragilidade econômica. Resta-lhe propaganda muito assertiva para mascarar tudo isto e para que o “Ocidente” lute até ao último ucraniano.

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A clique neonazi de Kiev sem capacidade industrial militar depende de equipamentos a munições para continuar a defender a política projetada pelos neocons de Washington. Segundo o Coronel (R) norte-americano Douglas McGregor, as tropas ucranianas falharam e não poderão recuperar o que já perderam. Ninguém na Europa quer uma guerra com os russos. A maioria das forças armadas desses países são puramente simbólicas. Sem capacidade para suportarem um golpe dos russos. Os europeus não estão prontos para lutar. Alinharam com Biden em como Putin seria rapidamente levado a renunciar. E acreditaram. Agora temos uma lição. A Rússia tem muitos recursos, talvez o país mais rico em recursos, e não vai recuar: os índices de popularidade de Putin estão subindo. Afinal, ele defende a Rússia. (Intel Slava Z – Telegram 22/7)

A propaganda excedeu-se dizendo que com os HIMARS dos EUA o curso da guerra iria mudar e a derrota da Rússia seria visível já a partir de julho – depois adiada para o fim do ano… Devido à sua eficiência e alcance, conseguiram infligir perdas ao exército russo, danificando uma ponte estrategicamente importante e destruindo vários depósitos militares. No entanto, essas unidades imediatamente se tornaram alvos sendo fornecidas evidências da destruição de vários desses sistemas. O seu custo era em 2020, US$5,6 milhões, sem os mísseis. A chegada à Ucrânia de sistemas de mísseis antiaéreos S-400 alterou a situação. Em 21 de julho foram interceptados e derrubados todos os 12 mísseis lançados.

Fome atinge 7,5 milhões na União Europeia, enquanto bloco discute novas sanções à Rússia

Afinal o que está a UE a defender na Ucrânia? Quanto aos EUA entende-se o seu desígnio geopolítico. Mas a UE, só por masoquismo ou cegueira coletiva se alinha nesta loucura, em que um corrupto como Zelensky, que a CIA denunciava em 2019, alcançou o poder aliado a um mafioso, mantém-se aliado a neonazis num Estado policial, baniu onze partidos da oposição e realizou um reino de terror contra oponentes políticos, como o ex-líder das forças de esquerda ucranianas, Vasily Volga, e os irmãos Kononovich, líderes da Liga dos Jovens Comunistas da Ucrânia, acusados de serem pró-russos. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), tem o mesmo tamanho que o FBI, apesar da Ucrânia ser 16 vezes menor que os EUA. Em UKR LEAKS, Vasily Prozorov, ex-elemento da SBU, revelou os crimes cometidos pelo regime de Kiev desde 2014, apresentando documentos secretos, fotos e vídeos.

Recentemente, foi aprovada uma lei anti sindical para destruir a legislação laboral, a UE serve de argumento: “Um trabalhador deve ser capaz de regular sua relação com um empregador, sem o Estado. Isso é o que acontece num Estado se for livre, europeu e orientado para o mercado. Caso contrário, o país estará com uma perna num comboio expresso para a UE e com outra dentro num comboio da era soviética indo noutra direção”. As leis aprovadas tinham sido derrotadas em 2020-2021 em resultado de uma campanha de protesto dos sindicatos, uma perspectiva agora difícil de imaginar devido à lei marcial.

Pelos vistos, os partidos socialistas/sociais-democratas apoiam e defendem tudo isto, incluindo o domínio dos oligarcas, o desprezo do governo de Kiev pelas leis e democracia, a corrupção denunciada nos Pandora Papers, a pobreza generalizada já antes da guerra, o neonazismo. Para manter tudo isto, que os diabólicos russos querem eliminar, a UE decidiu providenciar 9 bilhões de euros. Ao nível do comediante de Kiev, Boris Johnson acaba de lhe atribuir o prémio Winston Churchill!

A UE comprometeu-se também a participar na reconstrução da Ucrânia. Como e quando, não esclareceram. Mais de 10 milhões de ucranianos foram afetados pela guerra, um quarto da população precisa de alimentos básicos; 24 mil km de estradas e 5,5 milhões de casas foram danificadas ou destruídas; os danos ambientais são consideráveis; quase cinco milhões de empregos foram perdidos; estima-se que a economia encolherá 41% este ano. Segundo estimativa, há cerca de um mês seriam necessários 700 bilhões de euros para a reconstrução. Quem paga? Mas a guerra prossegue e, nos media, ai dos que defendam a temática da paz. [1]

Belicismo e rearmamento da “Europa”, tido como necessidade para defesa dos “valores europeus”, resulta que bloco e ucranianos são já os grandes vencidos

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Como é que uma potência que propõe um tratado de segurança coletiva, que a outra parte recusou, é considerada uma ameaça à segurança?




5 – Acerca da (in)segurança energética da UE

Qual era o plano da UE para passar sem gás e petróleo russos quando começou a aplicar em 2014 sanções à Rússia? Nenhum. No mais puro delírio apenas se lembraram em 2021, achando que os EUA e outros fornecedores – vários também sob sanções, como a Venezuela e Irã! – os substituiriam… a Rússia iria sofrer, “libertar-se” de Putin, colocando em seu lugar outro Yeltsin de boa memória no Ocidente!

Agora a UE vê a segurança energética dissipar-se e “comentadores” nos media parecem lacrimejar mostrando como a Rússia é má para a UE. Então, que plano tem a UE nestas condições? Chegar a acordo com a Rússia como fornecedora de energia? Nunca, antes terá de ser derrotada e Putin substituído.

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O próprio FMI parece mais preocupado com o desastre da UE que Bruxelas: o corte total de gás russo poderia levar a Alemanha a uma redução do PIB de 3%, mas noutros países da Europa Central e Leste poderia chegar a 6%. Independentemente desta situação limite que a NATO e UE provocaram, com o boicote ao Nord Stream 2, sanções a peças para o Nord Stream 1, no início de 2020 o gás custava à UE 100 euros por mil metros cúbicos, um ano depois, 250 euros, em junho deste ano 1.700 euros, tendo já ultrapassado os 2.000 euros.

Quem ganha com isto, claro, que é a Rússia, mas também nos EUA as empresas energéticas que aumentaram as vendas para a UE em 34%. Quem perde: a UE, que devia saber que sem energia barata e abundante não há crescimento econômico nem competitividade internacional.

União Europeia se alinha à política de Biden para receber coordenadas contra China e Rússia

O setor estratégico da energia revela a espantosa debilidade política dos líderes da UE, a começar pela sra. von der Leyen, que sem dúvida faria melhor se se dedicasse à sua bem louvável especialidade médica. Pois esta senhora que foi ao Japão ameaçar a China (!?) nada melhor inventou para baralhar os países que querer reduzir em 15% os consumos de gás – 15% que representam 30% do que é importado da Rússia – e os outros 70%?

A questão é: onde está o planejamento para prescindir do gás economicamente transportado nos gasodutos parcialmente fechados pelas sanções, e fazer complexos terminais portuários para receber nas quantidades necessárias um abastecimento seguro? Planejamento em termos de localizações, projetos de engenharia, prazos, mão de obra, materiais e equipamentos necessários, cadernos de encargos, etc. Custos? Quem paga? Quais são os novos fornecedores? Que contratos estão em curso?

Tem-se falado no gás para uso doméstico e produção de eletricidade, mas em países como a Alemanha há setores industriais que podem colapsar sem o gás e sem preços que lhes permitam continuar a produzir.

Outro beco em que a UE se meteu é o do petróleo russo. O que acima dissemos acerca do gás, aplica-se ao petróleo com a nota que, receber petróleo de outras proveniências – quais? – exige a readaptação das refinarias para crudes com composições diferentes, dado o teor de elementos que é necessário depurar e as características dos produtos obtidos. Também aqui, não existe planejamento, nem que fornecedores serão escolhidos, nem a que preço. E dizer que a UE poderia receber petróleo e gás russo econômica e fiavelmente… Mas Putin é mau e não obedece à “comunidade internacional”…

Todas estas transformações e adaptações, teriam de ter começado há muito pois são trabalhos complexos, extremamente onerosos, com muitas frentes de trabalho simultâneas, para as quais não está garantida a disponibilidade de pessoal qualificado em quantidade suficiente e respetivos efeitos sobre outros setores. A menos que a UE pretenda importar produtos refinados a um preço muito mais caro. É, de facto, muito difícil entender as razões dos suicídas…

De qualquer forma, não existem os estudos econômicos e projetos de engenharia para estas situações, pelo que ou a UE muda (mudará?…) de procedimentos, ou espera que a Rússia seja derrotada e os Chicago boys tomem novamente conta do país como nos anos 1990. Se estudassem História, saberiam que isso seria outra “vitória de Pirro” e o desencadear, mais cedo ou mais tarde, de uma grande tragédia.

Assim, para além da propaganda e das reuniões da UE em que se mascaram divergências, o que se prepara é uma economia em declínio, empobrecimento da população, aumento dos défices das Balanças Comerciais, o euro em queda, fábricas e refinarias a fecharem. Entretanto, a China irá ultrapassar os Estados Unidos em capacidade de refinação de petróleo, importando quantidades cada vez maiores de petróleo bruto da Rússia.

Outra decisão no âmbito dos combustíveis tem que ver com a inconsequente forma de tomar decisões na UE. Trata-se de acabar com a comercialização de carros com motores de combustão, a partir de 2035. Onde está o estudo, o planejamento (sabe-se que têm horror a esta palavra, é tudo o mercado…) as ações a tomar, como, quem, funções e responsabilidades das entidades envolvidas, implicações comerciais. Que consequências para as fábricas existentes? Vão ser remodeladas? Como, quais, quando? O PE sem nenhum estudo concreto, votou segundo a proposta da CE e agora só falta os ministros dos 27 aprovarem as “zero emissões em carros novos” em 2035.

Acerca da “descarbonização” esclareça-se que, entre 1937 e 2020, o teor de CO2 na atmosfera aumentou cerca de 50%, as áreas naturais reduziram-se na mesma proporção: 50% [2]. Parece evidente que a recuperação das áreas naturais deveria ser uma prioridade. Mas estas coisas não são vistas assim, porque as medidas de “combate às alterações climáticas” têm duas vertentes: nada contra as transnacionais, tudo a bem das transnacionais.

Curiosamente, nenhum dos anti CO2, que fecharam as econômicas centrais termoelétricas, parece incomodar-se com as emissões originadas na guerra na Ucrânia, pela aviação, equipamentos motorizados, explosões resultantes de mísseis e artilharia, etc.


6 – Será suicídio ou crime?

A UE encontra-se nas mãos de suicidas que Jorge Vilches apresenta como “idiotas úteis”, divididos em três categorias: os “idiotas de carreira bem treinados”, focados em ganhar salários e vantagens muito acima de suas capacidades, apesar da óbvia mediocridade e que não se atrevem a questionar, duvidar, muito menos desafiar o sistema ou os ditames da UE. Todos eles sabem o que o top-cock (ou top-hen) diz para fazer, dizer ou pensar, mesmo que contra os melhores interesses europeus. Uma segunda categoria agrupa os principais líderes visíveis da UE – muitos não eleitos – que podem ser corruptos como é tradicionalmente permitido ou considerarem-se escolhidos por Deus para liderar a UE a um destino glorioso, não importa se sequestrando qualquer capacidade de representação e valores que representem. Um terceiro grupo são os que, para não abandonarem a sua zona de conforto político e econômico/financeiro, permitem que os seus dirigentes traiam os interesses que dizem defender.

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Tudo isto é condimentado com 12.948 organizações registradas como lóbi (junho de 2021), 15 das quais com um investimento em lóbi superior a 5 milhões de euros, para cerca de 40 mil funcionários em Bruxelas. A Ucrânia ajuda a disfarçar a incompetência e oportunismo desta “elite”, mas custa caro. Segundo Oleg Ustenko, conselheiro econômico de Zelensky, a Ucrânia precisa de 9 bilhões de dólares por mês dos países ocidentais para cobrir o défice orçamental, quase o dobro de anteriores pedidos. (Intel Slava Z – Telegram 13/7). Enquanto os orçamentos dos Estados têm que ser aprovados pelos burocratas de Bruxelas, para a Ucrânia escorrem sem condições, milhares de milhões, além do armamento que terá de ser reposto nos arsenais da Otan comprado na maioria aos EUA.

Entretanto a UE isola-se, como é lógico, dado que 85% da população mundial não pertence à Otan. A Rússia e a China fortalecem os laços econômicos com outros países que se vão juntando aos BRICS, e a criação de uma “nova moeda de reserva global”, prossegue, sem que os media considerem ter interesse informativo.

União Europeia e EUA afundam Ucrânia em empréstimos para manter máquina de guerra

“Pode o sistema ser salvo?”, interroga a ativista norte-americana Karen Greenberg referindo-se aos EUA. A mesma questão transfere-se para a UE. A UE vive um processo em que as necessidades objetivas de manutenção do sistema capitalista são opostas às necessidades sociais e mesmo às meramente econômicas. A austeridade aplicada ao proletariado representa a desumanização dos processos econômicos e sociais ao serviço da oligarquia. Veja-se como têm aumentado os lucros do grande capital aqui, aqui, aqui. Etc.

O “projeto europeu” é um mito para impor o neoliberalismo, o capitalismo rentista, usando a violência física se necessário. As forças progressistas enfrentam medos e obscurantismo. O que o “projeto europeu” realiza é uma sociedade de cidadãos sem capacidade para controlar as suas vidas, submetidos por estratégias de sobrevivência. O belicismo e a tentativa de rearmamento da “Europa”, que o discurso político dominante apresenta como uma necessidade para a defesa dos “valores europeus”, resulta que a UE e os ucranianos são já os grandes vencidos.

A fraqueza da UE, os custos da guerra, a inevitável degradação de segurança e de condições de vida resultantes das vagas de refugiados e do aumento do custo dos bens essenciais, constituem a tempestade perfeita para o desenvolvimento de movimentos populistas e fascizantes. Será mais uma das consequências das opções dos dirigentes europeus, do seu oportunismo, da sua curteza de vistas, da sua pequenez.

Como é que uma potência que propõe um tratado de segurança coletiva, que a outra parte recusou, é considerada uma ameaça à segurança? Todos os avisos da Rússia sobre a expansão da NATO, foram ignorados. Podiam ao menos ouvir o velho Kissinger em Davos: “a política da UE está errada… e deve ser mudada imediatamente… ou o dano aos EUA e seus aliados será severo e permanente. As negociações (com a Rússia) precisam começar nos próximos dois meses”. Mas se a guerra econômica contra a Rússia não ajuda a UE, então porque seguem os EUA como ovelhas? Se a UE não está preparada para quebrar sua subserviência aos EUA, vai por fim deparar-se com problemas ainda mais sérios.

A investigação sobre o estranho caso da UE prossegue. Mas há suspeitos. Os suicidas de Bruxelas, os hitman de Washington, e a clique de Kiev que está a praticar a eutanásia à UE.

É caso para dizer, estamos – os que cá vivemos – tramados com esta gente.

Notas
[1] Sobre aspetos militares ver: As três guerras da Ucrânia: a militar, a política e a económica (1) e Os conflitos atuais vistos por um especialista Chinês (1)
[2] Uma vida no nosso planeta, David Attenborough, Bertrand, p. 19 e 107

Daniel Vaz de Carvalho | Resistir.Info


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