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Reflexões necessárias: Para que e a quem servem as polícias militares no Brasil?

As imagens das manifestações populares que ocuparam as ruas do mundo obrigam que as políticas de segurança pública sofram profundas mudanças
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Gente. O FHC anda lendo Diálogos do Sul, mas, ainda não entendeu o que realmente está acontecendo no país. Explico. Em artigo editorial, no sábado 6/6, admite que estamos dentro de uma Tempestade Perfeita e, desenvolve todos os elementos que configuram a tempestade perfeita que já perfilamos e comentamos aqui inúmeras vezes.

Onde é que ele se contradiz, ou melhor, revela a pusilanimidade que o caracteriza? Resumo com outras palavras para facilitar o entendimento. Está um caos, uma merda total, mas não pode ser nós contra eles. Nós quem cara pálida?

Diz que a saída deve ser pelo diálogo, pelo entendimento para não romper com a institucionalidade. De que institucionalidade ele está falando?

A Constituição já foi rasgada, e a cada dia, todos os códigos morais são violentados.

Que institucionalidade há quando um general assume o Ministério da Saúde e como primeiro ato nomeia mais 25 oficiais militares para ocuparem cargos de 1º e 2º escalão?

Institucionalidade, minha gente, é competência e moralidade na gestão da coisa pública, seja ministerial ou lá o que seja.

Que institucionalidade há no Ministério da Educação onde, no lugar de um professor, colocam um militar da PM e no lugar do pensamento libertador de Paulo Freire, vigora o terraplanismo globalista de um Olavo de Carvalho?

Que institucionalidade há no Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos que de uma canetada acabou com a Justiça de Transição? Que Jesus Cristo é esse que fala no ouvido dessa mulher para acabar com a Anistia aos que foram perseguidos, torturados e mortos pela ditadura?

As imagens das manifestações populares que ocuparam as ruas do mundo obrigam que as políticas de segurança pública sofram profundas mudanças

Ilustração: Vitor Teixeira
É hora de repensar os modelos de segurança pública para algo que realmente mantenha a comunidade segura

Objetivos, ilusões e exemplos

O PSDB, o partido dos tucanos, deixa claro que está pensando em voltar ao poder em 2022. Vai voltar com quem? Com o Aécio? Com o Dória?

Vai aliar-se ao Ciro Gomes? Ciro Gomes está com um discurso e uma proposta de governo bem estruturada, completamente contrária a tudo o que representam os tucanos.

Vão refazer a aliança PT/PSDB no segundo turno? Muita gente está escrevendo isso. No 2º turno todas as forças juntas vamos derrotar os militares e restaurar a democracia. Doce ilusão!

É, eles, tucanos e muitos outros políticos, realmente não entenderam o que está a ocorrer no país. O Brasil regrediu mais de 50 anos na história e é hoje uma perfeita república bananeira da América Central e do Caribe. Como se sustentavam essas ditaduras? Esqueceram? Países transformados em exportadores de produtos primários com governos submissos às empresas com apoio irrestrito dos Estados Unidos. Assim é até hoje.

Legitimada pelo voto, a ditadura do clã Somoza na Nicarágua, durou 40 anos. Rafael Trujillo na Dominicana 30 anos, sucedido por Balaguer que ficou mais 24 anos no poder. O generalíssimo Alfredo Stroessner, ídolo dos que tomaram o Planalto de assalto com a fraude eleitoral de 2018, ficou 45 anos no poder.

Planejamento, estratégias e táticas

Parte da elite política não percebeu ainda que a captura do poder foi planejada durante décadas. Hoje já somam 2900 militares ocupando cargos dentro do governo. Desde 2014, que eu me lembro, nunca esconderam isso e o porta-voz deles, que finge de bobo-da-corte para divertir vocês, é parte do plano desde o início. A conspiração e a armação corria solta nos quartéis e nos Clubes Militares, só o presidente ou a presidenta não viam.

Oi! Minha gente… Vocês não perceberam que a democracia ainda está para ser construída?

Não entenderam que no capitalismo essa tal democracia já é difícil, só dá para enganar, e que sob a ditadura do capital financeiro, agora exercida por uma junta militar, é completamente inviável?

Segurança Nacional e Teologia da Prosperidade

O governador de São Paulo admitiu que a PM está fora do controle. Isso não é só aqui, ocorre em praticamente todos os estados desde que foi colocada sob o mando das forças armadas. Foram ideologizadas na doutrina da Segurança Nacional em que o inimigo é o povo, e na teologia da prosperidade, em que há que proteger o rico e ficar rico também, não importa como.

De que são formadas as milícias, ou melhor, as forças paramilitares que hoje estão em 20 estados brasileiros? Os escritório do crime? São PM associados à bandidagem.

Se a PM de SP chegou a esse ponto, isso ocorreu durante mais de 20 anos em que os tucanos reinaram sozinhos no Palácio dos Bandeirantes. Palácio que leva o nome dos matadores de índios, cujos ocupantes nunca se preocuparam com o genocídio permanente que ocorre fora dos bairros chiques da cidade. Mais de 20 anos de roubalheira desenfreada: Metrô, trem espanhol, “rouba-anel”, deterioração do ensino público, expresso Cumbica… Não é hora de deter-se nisso. Vamos nos fixar no aqui e agora.

Brasil real

Para o governo de ocupação não há mais dinheiro para tocar o barco da administração. Para os fiscalistas (seriam economistas?) só há uma saída: aumento da carga fiscal. O que é isso? É aumentar os impostos. Como rico não paga imposto vai sobrar para nós, o povão é que terá que pagar a conta, senão agora, mais tarde. Isso se sobrar país para seus filhos e netos.

O FMI dizia que a dívida pública só chegaria em 100% do PIB em 2023, nós dizíamos que em 2021 já estaria nesse patamar. Veio a pandemia, nós fizemos previsão de que iria a 100% até o final do ano. Ocorre que já está em 89,51 em maio. O FMI parece mais otimista que nós e prevê para este ano diz que chegará a 98,24%.

O custo da dívida no Orçamento da União já está em 48%. Sobra nada para investimento. O que arrecadam mal dá pra pagar as contas. O que vocês supõem que os fiscalistas vão fazer pra tirar a gente do buraco em que as políticas neoliberais e submissas ao Império nos levaram?

Quem vai pagar a conta?

Vão taxar as petroleiras estrangeiras? Três trilhões custam as isenções concedidas ainda no governo Temer.

Vão taxar os lucros dos bancos? Vão confiscar o que é lucro abusivo? Gente, os cinco maiores bancos tem um patrimônio maior que toda a riqueza do país. O PIB deles é maior que o PIB da nação.

Vão taxar as fortunas de menos de uma dezena de famílias cuja renda é maior que a de toda população?

Vão controlar o câmbio? Num mês o dólar passou de 6 reais e baixou pra 5 reais.

Proibir a evasão de divisas? Nos últimos 12 meses investidores tiraram do país algo como 60 bilhões de dólares.

Vão controlar a` remessa de lucros?

Vão liberar crédito a juros subsidiado? Vão socorrer as médias, pequenas e micros empresas, bem como as empresas individuais?

Vão reabilitar as empreiteiras? Vão reestatizar a Petrobras?

Solução: Desenvolvimento produtivo e trabalhista

Senhores fiscalistas: não há solução fiscal para a crise fiscal.

Solução só mudando a mentalidade e o modelo. Recriando um desenvolvimentismo trabalhista, ou seja, priorizando o trabalho. Ainda que os profetas cibernéticos digam que o trabalho já era, muito, mas muito há que trabalhar para recuperar mais de 40 décadas de atraso.

Em vez de vender matéria-prima, proceder à transformação para agregar valor e gerar emprego. Investir pesado no petróleo e na indústria petroquímica. Tudo o que eles estão destruindo é o que pode salvar o país.

Como mudar a mentalidade?

O povo nas ruas muda a mentalidade.

Outro dia dissemos que os Estados Unidos já não serão os mesmos quando baixar a poeira levantada por milhões de pessoas nas ruas, levadas pela juventude. Juventude negra e branca… como o Corinthians.

Ontem completaram 12 dias nas ruas exigindo justiça. Um grito que foi ouvido no mundo inteiro. Em Londres e Paris, Amsterdam e Roma, uma só voz: Justiça, Negro é vida.

O Legislativo de Minneapolis, também ontem por maioria dos votos (9 dos 11), aprovou zerar o orçamento consignado para a Polícia do estado e desmantelar o organismo policial. Foi lá que a polícia deixou sem respirar e matou um senhor de cor negra.

É um recado pra todo mundo.

Repensar a segurança pública

É hora de repensar os modelos de segurança pública para algo que realmente mantenha a comunidade segura. Gente importa e gente é mais preciosa que qualquer propriedade, gente vale mais que qualquer dinheiro.

Foi uma emoção renovada neste domingo ver no Brasil, por toda parte, jovens e não tão jovens juntos pedindo democracia. O grito de Fora Bolsonaro já significa uma barreira intransponível para o fascismo. Esse fascismo de ocupação que querem perpetuar.

Aos mortos já não se faz mais silêncio! Aos mortos se homenageiam com minutos de aplauso. Os mortos são nossos heróis dessa guerra que temos e estamos travando contra esse governo de ocupação, contra a crise econômica e contra a crise sanitária.

O povo sem medo, sem medo de lutar…

 

Paulo Cannabrava Filho, Jornalista e Editor de Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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