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Renúncia de ministros britânicos aprofunda crise política e coloca Johnson na corda bamba

Primeiro ministro, diante do salto na crise, por enquanto optou por mostrar uma espécie de reestruturação de seu gabinete e realizou novas nomeações
Alejandra Ríos
Esquerda Diário
Londres

Tradução:

Os ministros britânicos de Finanças, Rishi Sunak, e o atual da Saúde, Sajid Javid, apresentaram nesta terça-feira (05) suas demissões ao perderem a confiança no primeiro-ministro britânico, o que pareceu ser um movimento coordenado, colocando Johnson nas cordas.

São tempos complicados para o governo do conservador de Boris Johnson no Reino Unido. A meados de abril, a Polícia Metropolitana de Londes multou o primeiro-ministro britânico e Sunak pelas festas celebradas em Downing Street nas residências oficiais do primeiro-ministro do Reino Unido e do chefe da Fazenda, em plena pandemia.

Ambos anunciaram que pagaram a multa por infringir as normas de confinamento. A medida se produz diante das revelações sobre as festas em diversas sedes do governo britânico durante a pandemia de covid-19, escândalo conhecido pelo nome de partygate.

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Será este o fim dos dias para o primeiro-ministro? Isso ainda veremos. Sajid Javid, foi o primeiro que saiu da palestra, apenas uns minutos depois o seguiu Sunak. Coincidência? Ou movimento político? Os dois ministros que declararam terem sido demitidos por “princípios morais” têm “tolerado” tanto que parece que fizeram um cálculo político, e não foram os princípios o que motivou suas renúncias.

Outro parlamentar conservador, Andrew Mitchell, afirmou esta tarde: “este é um primeiro-ministro anormal: brilhantemente carismático, muito gracioso, muito envolvente, com um grande caráter, porém temo que não tenha nem o caráter nem o temperamento para ser nosso primeiro-ministro”.

A popularidade do primeiro-ministro e de seu governo segue em queda livre. Johnson foi recebido com vaias ao chegar à Catedral de St. Paul’s de Londres, quando foi a serviço para o Jubileo de Platina da Rainha Elizabeth II, durante o escândalo pelo partygate. Duas catastróficas eleições extraordinárias em junho e uma “revolta” de 41% de seus deputados, que lhe permitiu uma moção de confiança por uma pequena margem, sem dúvida pesaram fortemente para tomar essa decisão.

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Qual foi a gota d’água?

As demissões ocorreram num momento onde a pressão sobre Johnson aumenta por sua forma de responder à conduta do ex-deputado Chris Pincher, chefe adjunto do governo. O Segundo mais importante aliado do primeiro-ministro foi suspenso como deputado do partido conservador por conta das acusações que pesam sobre ele por abuso sexual contra dois homens em um clube privado de Londres. O “caso Pincher” ocorreu apenas um mês depois de ter superado a moção de confiança dentro de seu partido por conta das festas em Downing Street durante a pandemia.

Boris Johnson se desculpou nesta terça-feira à noite (no horário do Reino Unido) por ter nomeado Chris Pincher como Chefe Ajunto de seu governo, apesar de ter admitido tardiamente que sabia do comportamento de Pincher já em 2019. O golpe à autoridade de Johnson se produziu diante de uma declaração pública do ex-secretário permanente do Ministério de Assuntos Exteriores, Simon McDonald, que deixou claro que Johnson havia sido informado de uma investigação sobre Pincher em 2019.

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Das duas renúncias, a de Sunak poderia ser a mais séria para o governo. Ambos ministros apareciam como possíveis candidatos para substituir Johnson como líder do Partido Conservador, e sua saída poderia ocorrer como uma manobra para desvincular-se da figura do atual primeiro-ministro e dos escândalos que o cercam diante de sua possível candidatura para a eleição interna.

No final do dia, foi anunciada a renúncia do procurador geral (procurador-chefe) Alex Chalk. O primeiro-ministro, diante deste salto na crise, por enquanto optou por mostrar uma espécie de reestruturação de seu gabinete e realizou novas nomeações: Michelle Donelan, a ministra de universidades, foi nomeada como a nova secretária da educação, anunciada em Downing Street. Ela sucede a Naghim Zahawi, que se converteu no novo chanceler diante da renúncia de Rishi Sunak.

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Segundo as regras atuais, é necessário esperar 12 meses para chamar uma nova moção de censura. Entretanto, a direção do Comitê 1922 (que representa os legisladores conservadores sem cargo no governo) pode mudar as regras e habilitar outra discussão dentro da bancada tory antes de cumprir o prazo. A expectativa é que na próxima semana se eleja uma direção anti Johnson no Comitê 1922, porém a atual direção poderia atuar agora se considerar que há consenso no partido diante do desenvolvimento dos acontecimentos.

A crise política do governo ocorre no marco de uma crise econômica: o crescimento da renda familiar no Reino Unido entre 2007 e 2018 ficou abaixo do resto da Europa. Somente Grécia e Chipre estão abaixo do Reino Unido. Irlanda cresceu, no mesmo período, cerca de 6%, França em torno de 10%. Enquanto que o Reino Unido retrocedeu 2%.

Segundo o The Guardian uma pesquisa do “YouGov”, desta terça-feira à noite, aponta que 69% dos britânicos dizem que Boris Johnson deveria renunciar. Representa um aumento de 11 pontos percentuais em comparação com 9 de junho.


A ação da classe trabalhadora

Uma combinação tóxica de baixo crescimento e persistente desigualdade de renda e um forte aumento do desemprego, que segundo o Branco da Inglaterra poderia aumentar até 5,5%, explicam as greves protagonizadas por trabalhadores ferroviários e do metrô no final de junho.

Por sua vez, a Faculdade de Advogados Penais (CBS na sigla em inglês) da Inglaterra e País de Gales, anunciou nesta segunda-feira (4) a continuação por três dias a mais da greve que iniciaram na semana passado para pedir um aumento dos salários pelos serviços de assistência jurídica gratuita financiada pelo Estado, o que tem provocado uma paralisia da Justiça penal. Trabalhadores da saúde e da educação ameaçam parar no outono europeu.

Escândalos políticos por cima e descontentamento generalizado por baixo pelas condições de vida cada vez mais terríveis é o que está levando a um maior aparecimento de greves de trabalhadores (fartos de viver décadas de neoliberalismo), como a histórica greve de três dias do setor ferroviário. O desenvolvimento da luta de classes no Reino Unido é o maior temor da classe dominante.

Alejandra Ríos | Esquerda Diario | Londres | @ale_jericho


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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