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Republicanos mudam alvo da campanha eleitoral e passam a atacar Kamala Harris

Republicanos estão agindo com ataques racistas e misóginos para "assustar" com a ideia de uma mulher negra como possível presidente se algo acontecer a Biden
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Complôs para sequestrar e até assassinar políticos, mais rumores para nutrir a violência pós eleitoral, manobras para suprimir o voto e Macho Man foram algumas das notícias dessa eleição cada vez mais estranha e sinistra. 

Alguns dos 13 presos na semana passada, incluindo pelo menos sete vinculados com uma milícia ultradireitista armada, acusados de armar um complô para sequestrar a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, também contemplaram sequestrar o governador da Virginia, Ralph Northam, revelou o agente especial do FBI, Richard Trask em uma audiência sobre o caso ante um tribunal federal em Michigan.  

Aparentemente a motivação dos acusados foi a implementação de medidas de mitigação contra o coronavírus por esses dois governadores democratas e alentados por declarações do presidente Donald Trump contra quarentenas e suspensão de serviços e negócios, e que em um momento tuitou “Libertem Michigan” e “Libertem a Virginia” depois de arremeter contra a governadora. 

Republicanos estão agindo com ataques racistas e misóginos para "assustar" com a ideia de uma mulher negra como possível presidente se algo acontecer a Biden

Twitter / Kamala Harris
Trump e seus seguidores estão atacando cada vez mais a companheira de chapa de Biden, a senadora Kamala Harris.

O caso continua nutrindo preocupações de possível violência durante e depois da eleição por parte de bases fiéis a Trump. As autoridades federais declararam as milícias e agrupamentos supremacistas brancas e outras expressões de ultradireita como a principal ameaça de terrorismo doméstico no país. 

E mais ainda, continuam circulando por redes sociais falsas versões promovidas por direitistas segundo as quais os democratas estão planejando “um golpe” contra Trump no dia das eleições, ou estão preparando uma fraude massiva incluindo a destruição de cédulas a favor do presidente, entre outras desinformações elaboradas para provocar ira e até ações de “defesa” com forças paramilitares de fanáticos direitistas. 

Trump tem repetido que está sendo realizada uma fraude contra ele e, portanto, advertiu que poderá não reconhecer os resultados se ele não ganhar a eleição e tem recusado garantir uma transição pacífica do poder. 

Noam Chomsky reitera que Trump, o “presidente mais perigoso” da história do país, está “desmantelando a democracia” para se manter no poder. 

Por sua vez, medidas geralmente impulsionadas por republicanos para suprimir, minar e até sabotar a participação eleitoral aparecem ao longo do país, desde tentativas de debilitar a capacidade do serviço postal de processar e entregar os votos por correio que, no meio de uma pandemia, será muito mais elevados do que antes, a manobras para desqualificar ou entorpecer o processo de cadastramento e o voto antecipado (em vários estados se pode votar semanas antes do dia das eleições). 

Mas em algumas partes, isto está tendo um efeito contrário ao desejado pelos oficiais e estrategistas republicanos. Hoje, por exemplo, no estado da Georgia rompeu-se o recorde de participação no primeiro dia de voto antecipado. Foram reportados altos níveis de participação em outras entidades, como também o envio de cédulas por correio apesar de longas esperas em filas e de dúvidas semeadas pelo próprio presidente sobre a integridade do voto por correio. Alguns prognosticam uma participação recorde na eleição nacional. 

Os candidatos estão enfocando tudo nos estados considerados como chaves no mapa eleitoral, desde viagens e atos de publicidade – tudo com as limitações impostas para realizar suas campanhas no meio de uma pandemia. Florida e Pennsylvania foram sede de giras de ambos no início da semana. 

Joe Biden uma e outra vez enfoca no manejo “irresponsável” e “inepto” da pandemia pelo governo de Trump. 

Por sua parte o presidente continua insistindo em uma mensagem que, medida pelas pesquisas, não está funcionando; que Biden está sob o controle de “socialistas” e “marxistas” e de “Castro-Chavistas” que na verdade controlam o Partido Democrata, e que um voto para ele significa entregar o país à “esquerda radical”. Essa foi a mensagem de uma gira por ônibus intitulada “lutadores contra o socialismo”, encabeçada pelo filho do presidente e o senador Marco Rubio entre outros no sul da Florida no fim de semana.

Talvez o mais frustrante para os republicanos seja que seus ataques contra o opositor democrata Joe Biden parecem não estar funcionando e, portanto, Trump e seus seguidores estão atacando cada vez mais a companheira de chapa de Biden, a senadora Kamala Harris. Para motivar suas bases, o ataque contra Harris – a primeira mulher “de cor” na disputa para a Casa branca – não só tentou pintá-la como parte da “esquerda radical” e até “comunista”, mas sim com ataques racistas e misóginos para assustar com a ideia de uma mulher negra como possível presidente se algo acontecer a Biden. 

Enquanto isso, aparentemente ninguém informou a Trump que, em seus comícios de campanha, ele e seus legalistas ultraconservadores estão dançando canções ligadas à cultura empresarial gay: YMCA e Macho Man do The Village People.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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