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Republicanos X Democratas: Por que ninguém quer assumir o desastre no Afeganistão?

Segundo cálculos do Watson Institute da Universidade Brown, 241 mil personas morreram como resultado direto da guerra
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O último soldado estadunidense a deixar o Afeganistão, o general Chris Donahue, caminhou solitário com sua arma para o avião militar, que um minuto antes da meia-noite, hora de Cabul, na segunda-feira despegou pondo fim à guerra mais longa da história dos Estados Unidos. 

O último capítulo foi fechado igual a tantos outros durante os 20 anos da guerra estadunidense nesse país: no domingo passado, um drone estadunidense matou nove integrantes de uma família, incluindo seis crianças. Por sua vez, os corpos de 13 militares estadunidenses foram transferidos de regresso em ataúdes envoltos em bandeiras estadunidenses no domingo, passando por uma saudação solene do presidente e comandante em chefe Joe Biden na Base Aérea Dover.  

A guerra terminou sem glória nem festejos – pelo contrário, e agora se converteu numa guerra política em Washington.  O jogo político entre ambos os partidos – a guerra foi uma aventura bélica bipartidária – tem sido em essência infantil – evitar assumir responsabilidade pelo desastre e sobretudo não ser acusados de haver “perdido a Afeganistão”.  

Os republicanos, com a saída desastrosa dos Estados Unidos do Afeganistão, agora condenam o governo de Joe Biden e os democratas pelo manejo do final da guerra, enquanto o presidente e seus aliados tentam criar uma narrativa que evita a palavras “derrota” a toda custo. 

Biden, em uma breve mensagem a partir da Casa Branca nesta terça-feira, proclamou que “a guerra no Afeganistão agora já acabou” e defendeu a fundo sua decisão, afirmando que a opção era entre “ir embora ou escalar” e que “eu não estava por estender esta guerra infinita”. Reiterou que “recusei enviar outra geração dos filhos e filhas dos Estados Unidos a uma guerra que deveria ter terminado há muito tempo”. 

Elogiou “o êxito extraordinária” do resgate de mais de 124 mil pessoas evacuadas com uma ponte aérea a partir de Cabul nas duas últimas semanas, operação sem precedentes na história, afirmou.  

Sublinhou que o único interesse vital dos Estados Unidos no Afeganistão é assegurar que esse país “nunca mais possa ser usado para lançar um ataque contra nossa pátria” recordando que os atentados do 11 de setembro pela al-Qaeda se originaram aí, e que esse objetivo foi conseguido há uma década. Advertiu que a “ameaça do terror se “metastizou através do mundo” e que “continuaremos a luta contra o terrorismo no Afeganistão e em outros países.  Apenas não necessitamos combater uma guerra terrestre para fazê-lo”, justificou.

Biden concluiu que “esta decisão sobre o Afeganistão não se trata só do Afeganistão. É sobre pôr fim à era de operações militares maiores para refazer outros países”. 

Mas não há maneira de ignorar que uma guerra que começou com o objetivo explícito de expulsar do poder o Talibã e que acaba duas décadas depois com o retorno do Talibã ao poder é, por definição, uma derrota, que foi prognosticada por esse “inimigo” que gostava de dizer “vocês têm os relógios, nós temos o tempo”. 

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Uma derrota muito cara em custos humanos e financeiros para os Estados Unidos.  A guerra custou a vida de 2.461 militares estadunidenses, foram feridos outros 20 mil – muitos dos quais necessitarão assistência médica e psicológica pelo resto de suas vidas. Outros 3.846 empreiteiros privados estadunidenses perderam suas vidas. 

Calcula-se que o custo financeiro direto da guerra foi de 2,3 trilhões de dólares, mas isso não inclui custos de juros sobre esses fundos, nem o gasto com o cuidado de veteranos feridos. 

Sem falar dos custos para os afegãos: mais de 47 mil civis mortos, mais de 66 mil militares e policiais afegãos pereceram. 

No total, segundo cálculos do Watson Institute da Universidade Brown, 241 mil pessoas morreram como resultado direto da guerra no Afeganistão.

Nem todos perderam. As cinco maiores empresas de armamentos dos Estados Unidos receberam mais de 2 trilhões de dólares em fundos públicos durante o período da guerra no Afeganistão (nem tudo para essa guerra, mas com esse transfundo).  

Segundo cálculos do Watson Institute da Universidade Brown, 241 mil personas morreram como resultado direto da guerra

White House
A guerra terminou sem glória nem festejos – pelo contrário, e agora se converteu numa guerra política em Washington.

Agora, depois de anos em que a guerra “forever” frequentemente já não era registrada nas manchetes, começou o exercício intenso e o debate sobre o que passou, como passou, quem sabia o que, e quem é responsável. 

Isso não é tão fácil: como em toda guerra, a mentira foi rei. “Por duas décadas, estadunidenses se disseram uma mentira atrás da outra sobre a guerra no Afeganistão. As mentiras provieram da Casa Branca, do Congresso, do Departamento de Estado, do Pentágono e da CIA, como também de Hollywood, especialistas… jornalistas”, escreveu o jornalista veterano James Risen no The Intercept.  

No final de 2019, uma investigação do Washington Post revelou, com base em documentos oficiais confidenciais que altos funcionários do governo “falharam em dizer a verdade” sobre a guerra no Afeganistão através dos 18 anos desse guerra, oferecendo proclamações otimistas que sabiam que eram falsas e “escondendo evidência inequívoca de que a guerra não era ganhável”.

Um dos citados nesses documentos foi Douglas Lute, general encargado dessa guerra na Casa Branca durante os governos de Bush e parte do de Obama, que afirmou em uma entrevista oficial confidencial em 2015 que “não contávamos com um entendimento fundamental do Afeganistão – não sabíamos o que estávamos fazendo”. 

A guerra foi apoiada pelos dois partidos desde seu início (uma só deputada dissidente na câmara baixa, Barbara Lee, votou contra essa guerra), que embora tenha sido lançada pelo republicano George W. Bush em 7 de outubro de 2001, foi dramaticamente ampliada pelo presidente democrata e Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama a partir de 2008, continuada de maneira incoerente pelo republicano Donald Trump, e agora concluída pelo democrata Biden – que a apoiou como senador e depois como vice-presidente. 

Muitos entre os 80 mil militares estadunidenses que foram enviados ao Afeganistão ao longo dessa guerra não só referem a sensação de haver participado de uma missão sem sentido, expressam angústia e dor pelo abandono de tantos que os ajudaram, apoiaram, resgataram. Vários veteranos – junto com jornalistas, trabalhadores humanitários, artistas e cientistas – estavam até o último momento buscando maneiras de salvar seus ex-colegas e colaboradores. 

“É horrível ver isto. Mas sempre ia acontecer, e é melhor termos ido embora agora que em dois, três ou dez anos. Só espero que desta vez aprendamos a lição que não aprendemos no Vietnã. Não tenho muita esperança de que assim seja”, comenta a veterana militar da guerra no Afeganistão, Laura Jedeed, em entrevista a The Guardian. 

Sobre o tema:
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“A guerra acabou. Já basta! Não mais guerras…Tempo agora para recompor a nós mesmos e fortalecer nossa própria democracia e defendê-la contra nosso próprio Talibã doméstico. Usem o dinheiro de guerra para escolas, saúde, renda garantida, moradia. Nunca mais. Jamais”, tuitou o documentarista Michael Moore.

Quase dois terços dos estadunidenses, 62%, opinam que a guerra no Afeganistão não valeu a pena, segundo uma enquete recente feita por AP-NORC. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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