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Só o candidato Arauz defende que Equador tenha relações dignas com os EUA de Biden

Os EUA são o principal destino das exportações equatorianas. Mudança na relação entre os países só se mudar a orientação do governo equatoriano em 2021
Pilar Troya Fernández
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Para entender o impacto da eleição de Joe Biden para o Equador é importante primeiro olhar para a política dos Estados Unidos para a América Latina em termos gerais. Também é necessário compreender o que aconteceu nos últimos anos do governo de Lenín Moreno, que traiu completamente o programa de governo pelo qual foi eleito. 

Historicamente, a política dos Estados Unidos para a América Latina é uma política de Estado, bipartidária, que não muda se o presidente é democrata ou republicano. Os dois partidos estão interessados em controlar a região geopoliticamente para garantir o acesso das grandes corporações aos nossos recursos naturais estratégicos, a oportunidades de negócio e atualmente, também tentar limitar a entrada da China na região.  

Eles vão continuar considerando a América Latina como seu quintal e a OEA como seu Ministério das Colônias. Trump viajou uma vez só para a região nesses quatro anos, enquanto Biden, que tem quase 50 anos de experiência como político, conhece melhor a América Latina, tendo nos visitado pelo menos 16 vezes. Isso poderia representar mais perigo no sentido de maior precisão na estratégia de controle. 

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O cenário mais provável em um governo Biden é que, com uma maquiagem de direitos humanos, a estratégia imperialista procure avançar nos acordos comerciais e continuar o chamado combate ao terrorismo e ao narcotráfico — lembremos que a última coisa eles inventaram para atacar a Venezuela foi acusar de narcotráfico várias altas lideranças do país – além de tratar a migração como assunto de segurança e não de direitos humanos.

O Equador é um país pequeno, que não possui tantos recursos naturais que poderiam representar um interesse direto dos Estados Unidos, como é o caso do da Bolívia, por exemplo, também um país pequeno, mas com uma das maiores reservas de lítio do mundo, indispensável para baterias dos carros elétricos e muitos outros aparelhos eletrônicos.

Relações bilaterais

Para o Equador, os Estados Unidos são importantes por serem o principal destino das exportações do país, seguido de longe por Peru, China e Chile. Além do petróleo, os principais produtos de exportação são bananas, camarões, peixes e flores. Tem muita pressão interna do agronegócio para manter boas relações com o país norte-americano.

Tradicionalmente, a estratégia dos EUA para o Equador tem sido envolvê-lo na chamada guerra contra as drogas. O combate ao narcotráfico tem sido a estratégia de inserção e controle político. Sob esse pretexto eles têm conseguido, com a exceção dos dez anos do governo do Correa, colocar pessoal e aparelhos de vigilância. O Equador não é um grande produtor de drogas, mas é um local relevante para o tráfico da droga produzida na Colômbia e no Peru.

Outra parte importante da estratégia de controle estadunidense na região são as bases militares, mas a Constituição do Equador, aprovada em 2008, proíbe as bases militares estrangeiras no território do país. A única base que os Estados Unidos tinham, localizada no porto de Manta, teve que ser desmontada em 2009.

Política de submissão

O governo de Moreno tem demonstrado submissão absoluta aos interesses estratégicos regionais e globais dos EUA, cumprindo ao pé da letra todas e cada uma das diretrizes de Washington, sem jamais colocar os interesses do Equador nessa relação. 

Como resultado dessa subserviência, Julian Assange foi entregue às autoridades britânicas dentro da própria embaixada do Equador no Reino Unido, o que constitui, além de uma violação aos direitos humanos, sobretudo do direito ao asilo, do direito ao devido processo e do direito à liberdade de imprensa, um dos atos mais vergonhosos do país em toda sua história.

Antes disso, o Equador já tinha saído de todos os órgãos de integração regional criados na década dos 2000 pelos governos progressistas, como a ALBA, a CELAC e a UNASUL. 

O Equador interrompeu o apoio aos diálogos de paz entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o governo colombiano, que tinham como sede a capital equatoriana, Quito, até 2017.

O governo Moreno apoia a estratégia dos Estados Unidos para atacar a Venezuela, reconheceu o autoproclamado presidente Juan Guaidó e apoia todas as posições e movimentações do Grupo de Lima, ainda que não faça parte dele. 

Acordos bilaterais

O atual governo também assinou vários acordos com os EUA em múltiplas áreas, que não mudariam na gestão de Biden. Os mais preocupantes têm a ver com o uso de aeroportos equatorianos para aviões militares estadunidenses — diante da impossibilidade de estabelecer uma base militar —, incluindo os das ilhas Galápagos, que tem uma localização privilegiada.

Esses acordos, que nunca foram bem explicados, aparentemente contêm disposições para o uso de outros espaços no território do país, especialmente os portos de Manta e Guayaquil, com fins militares, e incluem também treinamento de policiais, forças especiais de segurança e militares que tinham sido evitados nos 10 anos de mandato de Rafael Correa. 

Eleições

O Equador vai ter o primeiro turno da eleição presidencial em fevereiro de 2021, e o novo governo tomará posse em maio do mesmo ano. Uma mudança no sentido progressista ou, pelo contrário, uma política ainda mais subserviente aos Estados Unidos — mesmo que seja bem difícil ser ainda mais submisso, é sempre possível — poderia acontecer dependendo do resultado das eleições.

O único candidato que poderia ter uma posição realmente diferente da adotada por Moreno, e alinhada com outros governos progressistas da região é Andrés Arauz, do movimento “Unión por la Esperanza”, herdeiro político do correismo.cEle é o único que fala de soberania e autonomia para tomar decisões independentes, restabelecer uma relação digna com os Estados Unidos e focar numa cooperação para os interesses do país sul-americano.

Com certeza qualquer outro dos candidatos continuará apoiando as movimentações contra Venezuela, Cuba e Nicarágua e mantendo a linha dos Estados Unidos na OEA.

Os países vizinhos, Colômbia e Peru, já têm assinado tratados de livre comércio com os Estados Unidos faz vários anos. E mesmo que para os Estados Unidos não seja algo muito importante, eles têm demostrado interesse em assinar um acordo similar com o Equador. Se ganhar um governo de direita, esse processo será acelerado.

Em resumo, a princípio, mudanças com respeito ao que tem ocorrido na relação do Equador com os EUA desde o final de 2017 apenas aconteceriam se houvesse mudanças internas no país e não por iniciativa dos EUA.


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