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"Sou o legítimo Presidente do Peru". Exclusivo: da prisão, Castilho fala pela primeira vez

"Sou o primeiro presidente rural, professor e camponês. Nunca me quiseram no Governo; minha eleição foi democrática. Nunca me perdoaram". Confira
Julio Zamarrón
El Salto
Madri

Tradução:

A equipe de El Salto entrevistou com exclusividade o presidente Pedro Castillo (Puña, 1969) em Barbadillo, a prisão de segurança máxima onde está preso Alberto Fujimori, condenado por crimes de lesa humanidade pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos.

Eugenio Zaffaroni conversa com a advogada Indira Rodriguez Paredes, da equipe legal do presidente, na porta do presísio de Barbadillo

Nos últimos dias, o presidente Castillo foi visitado por Eugenio Zaffaroni, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, e Guido Croxatto, diretor da Escola do Corpo de Advogados do Estado da Argentina. Ambos farão parte da equipe de defesa de Castillo. Zaffaroni e Croxatto foram acompanhados pela equipe legal do presidente, a advogada Indira Rodríguez Paredes e o advogado Wilfredo Robles.

Embora o Instituto Nacional Penitenciário tenha se empenhado em criar entraves e inconvenientes para que este encontro não ocorresse, a reunião finalmente pôde realizar-se: dela saíram as notas que constituem esta entrevista, realizada de forma oral e manuscrita entre os últimos dias do mês de janeiro e a primeira semana de fevereiro. Todos os equipamentos de gravação, inclusive os móveis, estavam expressamente proibidos.

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A equipe argentina que fará parte da equipe de defesa de Castillo nos fóruns internacionais considera que a detenção preventiva de Castillo atenta contra os direitos humanos e vai contra a jurisprudência mais recente da corte interamericana.

O presídio de Barbadillo recebeu a delegação sob um sol escaldante. Os funcionários do Instituto Nacional Penitenciário do Peru fizeram as visitas esperar. A cela de Castillo não tem janelas nem luz natural, embora se lhe permita o acesso a uma pequena horta onde está cultivando batatas e milho.

No interior da cela há um forninho para cozinhar e uma escrivaninha com alguns livros. Neste momento o presidente está lendo A arte da guerra, de Sun Tzu. Dentro, pouco mais que a cama e uma televisão que se tornou sua principal relação com o exterior, além da que lhe proporciona sua equipe legal.

Dr Eduardo Pachas, Eugenio Zaffaroni e Guido Croxatto, acompanhados da advogada Indira Rodriguez Paredes, da equipe legal do presidente, na entrada da prisão

"Sou o primeiro presidente rural, professor e camponês. Nunca me quiseram no Governo; minha eleição foi democrática. Nunca me perdoaram". Confira

Reprodução – Twitter
Pedro Castillo: "O imperialismo quer o lítio e meu Governo queria dar o lítio ao povo"




Teme por sua vida neste momento?
Sim, temo por minha vida neste momento. No Peru não há nenhum tipo de segurança, nem jurídica, política ou civil. Devo dizer que não temo por minha vida agora, temo por minha vida desde o segundo turno da campanha presidencial. Houve perseguição política desde que eu estava em campanha, a direita se encarniçou comigo e com minha família, sobretudo com meus filhos menores e com minha esposa. Nos difamaram, nos terruquearon [acusação de terrorismo a militantes de esquerda], não nos deixavam desenvolver-nos de maneira pessoal nem tampouco em meu Governo. O assédio foi constante, diário e perturbador. Estas ações incitavam ao ódio e ao racismo.

Recebi ameaças de morte de números desconhecidos. Meus filhos e minha esposa também. Por isso busquei, em todo momento, segurança para meus filhos, já que são o que tenho de mais precioso. Segurança para minha filha pequena, para meu filho jovem, para minha filha mais velha e para minha esposa.

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Houve várias vezes em que sofri maltratos de pessoas de direita que me acusavam de ser um “terrorista”. Quiseram me ferir, eu diria que até assassinar. Por exemplo, em Tacna vivi uma situação em que várias pessoas de extrema direita me golpearam com pernos e ferros [peças de metal]; fui ferido, mas não denunciei. Esta é uma das lembranças mais vivas que tenho da campanha do segundo turno.

Também recebi ameaças publicamente, por exemplo, de Rafael López Aliaga [empresário de extrema direita e prefeito de Lima], que pedia que me matassem abertamente. Ele dizia em seu comício: “Morte a Castillo”.

Pôde comunicar-se com sua esposa e com seus filhos? Sabe como eles estão?
Não, não pude comunicar-me com minha família. Sei pouco sobre como estão e espero que estejam bem. Não tenho acesso a comunicação, tampouco direito a videochamada com eles. Estão refugiados no México. Gostaria de falar com eles.

Sim, temo pela vida deles porque quando estavam no Peru também sofreram episódios de racismo. Por exemplo, no caso de meus filhos, eles nunca se acostumaram a viver no Palácio de Governo porque era mudar-se para uma Lima da que não eram parte e da qual não se sentiam parte.

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No caso de meu filho, negaram-lhe o acesso aos colégios porque se inteiraram de que era meu filho. Eram colégios que escolhi por segurança. Não me permitiram isso. Meu filho faz 18 anos na quarta-feira, 8 de fevereiro e me dói não estar com ele neste momento.

No caso de minha filha menor, sofreu assédio depois da festa de aniversário que eu e sua mãe organizamos para ela. Como para toda menina dessa idade, fizemos uma festa para que se sentisse feliz. Esta festa saiu em meios de comunicação e ela foi assediada depois em seu colégio e também ao sair do colégio. Quando ia passear, ainda com a segurança, gritavam: “Você é filha do burro”, e ela chorava e ficava mal. Atacaram meus filhos menores para me atacarem.

No caso de Yenifer, que considero minha filha, é a mais velha e é muito corajosa [Yenifer Paredes, cunhada de Castillo, é acusada de supostos delitos de lavagem de dinheiro e de organização criminosa]. Está afrontando esta situação como a mulher forte que é. Ela esteve presa também injustamente, é uma vítima de todo os maltratos a toda minha família. Agora também estão abrindo pastas [processos] fiscais sem base, perdeu a liberdade e eu quero apenas que seja uma jovem normal, que possa ter uma vida livre de ataques, quero que seja feliz.

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No caso de minha esposa Lilia, agradeço a resistência durante todo este tempo porque não tem sido fácil para ela. Muitas vezes quis ir para Chota [cidade do departamento de Cajamarca de onde procede Castillo] com meus filhos porque não aguentava os ataques de toda esta região. Ironizavam a sua roupa, nossas raízes andinas, a forma como falávamos, havia discriminação racial. Em todos os momentos recebeu ataques a sua pessoa.

Sobre meus pais, estão sofrendo porque minha mãe não sabe que estou preso. Mentiram para ela dizendo-lhe que estou em outra região e que logo voltarei a Chota. É a única forma de não afetar sua saúde porque são adultos idosos. Sobre meu pai, ele sim sabe que estou preso, mas ainda não pôde visitar-me. Sinto muita saudade deles e gostaria de vê-los logo mas sei que se vierem, serão atacados pela imprensa.

O que aconteceu em 7 de dezembro? Foi uma tentativa de subverter a institucionalidade peruana? Se não foi isso, o que pretendeu fazer como presidente do Peru naquele dia?
É complicado e complexo para explicar. Não se pode explicar somente de maneira política. Jamais tentei subverter a institucionalidade peruana. Eu queria aproximar-me do povo. Foi um dia de ecoar a voz dos “ninguéns”. Levantei a bandeira da Assembleia Popular Constituinte e fiz meu discurso recordando e sendo fiel aos povos que votaram em mim, que confiaram em mim.

Foi uma reivindicação de minha parte. Quis fazer entender à classe política que o poder popular é a máxima expressão das sociedades. Não quis obedecer aos grupos de poder econômicos e sociais. Quis por o povo acima de tudo.

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Se disse muito: eu não estava fugindo como disse a imprensa, ia deixar minha família na embaixada do México, tudo foi muito rápido. Foi minha decisão. De ninguém mais. Estava nervoso, mas fiz isso. Depois da mensagem à Nação, Aníbal Torres [presidente do Conselho de Ministros do Peru] estava muito confuso, tinha um rosto estranho, porque não compreendeu porque fiz o que fiz. Também todos os ministros que estavam ali, que chegaram quando eu já estava lendo a mensagem.

Depois da mensagem, a primeira coisa em que pensei foi em minha família. Fui deixá-los na embaixada do México; em nenhum momento quis fugir. Eu ia voltar. Queria por a salvo minha família. Tomamos o carro “Cofre” do Palácio e estávamos a caminho quando a própria polícia nos parou. Uma situação sumamente ilegal porque eu continuava sendo o presidente. Minha filha pequena começou a chorar; já que estava sentada no meu colo, eu a abraçava e a acalmava para que não chorasse.

A polícia chegou com metralhadoras e parou o carro. Eram muitos policiais e há provas que saíram em meios de comunicação. Foi muito traumático e violento para meus filhos. Foi quando eu pedi aos oficiais que não amedrontassem minha família, que eu ia descer e que não era necessária a violência. Assim foi. Saí do carro, Aníbal Torres também e corajosamente assumiu minha defesa. Eu estava muito confuso, já não pensava como presidente, só pensava como pai de família. Aníbal Torres mostrou firmeza o tempo todo e soube me guiar. Lhe agradeço muito por isso. Depois lembro de momentos em partes, subiu a minha glicose. Tenho um problema no ouvido, uso um aparelho para poder escutar, não escutava as indicações que me davam, houve um momento em que só ouvia silêncio. Foi muito confuso, não me sentia eu mesmo. Só pensava em minha família.

Cabe dizer que a procuradoria em nenhum momento esteve em minha detenção e não houve um processo legal como peruano com direitos e ainda menos como presidente, porque continuava sendo presidente e continuo sendo presidente. Toda esta atitude violenta foi responsabilidade de [Harvey] Colchado. Me levaram para a Diroes [Divisão Nacional de Operações Especiais] no dia seguinte e aí foi quando chegou a Procuradora.

O que acha daqueles que consideram que o seu foi um “autogolpe”’?
Que é um discurso que a direita criou. Desconhecem a realidade das coisas, são tão ignorantes que criam suas próprias histórias e eles mesmos repetem e repetem, sem realizar um correto trabalho de jornalismo de investigação. A imprensa tradicional no Peru é uma vergonha. Tentaram destruir minha família, estão destruindo muitas outras pessoas opositoras a este Governo de fato. Os responsáveis da imprensa me parecem os verdadeiros ignorantes e são eles que dizem que foi um autogolpe, não o povo.

O senhor é vítima de um complô? Quem organizou este complô?
Sim, sou vítima de um complô. Organizou-o principalmente a direita peruana que serve a interesses da direita internacional, dos grupos neoliberais e imperialistas. Têm e usam toda a sua máquina de poder econômico e político. Nesse contexto encontra-se a imprensa peruana que responde também a esses interesses.

Sou o primeiro presidente rural, professor e camponês. Nunca me quiseram no Governo e fui eleito pelo povo em eleição popular; minha eleição foi democrática. Nunca me perdoaram

As pessoas a pé que como eu entraram na política para mudar as coisas entramos em choque com seus interesses desde o primeiro momento. Isto é um fato. Sou o primeiro presidente rural, professor e camponês. Nunca me quiseram no Governo; fui eleito pelo povo em eleição popular, minha eleição foi democrática. Nunca me perdoaram.

Desde quando sentiu que a direita peruana queria vê-lo fora?
Quiseram me destruir desde o começo do segundo turno das eleições peruanas. O tempo todo, todos os dias, sofria ataques a minha honra e imagem como candidato. Por isso, nunca quis dar entrevistas à imprensa tradicional. Dava entrevistas ao jornalismo real das regiões e à imprensa alternativa, que, estes sim, faziam perguntas reais com conteúdo e não apenas para ocupar seu tempo com insultos e baixezas.

Todo o poder econômico e político criou a narrativa de uma fraude eleitoral, mentindo ao povo. Contrataram escritórios de advogados que respondem a interesses da direita para pedir anulação dos votos de meus irmãos do sul e o povo lutou por seus votos, fazendo manifestações, vigílias e plantões na frente do Tribunal Nacional de Eleições em meu país.

Conseguimos todos que seja respeitado o poder popular. No entanto, nunca me deixaram governar e sempre tentavam destruir meu Governo.

Eles sempre tiveram medo que tomássemos o poder porque sabiam que podiam perder seus privilégios. Podem ter dinheiro, os meios de comunicação, mas não têm e não terão nunca o coração do povo.

Qual é o papel da oligarquia extrativista, neoliberal e capitalista?
Eles desempenharam um papel golpista por temor a que revisemos seus contratos. Eu estava a ponto de revisar todos os contratos das empresas minerárias extrativistas, neoliberais e capitalistas. Todos eles desempenharam um papel golpista. Há vários exemplos.

O orçamento que antes todos os governos usavam para pagar à imprensa, em meu governo usamos para poder destiná-lo à educação. Fui firme com isso e cumprimos. Por isso a imprensa me atacou e continua atacando.

A imprensa tem grandes dívidas com a SUNAT [Superintendência Nacional de Alfândegas e de Administração Tributária]. Não pagam seus juros e assim pode ser visto nos sites: Panamericana, América TV, Latina TV, ATV e Willax, que é o canal com mais delitos por difamação que existe neste país. É um canal “pirata”.

Todo o problema tem a ver com o lítio. O imperialismo quer o lítio e meu Governo queria dar o lítio ao povo

Sobre as cobranças, consegui cobrar dos alfandegários, petroleiros e marítimos. Sobre a renovação de contratos, tinha que assegurar-me de que haja parâmetros mínimos. Há muitos contratos que não pude renegociar porque a Constituição não me permite, porque são contratos-lei que os governos anteriores realizaram, como o de Francisco Sagasti, do Partido Morado, que renovou o contrato de Perú Rail quando os cusquenhos não queriam renegociar. Perú Rail é de propriedade de Rafael López Aliaga. Eu e meu governo queríamos devolver o contrato aos cusquenhos fazendo uma associação.

Em Puno, meu Governo e eu queríamos resgatar o Gas de Camisea e o lítio da região. Todo o problema tem a ver com o lítio. O imperialismo quer o lítio e meu Governo queria dar o lítio ao povo.

Também queria renegociar os contratos para que possamos dar oportunidade às empresas nacionais e não transnacionais. Também queríamos destinar mais recursos para fertilizantes para todas as regiões pecuárias e agrárias; tampouco nos deixaram. Muitos exemplos.

70% do lago Titicaca é de uma empresa, assim como os aeroportos, rodovias, pedágios. Tudo é de empresas transnacionais. Sequestraram tudo, sujeitando tudo a uma Constituição e a decretos-lei que deram legalidade a este sequestro de nosso território, de nossas terras e de nossas vias públicas.

Meu Governo fez mais de 76 projetos de lei para reivindicar o país e nenhum foi aprovado pelo Congresso. Tanto é assim que a proposta de meu Governo de instaurar o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação não foi aprovada. Desejava-se estimular uma linha aérea de bandeira nacional, a criação e orçamento para três aeroportos e puseram muitos impecilhos para isso. Nunca me deixaram governar.

Mudar a Constituição é o sentir do povo, sair do legado fujimorista. Reafirmo que necessitamos de uma Assembleia Popular Constituinte

Até que ponto sua posição sobre as concessões a empresas mineiras e petroleiras influiram nos acontecimentos? Desempenharam algum papel as multinacionais europeias, concretamente españolas, no fustigamento de seu mandato?
Sobre as multinacionais, sobretudo na Europa, me vêm à mente os chanceleres e embaixadores. É um espaço de vacas sagradas. As embaixadas são um mundo de elite diferente do povo. Meu Governo queria impulsionar a mudança de requisitos para o acesso à diplomacia peruana, mas não permitiram. Há muito elitismo e poder neste espaço. São poucos os embaixadores que realmente têm um sentido de proteção do povo peruano. A eles meu profundo respeito e admiração. No entanto, as embaixadas también se conluiaram com as transnacionais e na Europa ainda mais. Das empresas transnacionais as que mais contaminam são as empresas chinesas que também são as que mais devem e exploram.

Quem é, à luz dos acontecimentos, Dina Boluarte? Como foi sua relação com ela antes do 7 de dezembro?
Conheci Dina Boluarte porque Perú Libre a propôs como vice-presidenta. Eu a conheci de maneira virtual. Ela não fez campanha no primeiro turno, só a conheci presencialmente no segundo turno. Todos me diziam que não tinha pessoas que a apoiassem, mas que ela era impositiva e [Vladimir] Cerrón escolheu-a. Eu não sabia o tipo de pessoa que ela era, no processo foi que me dei conta da maldade desta mulher.

O racismo histórico que viveu e continua vivendo o Peru, assim como o classismo e a desigualdade social e econômica é a razão pela qual hoje se vive um massacre

Eles me garantiram que era democrata, mas era pura aparência. Depois, notou-se realmente seus interesses. Era e é calculista, ambiciosa. Não tinha bases como volto a dizer, ninguém a conhecia, nem em sua região a queriam porque depois soube que era uma mulher sumamente racista e classista.

Ela se aproveitou da luta. Eu a tornei conhecida, porque eu sim chegava às bases do povo. Fez questão de ser ministra do Ministério de Desenvolvimento e Inclusão Social, nunca quis soltá-lo. Tivemos muitas brigas por isso. Chorava para não ser removida do cargo, dizia que tinha família e nos manipulava com isso. Sempre conseguiu que não a removêssemos.

Qual é a relação da Boluarte atual com o fujimorismo e a oligarquia peruana? Aliaram-se?
Ela trabalha com o Fujimorismo, todos eles organizaram o complô. Ela tem o apoio e sei disso muito bem. Tudo estava preparado com a polícia e as forças armadas. Ela, a Procuradoria, a direita peruana, sobretudo o Fujimorismo. Sei agora que ela tinha proximidade com a direita peruana desde antes de 7 de dezembro del 2022. Ela tinha e tem amizade com a direita. Aliaram-se, conversaram e isso foi desde antes, como sei agora. Ela contratou pessoas do Fujimorismo para o Ministério, nunca deu oportunidade a quem é do povo e das regiões. E agora ficou exposta, chamou toda a direita mais violadora de direitos humanos para um gabinete. A lista é conhecida. Ela só aparentou ser democrata até que agora ficou evidente sua verdadeira personalidade: ditadora.

É o momento de reformar a Constituição fujimorista de 1993?
É o momento constituinte. Não vamos buscá-lo, a história nos busca. Mudar a constituição é o sentir do povo, sair do legado fujimorista. Reafirmo que necessitamos de uma Assembleia Popular Constituinte.

O que acha da decisão do Congresso de não acelerar as eleições?
O Congresso está deslegitimizado. Sua ação não está em sintonia com os povos. A maioria segue o que a imprensa diz nos meios de comunicação. Por exemplo, por que não fazem uma plenária em uma região? Vamos ver se forem a Ayacucho, Puno, Apurímac, Ica, Cusco, regiões com assassinados nas mãos da polícia e das forças armadas. O povo lhes diria o que pensa. Que saiam da bolha do Congresso e vão saber o que o povo pensa realmente.

Que papel teve o racismo nos acontecimentos, na explosão social no Peru?
O racismo histórico que viveu e continua vivendo o Peru, assim como o classismo e a desigualdade social e econômica é a razão pela qual hoje se vive um massacre e múltiplas violações de direitos no Peru que, estou certo, os advogados com firmeza e coragem levarão à instância internacional.

Como avalia o papel das mulheres camponesas nos protestos? Acha que o poder das dirigentes sociais tem um peso atualmente?
A participação das mulheres neste contexto é histórico. Sei que há muitas mulheres autoconvocando-se para poder dizer o que pensam. A luta das mulheres é permanente. A mulher é visionária. A mulher é lutadora, as mulheres do campo, as mulheres da cidade que se solidarizam com o povo e com o campo, todas têm uma fortaleza milenar com identidade de defender sua pátria. São tawantinsuyanas [referência à palavra quechua para denominar o império inca].

Quais são os passos que, a seu ver, devem ser dados para que cesse a violência política contra os opositores de Boluarte?
Deve-se mudar a Constituição no prazo que seja necessário, é o caminho de que o povo necessita e é por isso que li esta mensagem à Nação [em referência aos fatos de 7 de dezembro]. Reivindiquei os povos mais esquecidos, os povos que por 500 anos temos vivido na opressão.

A direita sempre vai nos perseguir, sempre vai querer eliminar-nos. E é algo que, estando aqui aonde estou, recluso, preso, sem familia, penso e reflito mais. Com minha família também perseguida interiorizo tudo como presidente e como pessoa. Também é importante dizer que a violência política vai continuar se continuar esta ditadura. Dina Boluarte é um joguete da direita, é alguém como Keiko Fujimori, que é calculista, oportunista, sem valores, que se vende ao melhor comprador e que agora vendeu-se à direita, à direita mais rançosa e mais suja. É uma mulher que será presa por violações de direitos humanos e sobretudo por delitos de lesa humanidade. Será presa e a justiça internacional fará o que lhe compete porque o povo assim o pede.

O senhor sentiu o apoio dos mandatários latino-americanos desde o começo deste processo? Acredita que seus protestos contra o golpe que sofreu possam reverter a situação?
Os irmãos mandatários dos diferentes países solidarizaram-se com o Peru e é importante agradecer a países democráticos como Bolívia, Argentina, Chile, Colômbia, México e Equador, assim como aos povos da Guatemala, Cuba, Itália, Grécia, França, Alemanha e outros diversos países. Sim penso que a solidariedade internacional pode reverter esta situação.

Como avalia a cobertura que se está fazendo na Espanha?
Sobre a Espanha… primeiro agradecer ao irmão Pablo Iglesias por sua carta de solidariedade enviada do Podemos como partido político, sabemos de sua trajetória. Também agradecemos ao jornal El Salto que está sendo corajoso por contar minha história na Europa. Fiquei sabendo que seu jornalista Julio L. Zamarrón foi ferido pela polícia; quero demonstrar minha solidariedade com todas as pessoas que estão sofrendo estes abusos.

Que mensagem gostaria de enviar à Espanha, especialmente a seus compatriotas que vivem em nosso país?
A meus compatriotas da Espanha dizer-lhes que divulguem tudo o que está acontecendo em nosso país. Não só as injustiças que ocorrem comigo como presidente como as grandes violações de direitos humanos que está cometendo este governo de fato e ilegal. Que haja solidariedade e não indiferença. Aproveito para pedir ao fraterno povo do México que acolha minha família com tratamento humano. Me impediram de falar com eles, não tenho nenhum tipo de comunicação, com eles não me permitem nem uma chamada virtual, absolutamente nada. Eles, meus filhos, Yenifer, meus filhos menores e Lilia, minha esposa, sofreram perseguição e assédio de todo o poder da imprensa e da direita peruana.

Como foi a reação da comunidade internacional, especialmente dos Estados Unidos e da União Europeia a seu caso? E ainda, como vê a participação destes organismos ante a violação de direitos humanos sistemática no Peru?
Os Estados Unidos junta-se à União Europeia para oprimir nossos países, os povos, as comunidades. Por isso é que me querem preso e por isso é que o poder incrustrado nesses espaços silenciam frente à violação sistemática dos direitos humanos no Peru: assassinatos, detenções, feridos e perseguição política a líderes e dirigentes como em meu caso e em tantos outros.

Como expresidente do Peru… Que saída vê para esta situação atual de explosão social em seu país?
Considero que continuo sendo Presidente do Peru, como peruano não reconheço este Governo genocida como representante do Peru. Falo não só como presidente, falo como peruano, este governo ditador não nos representa.

Acredita que voltará a ser presidente do Peru algum dia?
Continuo me considerando presidente legítimo eleito por vontade dos peruanos.

O que acha do uso desmedido da força dos agentes do estado? Crê que o Peru é hoje uma ditadura?
O uso desmedido da força… isso não é simplesmente o que está ocorrendo. É massacre. Estão matando meus compatriotas. Irmãos com quem percorri o Peru, Arequipa, Cusco, Ayacucho. Sim, acho que o Peru vive terrorismo de Estado por este governo e, sim, é uma ditadura.

Qual é sua opinião sobre as detenções arbitrárias em massa que estão ocorrendo no Peru?
As detenções arbitrárias são uma amostra da ditadura de Dina Boluarte. Ela tem as mãos manchadas de sangue e também de pessoas presas políticas. Irmãos e irmãs dirigentes, justamente das regiões mais golpeadas, hoje têm seus líderes perseguidos ou presos, como é o caso de Ayacucho. Este governo de fato feriu ayacuchanos, encarcerou ayacuchanos e assassinou ayacuchanos. Por isso peço solidariedade com esta região golpeada.

Como avalia as acusações de terrorismo que faz o Governo de Boluarte?
O terrorismo é um psicossocial e uma mentira que utiliza este Governo para calar os opositores. Me chamaram de terrorista desde o segundo turno. Sendo presidente nos insultaram e maltrataram, nos chamvam de terroristas na imprensa e agora me prendem por um delito de rebelião que não cometi.

Como explicaria, para uma comunidade europeia, o termo “terruqueo”?
O terruqueo é toda ação que chame de terrorista quem critica o sistema e isso vem da direita peruana de grupos de poder: imprensa, polícia ou procuradoria. Começa com insultos e pode terminar com processos por terrorismo a pessoas inocentes como é o meu caso e são todos os casos de dirigentes. Me veem como um monstro, isso é o que a imprensa internacional construiu como narrativa. Eu sou o presidente eleito por todos os peruanos por votação popular. Não sou terrorista e não cometi o delito de rebelião nem conspiração de que me acusam, nunca toquei em uma arma em minha vida.

Qual é sua opinião sobre as pessoas que estão sendo presas por pedir uma nova Constituição?
Estou preso neste presídio, incomunicável, perseguem minha família, meus advogados, todos. Estou aqui por aquilo em que acredito, disse em nível nacional na mensagem à Nação que é necessária uma Assembleia Popular Constituinte para ter uma Nova Constituição e não renuncio a este sonho; admiro a coragem de todos os meus compatriotas e irmãos encarcerados e assassinados por pedir a mesma coisa. São os heróis do país e suas famílias têm minha solidariedade.

“No Peru não existe Estado de direito”

Qual é atualmente seu status?
Estou encarcerado por 18 meses de prisão preventiva injustamente por um delito de rebelião que não cometi. O Ministério Público e o Poder Judiciário do Peru me têm atrás das grades. Abriram muitos processos contra mim que não têm razão de ser. Todas as pastas [causas] fiscais e expedientes respondem à aplicação do sistema judiciário de maneira errônea e ilegal; utilizam o aparato judiciário para criminalizar pessoas que queremos mudar o Peru e somos consideradas inimigas dos esquemas de poder. Tenho mais de 60 processos por um mesmo fato que, segundo a Procuradoria, é corrupção. Todos por um único fato, o que é ilegal. Continuarão abrindo processos contra mim. No entanto, não estou encarcerado por isso, estou encarcerado pelo processo penal que a Procuradoria e a Polícia Nacional do Peru me imputaram de rebelião e conspiração. Dizem que me levantei em armas quando é mentira. Nunca toquei em uma arma e jamais tocarei. Não cometi nenhum delito. Isto ocorre em outros tantos países, com colegas ex mandatários, como Cristina Kirchner na Argentina, Lula no Brasil, Rafael Correa no Equador e por aí vai.

Em que baseia sua defesa?
Desde o início, sofri a violação de meus direitos a um devido processo. Minhas advogadas e advogados estão lutando por minha liberdade e por um processo justo. Quero agradecer a minha equipe legal, que se consolidou pouco a pouco, advogados e advogadas nacionais e internacionais com prestígio: a equipe legal principal está formado pela Rede Nacional de Direitos Humanos a cargo do advogado venezuelano Asdrubal Gonzales. Também me assistem o advogado peruano Wilfredo Robles e recentemente os advogados criminalistas e de direitos humanos Indira Rodríguez, Eugenio Zaffaroni e Guido Croxatto. Todos eles especialistas comprometidos com os direitos humanos, com experiência na defesa de casos penais que tenham vulnerabilização de direitos. Defenderam casos complexos e por isso os convoquei e os escolhi. Têm muito profissionalismo e também firmeza de que o que está ocorrendo no Peru é mais grave do que se sabe. No Peru já não existe Estado de Direito. Todos os meus direitos foram violados.

Também me acompanham os advogados Nicolás Bustamante, Eduardo Pachas, Sifuentes e Walter Ayala na defesa das causas fiscais sobre as falsas acusações de corrupção. Agradeço que tenham apresentado habeas corpus em defesa de minha liberdade, a tutela de direitos e também nulidade sobre minha vacância [destituição]. Cada um deles, das áreas constitucional e penal, estão a cargo de minha defesa e liberdade. Todos os meus advogados coordenados para a defesa de meus direitos. Muito se disse de maneira tendenciosa sobre meus advogados, sobre a quantidade de advogados que há, sobre o fato de serem muitos. É verdade, é evidente que, por haver tantas violações de meus direitos, necessito de uma equipe jurídica valente para minha defesa e minha liberdade. Eles estão sofrendo perseguição e difamação, estão sendo assediados pela imprensa tradicional que responde à direita peruana.

O juiz César San Martín foi o juiz que encarcerou Alberto Fujimori, o maior ditador dos últimos anos, culpado de crimes de lesa humanidade. Foi admirado por isso. Hoje, este juiz perde toda credibilidade e independância já que está me julgando como um criminoso e não está à altura do juiz justo que deveria ser. Sou o presidente do Peru e estão me prendendo por um delito de rebelião que não cometi.

Julio Zamarrón | De Lima (Peru), com a colaboração em Madri de Irene Zugasti Hervás e Pablo Elorduy.
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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