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Tanques Leopard 2 na Ucrânia: EUA “enviam Alemanha para o fogo como um vassalo"

"Scholz cruzou a linha vermelha que outrora traçou”, afirma a parlamentar alemã Sevim Dağdelen
Redação Hora do Povo
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Depois de algumas semanas de idas e vindas, o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, se dobrou às pressões de Washington e anunciou na quarta-feira (25) que Berlim irá enviar ao regime de Kiev 14 tanques Leopard 2 de fabricação alemã, e que está liberando outros países que os possuam a fazerem o mesmo. Em Washington, em paralelo, o presidente Joe Biden anunciou que os EUA enviarão 31 tanques M1 Abrams para sua guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia.

Enquanto a polêmica na aliança imperialista sobre os novos panzer rumo a leste não se resolvia, o Kremlin, através do porta-voz Dmitri Peskov, já havia alertado que destino os espera: “vão arder”. A Rússia tem enfatizado que entupir de armas o regime de Kiev só dificultará de chegar a uma solução e causará mais sofrimento aos ucranianos.

Segundo Biden, governos subalternos europeus concordaram em enviar tanques suficientes para equipar dois batalhões de tanques ucranianos – o que deverá influenciar no resultado do conflito tanto quanto as armas antes entregues, como o Himars e outros sistemas. Também na quarta-feira, com dias de atraso, o regime de Kiev reconheceu a queda de Soledar, no Donbass, para as forças russas.

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De acordo com a Associated Press, o pacote de US$ 400 milhões recém anunciado já incluiu 8 veículos de esteira M88 usados para rebocar os M1 Abrams quando eles quebram. As entregas alemães começariam em três-quatro meses e as dos tanques norte-americanos, até possivelmente em um ano. Na descrição de diferentes órgãos de mídia, Scholz estaria “relutante” em ver tanques alemães no campo de batalha na Ucrânia, e queria que Washington “abrisse o caminho primeiro” fornecendo seus tanques M1 Abrams.

Ao final, Scholtz – mais conhecido em Kiev como Salsicha de Fígado – fez a genuflexão que lhe foi indicada, aliás, “consultas intensivas com nossos aliados e parceiros internacionais”, e a Casa Branca formalizou o anúncio dos Abrams, ao estilo “vai que eu já vou”.

Outros países europeus já se prontificaram a se desfazerem de seus próprios tanques Leopard para atender ao regime neonazista de Kiev e matar russos. Entre eles, Polônia, Espanha, Portugal e Finlândia. Quanto aos M1 Abrams, até então o Pentágono vinha se opondo, alegando serem muito caros e complexos para operar e manter para serem de grande utilidade para a Ucrânia.

No início de janeiro, o presidente francês Emmanuel Macron havia anunciado o envio de tanques de rodas AMX-10 a Kiev, enquanto o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak se comprometia em entregar 14 tanques Challenger 2.

"Scholz cruzou a linha vermelha que outrora traçou”, afirma a parlamentar alemã Sevim Dağdelen

Governo alemão
Segundo o deputado conservador Petr Bystron, Scholz quebrou sua promessa eleitoral e agiu “contra a maioria de sua própria população”




“Novo nível de confronto”,  adverte o embaixador Nechaev

A primeira reação russa veio do embaixador em Berlim, Sergei Nechaev, que classificou a decisão como “extremamente perigosa” e que leva o conflito a “um novo nível de confronto”.

“Esta decisão extremamente perigosa leva o conflito a um novo nível de confronto e contradiz as declarações de políticos alemães de que a Alemanha não quer ser arrastada para ele. Infelizmente, isso está acontecendo repetidamente”, declarou o embaixador russo.

“Com a aprovação do governo federal, os tanques de batalha com cruzes alemãs serão enviados novamente para a ‘Frente Oriental’, o que não só levará à morte de soldados russos, mas inevitavelmente também à morte de civis.”

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Nechaev acrescentou: “A escolha de Berlim significa a recusa final da Alemanha em reconhecer a responsabilidade histórica perante nosso povo pelos terríveis e eternos crimes do nacional-socialismo durante a Grande Guerra Patriótica, esquecendo o difícil caminho da reconciliação pós-guerra entre russos e alemães.”

Ele lembrou ainda que a decisão de fornecer tanques foi tomada por Berlim no 80º aniversário da quebra do bloqueio alemão a Leningrado, que custou a vida de centenas de milhares de cidadãos soviéticos.

“Isso destrói os resquícios da confiança mútua, causa danos irreparáveis às já deploráveis relações russo-alemãs e coloca em questão a possibilidade de sua normalização em um futuro previsível”, observa o comunicado.

Em Washington, o embaixador russo Anatoly Antonov também repudiou a decisão, assinalando que “os tanques americanos sem dúvida serão destruídos, como todas as outras amostras de equipamento militar da Otan”. Ele acrescentou que os norte-americanos “estão constantemente elevando o ‘sarrafo’ da assistência ao seu governo fantoche”.

“Se os Estados Unidos decidirem fornecer tanques, será impossível justificar tal passo usando argumentos sobre ‘armas defensivas’. Esta seria outra provocação flagrante contra a Federação Russa”, disse ele. “Ninguém deve ter ilusões sobre quem é o verdadeiro agressor no conflito atual.”

Tanque Leopard 2 (Flickr)


“Irresponsável e perigosa”

Na Alemanha, os partidos de oposição Die Linke (A Esquerda) e o conservador Alternativ fur Deutschland  (AfD) condenaram mais essa investida de Berlim na guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia. A Afd considerou “irresponsável e perigosa” a decisão de fornecer tanques de guerra ao regime de Kiev. “Como resultado, a Alemanha corre o risco de ser arrastada diretamente para a guerra”, disse o colíder do partido, Tino Chrupalla.

Uma preocupação que afeta muitos setores da população alemã, aos quais o primeiro-ministro Scholz procurou tranquilizar: “Confie em mim. Ao agir de forma coordenada internacionalmente, garantiremos que esse apoio seja possível sem os riscos de nosso país ir na direção errada.” Enquanto ele fala isso, sua ministra das Relações Exteriores, a verde Annalena Baerbock, diz abertamente que “estamos em guerra contra a Rússia”.

Para o líder da bancada parlamentar do Die Linke, Dietmar Bartsch, “a entrega dos tanques de batalha Leopard, levantando outro tabu, potencialmente nos leva mais perto da Terceira Guerra Mundial do que da paz na Europa.”

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Os tanques Leopard são o prelúdio “para uma possível queda rumo à catástrofe”, alertou, apontando que os pedidos de tanques de batalha seriam seguidos por pedidos de aviões de guerra e muito mais.

“A decisão de continuar fazendo da Alemanha um partido de guerra não tem maioria na população”, ele enfatizou.

Também sua colega de bancada, Sevim Dağdelen, denunciou no Twitter que os EUA “estão enviando a Alemanha para o fogo como um vassalo. A decisão do Semáforo [coalizão governista] a mando de Washington prepara a Alemanha para a guerra fatal na qual Scholz cruzou a linha vermelha que outrora traçou”.

O deputado conservador Petr Bystron acusou Scholz de romper com as lições da Segunda Guerra Mundial e com o legado de seu partido e com a política de détente em relação a Moscou, que os “grandes predecessores social-democratas Helmut Schmidt e Willy Brandt” haviam seguido. Além disso – acrescentou–, quebrou sua promessa eleitoral e agiu “contra a maioria de sua própria população”.

Quanto ao conflito em curso na Ucrânia, o parlamentar assinalou que “não apenas o Ocidente – incluindo a Alemanha – não fez nada por oito anos, quando Kiev estabeleceu uma política anti-russa que atacou militarmente áreas com maioria de falantes de russo, matando milhares de pessoas”, como a Otan “continuou a se expandir em direção às fronteiras da Rússia, contrariamente às promessas anteriores de não fazê-lo”.


“Sem ânimo leve”

Favorável à guerra de procuração, o líder do governista FDP (democratas livres), admitiu que Scholz “não tomou a decisão de ânimo leve”, enquanto o ex-governista e agora oposição democrata-cristã, XX, apenas lamentou a “hesitação” do primeiro-ministro em fazer o anúncio da entrega de tanques de batalha a Kiev.

O jornal norte-americano Washington Post havia se referido à até então recusa de Scholz em liberar seus tanques pesados como uma “rachadura na OTAN que precisa ser consertada com urgência”, bem como um desafio crítico à unidade da aliança. Há relatos de duras discussões do chefe do Pentágono, Lloyd Austin, em Ramstein, sobre a questão. Além de Washington, havia forte pressão doméstica, com uma série de personagens se esmerando em quem mais se prostrava diante da Casa Branca.

O presidente da bancada dos social-democratas (SPD), Rolf Mützenich, reagiu às críticas feitas ao primeiro-ministro pela deputada e lobista de armas Marie-Agnes Strack-Zimmermann (FDP), em que ele observou que a chefe do comitê de defesa do Bundestag “e outros como ela” estão empurrando a Alemanha para um conflito militar. “Aqueles que falam sobre tanques hoje, gritarão sobre aviões ou tropas amanhã. A política durante a guerra na Europa não é realizada no estilo de rituais de indignação ou respiração rápida, mas com clareza e sanidade”, especificou Mützenich. Quem sabe o figurão acredite realmente que foi a “clareza e sanidade” que prevaleceram.

O atual conflito na Ucrânia é o desdobramento de oito anos de perseguição militar e policial aos russos étnicos que vivem há séculos no Donbass, após ascensão do regime infestado de nazistas e corruptos saído do golpe da CIA de 2014 e após a Rússia ter pacientemente esperado o respeito aos Acordos de Minsk que, agora se sabe, por Merkel e Hollande, foram criados para dar tempo ao regime de Kiev de se armar. Quando Kiev assumiu em público que não respeitaria os acordos de Minsk, pretendia ter armas nucleares e ingressar na Otan, abandonando o status de neutralidade, e ainda iniciou um bombardeio em toda a linha de frente, só então a Rússia reconheceu as repúblicas populares antifascistas e iniciou a desnazificação e desmilitarização da Ucrânia. Antes, a Rússia tentara, com os EUA e a Otan, a restauração do princípio da segurança coletiva e recuo dos sistemas de armas agressivas da Otan para as linhas de 1997, ano de formalização do acordo Rússia-Otan.

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As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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