Tribunal do Peru afronta justiça ao livrar assassinos de líder sindical morto em 1992

A verdade é a que sabe o povo, que guarda em sua memória a imagem de Pedro Huilca Tecse

Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

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A decisão adotada no passado 31 de outubro pela Quarta Sala Penal Superior Liquidadora do Peru, em torno do crime consumado em dezembro de 1992 contra o então Secretário-Geral da CGTP Pedro Huilca Tecse, constitui uma verdadeira afronta à justiça.

Na defesa do infausto fato, pode-se aduzir que a decisão não foi unânime. Um dos três magistrados votou em um sentido e contrariou a opção assumida pelos outros dois, que comprometeram uma vez mais o império da lei e da justiça. 

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O aleivoso crime contra o líder sindical ocorreu há 31 anos. Nesse lapso foram dilatadas as indagações formais, como se os papéis houvessem decidido buscar “um tempo melhor” para sair à luz, e liberar de responsabilidade os autores do execrável homicídio. 

E não acharam momento mais apropriado que este, quando o quadro político permite à Máfia fazer das suas, burlar-se da lei e fazer escárnio da verdade, no empenho de impor a qualquer preço seus abusos e atropelos.

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Só assim pode entender a justiça adotada por uma maioria e graças à qual se exime de toda responsabilidade – “por falta de provas” – ao Grupo Colina e seus mentores. É como entender, no entanto, que a aludida “falta de provas” não declara inocente a ninguém. Simplesmente admite que não se pode comprovar suas culpas. 

Em outras palavras, asseguram que embora fossem culpados, não poderiam ser condenados. Cometeram um crime perfeito, carregado de coartadas e limpo de pegadas.


Versão governamental

Desde o início, a linha do governo de então foi pôr a culpa dos fatos à estrutura terrorista conhecida como “Sendero Luminoso”. Quando as balas aniquilaram o corpo do combativo dirigente sindical peruano, a autoria do crime estava marcada.

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A verdade é a que sabe o povo, que guarda em sua memória a imagem de Pedro Huilca Tecse

Wikipedia
O ex-Secretário-Geral da CGTP, Pedro Huilca Tecse

Vinte minutos depois, desde o Aeroporto Internacional onde se achava para partir rumo a Quito, Fujimori “deu a linha”: disse que o assassinato era obra do Sendero Luminoso. Mostrou alguma prova? Nenhuma. Simplesmente afirmou o que queria que ficasse como a verdade indiscutível. E assim foi. A “imprensa corrupta e a televisão lixo” repetiram a mesmo história uma e mil vezes, até convertê-la na “verdade” – Quando, aos poucos, exigimos que o fato fosse investigado, nos acusaram avessamente de pretender “embelezar o senderismo” por pretender “ocultar sua culpa” nesse crime. 

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Ainda se recorda que a partir de então foram capturados vários grupos de supostos senderistas. De todos, se disse que eram “o Comando de Aniquilamento do SL que havia assassinado a Huilca”. Vários deles foram apresentados ante a imprensa nacional, mas nenhum foi reconhecido pelas testemunhas do fato. 

A viúva de Pedro – a senhora Martha Flores – foi citada em diversas ocasiões para “reconhecer” os culpados. Isso nunca sucedeu, e todos os acusados foram finalmente libertados. Jamais interveio a justiça ordinária nem houve julgamento público algum. Tudo se operou em segredo. 

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Foi só em 2003, quando o general Robles fez a denúncia e se conheceram os testemunhos dos integrantes do Grupo Colina, Clemente Alayo e Hermes Talledo, que se começou a fazer luz sobre os fatos. A partir daí, foi possível indagar melhor o que aconteceu naquela manhã de dezembro de 1992. Hoje, foram deixados de lado esses testemunhos arguindo que seus autores “se desdisseram” certamente sob a pressão castrense.

E claro, celebraram a decisão do Quarto Juizado, os mesmos que celebraram antes a morte de Huilca e se esquivaram acusando o Sendero pelo crime. Agora esfregam as mãos, assegurando que o grupo Colina e seus mentores, foram “absolvidos”. A uma só voz Willax TV, e os diários “La Razón” e “Perú 21” festejaram celebrando a decisão dos dois juízes que assumiram a sentença, hoje apelada.


Pedro Huilca

Mas aproveitaram, adicionalmente, para enlamear a memória de Pedro Huilca. O apresentaram como “partidário de Alan García” e como um dirigente sindical “conciliador” e “oportunista”. Já ocorreu isso antes. 

Em março de 1992, a revista “SI”, sob a direção de Ricardo Uceda, sujou a imagem de Pedro qualificando-o  de “Alan Huilca” para desacreditá-lo ante os trabalhadores. Hoje, Uceda é “homem forte” do diário “El Comercio”, tal vez em pagamento por sua vileza.

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Como se fosse pouco, perseguem a família buscando desqualificá-la. No fundo, odeiam Martha por sua firmeza; a Flor, por seu trabalho jornalístico e a Indira por sua vitalidade combativa. Não as suportam, porque as temem. 

Aqueles que conhecemos Pedro e trabalhamos com ele, sabemos de sua linha de classe, de sua honradez e, em consequência, sua firmeza e sua lealdade à causa dos trabalhadores. Lutamos com ele nas ruas e nas mobilizações e greves, sem renunciar jamais aos nossos valores de classe. Por isso sabemos de aqueles que, nesses anos duros, buscaram fazer sua vida impossível; e hoje gritam seu nome procurando convertê-lo em um ícone inofensivo. 

A verdade, não é a que dizem os titulares do Quarto Juizado, nem os áulicos da Máfia em todas suas variantes. A verdade, é a que sabe o povo, que guarda em sua memória a imagem de Pedro Huilca Tecse.

Além das decisões pontuais de juízes episódicos, a vida e a obra do líder sindical peruano permanecerão inalteradas e seu exemplo será lenda para as novas gerações de lutadores sociais dispostos a construir um Peru Novo dentro de um Mundo Novo. Essa afronta à justiça não ficará impune.

Gustavo Espinoza M. | Colunista na Diálogos do Sul, direto de Lima, Peru.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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