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Trump vs Biden: Pior debate já visto deixa nas trevas processo eleitoral dos EUA

Como reafirmou Trump "isso não vai acabar bem", sem porém reconhecer que a ameaça mais direta ao processo eleitoral são violência e ódio de seus apoiadores
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O consenso, com exceção dos fanáticos do presidente, é que foi o pior debate presidencial na história do país, e deixou em trevas o processo eleitoral e possivelmente a ordem democrática dos Estados Unidos. 

Entre o pouco que ficou claro da cacofonia de 90 minutos é que Donald Trump reiterou que não está disposto a aceitar os resultados eleitorais se não estiverem a seu favor, recusou comprometer-se a um período pós-eleitoral não violento e declinou o convite para condenar os grupos supremacistas brancos do país. 

Hoje, depois do requerido auto elogio sobre sua atuação no debate – “creio que o debate de ontem à noite foi grandioso” – com sua companha tendo que repetir o envio de um tuíte que declarava seu triunfo esmagador depois de que o mandou por acidente antes do debate, Trump hoje buscou disfarçar o que foi uma de suas declarações mais alarmantes durante o debate. Quando evitou responder ao convite do moderador para condenar supremacistas brancos. Trump decidiu nomear um dos principais grupos ultradireitistas, os Proud Boys (os Meninos Orgulhosos), e declarar que “permaneçam prontos”.

E ainda mais, no debate afirmou que em torno à violência “quase tudo o que vejo provém da ala esquerda, não da direita”, e que afinal de contas é um problema da esquerda.

Tão potencialmente perigoso foi o fato de Trump declinar da condenação dos grupos extremistas de direita que líderes de seu partido tiveram que distanciar-se dele e até aconselhar que o presidente deve pronunciar-se claramente. O líder do Senado, o republicano Mitch McConnell, disse nesta quarta-feira que “é inaceitável não condenar os supremacistas brancos”, com vários outros republicanos afirmando o mesmo.  

Em parte por isso, Trump, perguntado acerca de sua mensagem, procurou mudar o sentido, insistindo que sua mensagem era para que ficassem quietos para que as autoridades façam suas tarefas e afirmou que “não sei quem são os Proud Boys”.  Mas de novo insistiu que o “problema real” é a violência da “esquerda”.

Como reafirmou Trump "isso não vai acabar bem", sem porém reconhecer que a ameaça mais direta ao processo eleitoral são violência e ódio de seus apoiadores

Twitter | Reprodução
Trump x Biden

Os Proud Boys, enquanto isso, expressaram sua felicidade nas redes sociais por serem nomeados pelo presidente ontem à noite, e até criaram um novo emblema com sua conquista e a frase de Trump.

Esse grupo é qualificado como um “grupo de ódio” e “supremacista branco” por várias organizações que defendem direitos civis; o Twitter e o Facebook suspenderam suas contas em 2018. O grupo foi formado em 2016 por, entre outros, Gavin McInnes, o fundador do Vice Media, que em 2018 disse que havia se retirado da agrupação.

Esse grupo é parte de uma rede de organizações ultradireitistas, muitas armadas e algumas autodefinidas como neonazistas, as quais foram classificadas como as principais ameaças de terrorismo doméstico pelo FBI.

Por sua parte, o candidato democrata Joe Biden qualificou a atuação de Trump como “uma vergonha nacional” e sua campanha enviou uma mensagem simples com um mini vídeo de Trump no debate interrompendo, um bebê chorando e a pergunta “Já se fartaram?”. 

O senador Bernie Sanders sublinhou que Trump recusou-se a condenar a supremacia branca e que “tem inspirado atos repugnantes de racismo e violência. Este é o presidente mais perigoso na história moderna de nosso país. Tem que ser derrotado”. 

Para Dave Wasserman, um editor do Cook Political Report e comentarista especialista em eleições, o debate não mudou muito a ninguém. “Se eras um votante com preocupações sobre a idade de Biden, ele não fez muito para desvanecê-las. Se chegas com preocupações sobre o temperamento de Trump, seus chiliques as aumentaram. Se eras um votante algo interessado em política, provavelmente mudaste de canal”. 

Assim, a 34 dias da eleição, os Estados Unidos estão ante uma conjuntura sem precedentes, não só pela pandemia e pela crise econômica, mas com uma crise política, e talvez constitucional, anunciada de antemão por ninguém menos que o presidente.  

“Isto não vai acabar bem”, repetiu um par de vezes o presidente no debate. Como concluiu David Sanger, do New York Times em sua análise do debate, ficou claro que “a ameaça mais direta ao processo eleitoral agora provém do próprio presidente dos Estados Unidos”. 

Por ora, a receita para opositores do presidente é produzir um voto massivo. Além da campanha de Biden que por agora está gozando de uma sustentada e ampla vantagem nas pesquisas nacionais e em muitos dos estados chaves, apesar de seu candidato não gerar muito entusiasmo, uma multidão de coalizões de organizações sociais, sindicatos, de jovens, de mulheres, de latinos e afro-estadunidenses, e artistas e até nudistas traseiro às urnas”, estão dedicadas a promover um voto anti-Trump suficientemente massivo como para frear sua ameaça de subverter o processo democrático estadunidense.

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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