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"Ucrânia e EUA tentam instigar pogroms na Rússia", afirma Putin sobre ataque a aeroporto

Ainda segundo o mandatário russo, Washington e seus aliados não poupam recursos para “desestabilizar Moscou e dividir nossa sociedade”
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Ao reunir de modo extraordinário na noite desta segunda-feira (30) em sua residência de Novo-Ogaryovo, na periferia da capital russa, os membros do Conselho de Segurança deste país, o presidente Vladimir Putin propôs analisar, entre outros temas, os distúrbios antissemitas ocorridos na noite do domingo em Makhatchkala, capital da república do Daguestão no Cáucaso do norte e a situação no Oriente Médio, de acordo com o serviço de imprensa do Kremlin. 

Ao abrir o encontro – baseado na versão estenográfica da parte pública – Putin destacou que “aqueles que estão por trás do conflito do Oriente Médio, de outra crise regional, usam suas consequências destrutivas para semear o ódio, contrapor as pessoas em todo o mundo: esse é o objetivo egoísta dos manipuladores geopolíticos”. 

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Indicou que a atual escalada do conflito no Oriente Médio começou “com o ataque terrorista contra a população civil em Israel e cidadãos de outros países que estavam no território desse Estado”, mas – agregou – “também vemos que no lugar de castigar aos criminosos e aos terroristas, lamentavelmente, começam a se vingar conforme o princípio de responsabilidade coletiva”.

Segundo o mandatário russo, os Estados Unidos e seus aliados não poupam recursos para “desestabilizar a Rússia e dividir nossa sociedade”, que é multinacional e professa diferentes religiões. “Temos que entender quem está por trás da tragédia dos povos do Oriente Médio: a atual elite governante dos Estados Unidos e seus satélites, que se beneficiam da instabilidade no mundo e obtém seus créditos em sangue”, sublinhou.

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Para Putin, os Estados Unidos “veem que está se desfazendo sua hegemonia” e querem estender “sua dominação, sua ditadura global” e fazê-lo é mais fácil, sustenta, “no meio do caos, desestabilizando seus competidores, entre os quais incluem nosso país e, na realidade, os novos centros de desenvolvimento mundial, países soberanos que se negam a se humilhar e cumprir o papel de lacaios”. 

A respeito dos distúrbios em Makhatchkala, o titular do Kremlin afirmou que “foram instigados a partir das redes sociais, não no último lugar deste território da Ucrânia, através dos agentes dos serviços secretos ocidentais”, sem acusar ninguém em particular. 

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“Não deixam de me surpreender – indicou Putin – tanto o regime de Kiev como seus amos do outro lado do oceano: agora tentam instigar pogroms na Rússia. Seria bom que aqueles que dizem estar preocupados com os cidadãos israelitas, que investiguem a que se dedicam seus serviços de espionagem na Ucrânia, não estou seguro de que saibam”. 

Ainda segundo o mandatário russo, Washington e seus aliados não poupam recursos para “desestabilizar Moscou e dividir nossa sociedade”

Foto: Kremlin
Putin: "Elite governante dos Estados Unidos e seus satélites se beneficiam da instabilidade no mundo e obtém seus créditos em sangue"


O que aconteceu na noite de domingo na capital do Daguestão, República do Cáucaso do norte?

A convocatória através das redes sociais para ir ao aeroporto de Makhatchkala, povoada majoritariamente por muçulmanos, para impedir que “refugiados judeus” desembarcassem de um voo que teria trazido à Rússia evacuados de Israel, invadindo as pistas de aterrissagem, derivou em distúrbios, com saldo de pelo menos vinte feridos, saques de lojas e danos nas instalações aeroportuárias. 

O governador de Daguestão, Serguei Melikov, informou nesta segunda-feira que, com ajuda das tropas da Guarda da Rússia, conseguiu-se deter cerca de 50 jovens “enlouquecidos” que, portando algumas bandeiras da Palestina, formaram parte do “pogrom antissemita” e gritavam “Alluha Akbar (Deus é grande), “¡Não os queremos na Rússia” e “Morte a Israel”, entre outras consignas. 

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As forças da ordem, de acordo com o Comitê de Instrução da Rússia, identificou cerca de 150 participantes, de um total que se estima em mais de 1.500 pessoas que se apresentaram no aeroporto de Makhatchkala em busca de “judeus” e começaram a deter os automóveis e a fustigar as pessoas exigindo que mostrassem seus documentos.

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Se alcançou um dos momentos de maior tensão quando um voo da companhia russa Red Wings aterrissou procedente de Tel Aviv e uma multidão invadiu as pistas para rodear a aeronave. 

Alguns conseguiram subir nas asas do avião, mas não puderam abrir as portas do aparelho, como se vê em um vídeo difundido desde a interior da nave, e os passageiros tiveram que permanecer mais de três horas nos avisões até que os reforços policiais os resgataram, com elementos da Guarda da Rússia chegados de pelo menos quatro localidades da república. 

“Não há habitante do Daguestão que não faça seu o sofrimento das vítimas das ações de políticos injustos, e todos rezamos pela paz na Palestina. Mas o que aconteceu em nosso aeroporto é indignante e uma flagrante violação da lei, que deve receber uma avaliação adequada por parte das forças da ordem! E isto sem lugar a dúvidas vai ser feito!”, prometeu Melikov.

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Alguns observadores russos – por exemplo, o analista político Abbas Galiamov, ex-membro da equipe de redatores dos discursos do presidente Putin, agora exilado – consideram uma tentativa de retirar de si a responsabilidade pela tardança da polícia em reagir. O governante do Daguestão atribuiu à Ucrânia a origem dos distúrbios: “Recursos extremistas, administrados pelos inimigos da Rússia. Daguestão e ainda mais do Islã, difundiram chamados incendiários que, lamentavelmente, encontraram eco em algumas cabeças irrefletidas”, disse Melikov.

Na sua opinião, um desses recursos é o Utro Daguestão (Manhã do Daguestão), que “é coordenado por aqueles que odeiam os valores sagrados e tradicionais em que vivemos há muitos anos”, em referência a Ilya Pomomariov, ex-deputado da Duma exilado na Ucrânia que nesta segunda-feira negou qualquer responsabilidade ao afirmar que “ajudei a criar outro Daguestão, mas há mais de um ano não tenho nada a ver com aquele canal do Telegram”.

No fim de semana passado, ocorreram outras ações antissemitas no Norte do Cáucaso: em Khasavyurt, outra cidade do Daguestão, “israelenses” foram proibidos de ficar em hotéis e uma multidão invadiu o hotel Flamingo para verificar se havia algum entre os inquilinos; em Cherkessk, capital de Karachaevo-Cherkesia, exigiram num comício a expulsão dos judeus da região; em Nalchik, capital de Kabardino-Balkaria, incendiaram o Centro Cultural Hebraico. Discursos e ameaças a quem frequenta as sinagogas da região são divulgados nas redes sociais.

Juan Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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