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185 países pedem fim do assédio econômico dos EUA contra Cuba. O que mais é preciso?

Bloqueio causa prejuízo de 15 milhões de dólares por dia à ilha caribenha, que há semanas luta para se recuperar da devastação causada pelo furacão Ian
Guilherme Ribeiro
Diálogos do Sul
Bauru (SP)

Tradução:

185 países são favoráveis ao fim do bloqueio econômico imposto pelos EUA contra Cuba. É o que mostra a votação ocorrida nesta quinta-feira (3), durante a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU).

Apenas EUA e Israel foram contra o levantamento das sanções, enquanto Brasil e Ucrânia representaram as abstenções. O Brasil também se absteve no ano passado e em 2019 votou pelo “não”.

O projeto de resolução “Necessidade de acabar com o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelo Estados Unidos a Cuba” é votado na ONU desde 1992, com exceção de 2020, em razão da pandemia da covid-19.

“Passaram-se 30 anos desde que a AGNU começou a exigir, todos os anos, a cessação desta política, tipificada como um ato de genocídio e que tem o efeito de uma pandemia permanente, de um furacão constante e é universalmente rejeitada”, declarou o Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla.

A Csaba Korosi, presidente da Assembleia, Bruno Rodríguez afirmou ainda o “compromisso de Cuba com o multilateralismo, bem como a luta e o direito do povo cubano a viver sem bloqueio”.

Enquanto Cuba se recupera do furacão Ian, grande mídia usa desastre contra socialismo

Apesar da esmagadora maioria de países que ano a ano se posiciona pelo fim do embargo, as resoluções não são juridicamente vinculativas e, portanto, não determinam por si só a mudança necessária. Ainda assim, refletem a visão global de apoio a Cuba e o isolamento dos EUA diante da insistência em um modelo de assédio qualificado até mesmo por Barack Obama como uma política fracassada.


Ex-líderes da América Latina e do Caribe se posicionam

Na quarta-feira (2), quando começou na Assembleia Geral da ONU o debate sobre o tema, 18 ex-líderes latino-americanos e caribenhos publicaram uma carta pedindo ao presidente dos EUA, Joe Biden, o fim do embargo vigente há mais de 60 anos.

“Pedimos ao senhor, Presidente, que leve em conta essa dramática situação que vivem milhares de cubanos e faça o que for necessário para levantar as restrições que afetam os mais vulneráveis”, indica o texto, que pede ainda que Washington retire a ilha caribenha da lista de Estados patrocinadores do terrorismo.

Confira a íntegra do documento, divulgado pelo ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper Pizano:

A declaração é emitida no momento em que Cuba enfrenta profundos desafios para se reconstruir após a devastação causada pelo furacão Ian, há um mês, recuperação ainda mais dura diante dos bloqueios.

Além de Ernesto Samper, a ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e o também ex-mandatário da Colômbia Juan Manuel Santos assinam a carta, que foi agradecida pelo presidente cubano, Miguel Díaz-Canel: 

Joaquín Pérez, embaixador suplente da Venezuela na ONU, também se posicionou contra as medidas, além de reafirmar apoio solidário à nação vizinha que, apesar do terrorismo econômico, continua renovando sua vocação humanista e seu espírito de cooperação e solidariedade abnegada com todos os povos do mundo.

“Esta política obsoleta de asfixia é a mais injusta e prolongada que já foi aplicada contra qualquer país e nega o direito à pluralidade política e ao livre arbítrio. A coerção econômica, ao que parece, é a ferramenta preferida do governo dos EUA”, afirmou o diplomata.

Bloqueio causa prejuízo de 15 milhões de dólares por dia à ilha caribenha, que há semanas luta para se recuperar da devastação causada pelo furacão Ian

Sam Kelly – Flickr
Bruno Rodríguez Parrilla: Desde 2019, governo norte-americano "escalou o cerco em torno" da ilha, "levando-o a uma dimensão ainda mais cruel





Mais longo e abrangente assédio econômico contra um país na história

O bloqueio econômico contra Cuba teve origem com o Memorando Mallory, documento secreto criado em 6 de abril de 1960 pelo então vice-secretário de Estado dos EUA, Lester D. Mallory, que se baseou na Lei de Comércio com o Inimigo, de 1917. A ilha se tornava inimiga em razão da revolução liderada por Fidel Castro, em 1960, que levou à nacionalização de propriedades pertencentes a cidadãos e empresas estadunidenses.

Memorando Mallory: Bloqueio econômico dos EUA a Cuba completa 60 anos

A intenção de Mallory era privar a ilha “de dinheiro e abastecimento, para reduzir seus recursos financeiros e os salários reais, provocar fome, desespero e a derrubada do Governo”. Até hoje, em 2022, a ofensiva permanece inalterada.

Em 3 de fevereiro de 1962, o democrata John F. Kennedy, então presidente dos EUA, deu início de fato ao bloqueio, que já passou por 11 mandatários – tanto democratas, quanto republicanos – e foi recrudescido por Trump: de 2017 a 2021, foram 243 medidas coercitivas, ainda vigentes sob Biden.

Desde 2019, o governo estadunidense “escalou o cerco em torno” da ilha, “levando-o a uma dimensão ainda mais cruel e humana, com o objetivo de infligir deliberadamente o maior dano possível às famílias cubanas”, afirmou o chanceler cubano Bruno Rodríguez nesta quinta, antes da votação na ONU.

As sanções contra Cuba – o embargo econômico, comercial e financeiro mais prolongado e abrangente da história contra um país – causaram um prejuízo de aproximadamente 6,35 bilhões de dólares à economia cubana apenas nos 14 primeiros meses do governo Biden, o equivalente a 15 milhões de dólares por dia, segundo dados oficiais.

Guilherme Ribeiro | Jornalista e colaborador na Diálogos do Sul.
Com informações de Notícias ao minuto, Venezolana de Televisión e Cubadebate – traduzidas por Ana Corbisier.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Guilherme Ribeiro Jornalista graduado pela Unesp, estudante de Banco de Dados pela Fatec e colaborador na Revista Diálogos do Sul.

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