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4 crianças morrem por dia no Iêmen, enquanto nações viram as costas e diminuem doações

Depois de sete anos de guerra, iemenitas estão desesperados pela paz, mas enfrentam mais morte e destruição, com aumento da fome e da violência
Thalif Deen
IPS
Nova York

Tradução:

Quando o Iêmen do Norte e do Sul se fundiram em um só país dando lugar à República do Iêmen, em maio de 1990, um jornal britânico comentou com um laivo de sarcasmo: “Dois países pobres tornaram-se um só país pobre”.

Descrito como a nação mais pobre de um Oriente Médio abençoado pelo petróleo, o Iêmen continua sendo classificado pelas Nações Unidas como um dos 46 países menos adiantados (PMA), “o mais pobre do mundo”, que depende em grande parte da ajuda humanitária enquanto luta por sua sobrevivência econômica.

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Mas o prolongado conflito com os países vizinhos e a guerra civil interna causaram uma imensa devastação em um país que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), continua enfrentando o “pior desastre humanitário do mundo“.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) disse em 14 de março que mais de 10 mil crianças morreram ou foram mutiladas desde a escalada do conflito, entre uma coalizão pro governamental liderada pela Arábia Saudita e o grupo rebelde huti, também conhecido como Ansar Allah (Partidários de Deus), do ramo chií do Islã.

Os assassinatos e as baixas, segundo a Unicef, são em média de quatro crianças a cada dia. Estes são só os incidentes que as Nações Unidas puderam verificar, razão pela qual a cifra real é “provavelmente muito maior”, disse a Unicef, em uma alarmante declaração conjunta com outras agências das Nações Unidas.

Quando o conflito entra em seu oitavo ano, sem que se vislumbre o final, a organização humanitária internacional Oxfam, com sede em Londres, afirma em um novo informe publicado quinta-feira, 24 de março, que “a intensificação da morte, a indigência e a destruição deixaram milhões de civis iemenitas em uma situação de miséria generalizada”.

Depois de sete anos de guerra, iemenitas estão desesperados pela paz, mas enfrentam mais morte e destruição, com aumento da fome e da violência

EU Civil Protection and Humanitarian Aid / Flickr
Número de baixas entre crianças é o que ONU pôde verificar, razão pela qual cifra real é "provavelmente muito maior"

O Iêmen sofre

O diretor da Oxfam no Iêmen, Ferran Puig, disse à IPS: “O mundo não deve olhar para o outro lado enquanto o Iêmen sofre. O programa de ajuda deste ano está atualmente subfinanciado em 70%, proporcionando só 15 centavos de euro por dia por pessoa que precisa de ajuda”.

Portanto, disse, “é vital que os países que costumam ser muito generosos com o Iêmen continuem com seu apoio; do contrário, milhões de pessoas enfrentarão um terrível sofrimento”.

Em uma conferência internacional de doadores para o Iêmen realizada em 16 de março, organizada conjuntamente pelas Nações Unidas e os governos de Suécia e Suíça, só 36 países dos 193 membros da ONU prometeram algo menos de 1300 milhões de dólares.

Essa quantia foi especialmente decepcionante porque representa só um terço do que se necessita para que 19 milhões de iemenitas não sucumbam em uma situação de fome este ano, segundo dados da ONU deste mesmo dia.

Conferência de Imprensa

Na conferência de imprensa diária da Secretaria Geral da ONU do dia seguinte, uma das questões colocadas foi a lamentável falta de doadores árabes, já que só o Kuwait figurava entre os 36 que se comprometeram a ajudar o Iêmen.

O porta-voz da ONU, Stephan Dujarric, disse aos jornalistas que “não podemos falar de porque alguns países deram mais, ou porque alguns países não deram; terão que perguntar a eles. O que está claro é que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos apoiaram tradicionalmente nossos apelos humanitários. No Iêmen, sempre apreciamos esta colaboração”.

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Dujarric também disse que Martin Griffiths, enviado especial da ONU para o Iêmen, “expressou sua decepção pelo fato de que alguns de nossos sócios tradicionais não contribuíram”.

“Creio que o que é preciso dizer claramente é que uma conferência de promessas de contribuições está aí para destacar a necessidade e motivar as pessoas a dar. Mas não é que a gente não possa doar depois da conferência sobre compromissos. Portanto, esperamos que os países que ainda não doaram, que não se comprometeram, o façam”, afirmou o portavoz.

Dujarric acrescentou: “Para falar em termos coloquiais, a porta do banco continua aberta. Esperamos que continuaremos a receber mais promessas (de doações) … e que os que já prometeram contribuições transformem essas promessas em efetivo o mais breve possível”.

Sobre se Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, implicados no conflito, têm a obrigação moral de doar recursos, Dujarric preferiu evitar a especificidade. “Cremos que existe uma obrigação moral em escala mundial para aqueles que têm os meios de ajudar os que mais necessitam. Há uma obrigação de solidariedade global em todos os âmbitos”, afirmou.

A tragédia vista pela Oxfam

Enquanto isso, o informe da Oxfam advertia que o custo humano da guerra no Iêmen está aumentando consideravelmente ao entrar o conflito em seu oitavo ano, com o número de mortes de civis crescendo consideravelmente, a fome aumentando e 75% da população com necessidade urgente de apoio humanitário.

A organização humanitária afirmou que outro ano de guerra trará consigo um sofrimento inimaginável para os civis, que se traduziria em quase dois terços dos iemenitas passando fome este ano, a menos que as partes em conflito deponham as armas ou que a comunidade internacional intervenha para cobrir um enorme vazio no orçamento dos requerimentos.

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Segundo a Oxfam, os custos crescentes da guerra incluem:

17,4 milhões de pessoas passando fome atualmente, prevendo-se que esta cifra aumente para 19 milhões no final do ano (62 % da população e um aumento de mais de 8 milhões desde o início do conflito).

4,8 milhões mais de pessoas que necessitam de assistência humanitária do que em 2015, o primeiro ano do conflito. (Desde que foi retirada a supervisão dos direitos humanos por parte da ONU, em outubro de 2021, o índice de vítimas civis duplicou, chegando a superar 14,5 mil vítimas).

24 mil ataques aéreos danificaram 40% de todas as casas das cidades durante o conflito.

E durante os últimos sete anos, mais de quatro milhões de pessoas viram-se obrigadas a fugir da violência.

A crise ucraniana, segundo a Oxfam, agravou a situação, aumentando a preocupação com o abastecimento de grãos e azeite para cozinhar. O Iêmen importa 42% de seus grãos da Ucrânia e a Oxfam foi informada de que os preços já começaram a subir. Em Saná e outras cidades, o pão subiu  35% durante a semana em que ocorreu a invasão da Ucrânia pela Rússia e os combates.

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Puig, o diretor da Oxfam no país, disse: “Depois de sete anos de guerra, os iemenitas estão desesperados pela paz, mas enfrentam mais morte e destruição. A violência e a fome estão aumentando uma vez mais e milhões de pessoas não podem obter os produtos básicos que suas famílias necessitam”.

“As pessoas não podem permitir-se bombear água para regar seus cultivos e, nas zonas remotas onde dependem da água potável transportada em caminhões, não podem permitir-se pagar preços mais altos, o que significa que têm que utilizar água que não é segura para beber”, acrescentou.

E, continuou, “em algumas zonas, os habitantes das cidades sofrem cortes de eletricidade de 10 a 12 horas por dia… os que têm painéis solares dependem deles para carregar os celulares e fornecer uma pequena quantidade de energia”.

Puig continuou contando à IPS que os agricultores não podem permitir-se transportar os produtos para os mercados, o que faz com que os preços dos produtos frescos subam ainda mais. Os ônibus e os moto taxis estão ficando inacessíveis, o que faz com que muitos não possam pagar o custo do transporte para os centros de saúde e outros serviços que salvam vidas.

“Os centros de saúde de todo o país poderiam ver-se logo obrigados a desconectar os equipamentos que salvam vidas por falta de combustível. Nos últimos dias, os meios de comunicação locais de Taiz informaram que o hospital Al Thawra já interrompeu suas operações devido à escassez de combustível”, explicou.

Os empregados do governo, disse o representante da Oxfam, não recebem desde o final de 2016. A pandemia da covid-19, junto com as novas regulamentações restritivas, reduziu o número de iemenitas que podem trabalhar na Arábia Saudita e enviar dinheiro para seus familiares em seu país.

E uma desvalorização da moeda que dispara significa que a pouca renda que as pessoas possam ter  compram cada dia menos, o que obriga a Oxfam e outras agências de ajuda a aumentar regularmente as transferências de dinheiro que fazem para apoiar as famílias vulneráveis, continuou explicando Puig.

Mortos e feridos civis no conflito duplicaram

Os mortos e feridos civis no conflito duplicaram desde que o organismo da ONU encarregado de supervisionar as violações do direito internacional humanitário no Iêmen foi eliminado, em outubro do ano passado, lembrou.

“Houve mais de 14.554 vítimas civis desde que se iniciou o registro por parte do projeto Civilian Impact Monitoring em 2017. Durante os últimos sete anos houve mais de 24,6 mil ataques aéreos em todo o Iêmen”, acrescentou.

Além disso, disse Puig, “nos últimos meses, o deslocamento das frentes provocou um aumento das mortes e lesões por minas terrestres nos arredores de Marib, onde as forças em retirada as colocam para frear seus oponentes. Os civis que utilizam as estradas minadas ou que pegam lenha em terras disputadas costumam ser as vítimas”.

Os iemenitas que enfrentam estes problemas veem-se obrigados a recorrer a qualquer forma de sobrevivência. As pessoas vivem em um ciclo de endividamento, e cada vez são mais os que recorrem à mendicância, informa o relatório da Oxfam.

“O Iêmen necessita desesperadamente de uma paz duradoura para que as pessoas possam reconstruir suas vidas e seus meios de subsistência. Sem a paz, o ciclo de miséria continuará e se aprofundará. Até então, é fundamental um financiamento adequado de ajuda humanitária”, alertou Puig.

Thalif Deen, chefe do escritório do IPS das Nações Unidas e diretor regional da América do Norte, cobre a ONU desde o final da década de 1970. Ex-editor adjunto de notícias do Sri Lanka Daily News, ele também foi um escritor editorial sênior para o The Standard, com sede em Hong Kong.
Tradução por Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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