Pesquisar
Pesquisar

A peste, o remédio e a receita dos EUA para sair da crise que dilacera o Brasil

Biden investe no Estado para vacinar sua população e recuperar economia e empregos, enquanto Brasil bate novos recordes de mortes ou infeções pelo coronavírus
Amaro Augusto Dornelles
Diálogos do Sul
Porto Alegre (RS)

Tradução:

O governo dos EUA injetou 1,9 U$ trilhão no mercado para estimular empresas de capital nacional e já colhe frutos. Pena que ao sul do Equador impere o “Consenso de Washington”: o Estado, mínimo, não protege a indústria nacional, muito menos a massa trabalhadora. Quem já produziu vacina e remédio, hoje importa. A Pandemia mostra aqui, na prática, a contradição de tudo o que é pregado pelo modelo imposto ao país, por mais cínico que consiga ser o ministro Paulo Guedes, da Economia.

Nem só de decadência política & econômica, homicidas, flagelos e mortes vive a cobertura da imprensa hegemônica. A cada dia que nasce, o Brasil bate novos recordes de mortes ou infeções pela peste. Avassaladoramente, ela segue ceifando a vida mundo afora — principalmente no hemisfério sul.

Washington já não faz parte deste circo de horrores. Ao contrário. A mídia do norte festeja: a vacinação eficaz e a recuperação econômica dos EUA chegou.

A previsão dos economistas de plantão é que, ainda neste mês de abril, o país alcance o que eles chamam de Ponto de Virada — a marca da sonhada superação da crise.

Do mesmo autor
Rio Grande do Sul foi Balão de ensaio das privatizações de FHC e da implantação do Consenso de Washington no Brasil

A boa nova dos “americanos bonzinhos e eficientes” serve como reforço da política econômica colonial ianque em Pindorama.

Um exemplo para Fernando Collor/ FHC nenhum botar defeito, principalmente na hora de privatizar as joias do erário. Sob medida para governantes que não conseguiram — ou não quiseram — assimilar a dimensão local da catástrofe planetária. 

O estupefaciente resultado econômico do império, no entanto, foi turbinado com a injeção da bagatela de U$ 1,9  trilhão do pacote de estímulos do tesouro Federal às empresas de capital norte-nacional e cidadãos desempregados.

Ou seja, o Estado norte-americano intervém no mercado para garantir a operação de empresas dos EUA. E ainda mantém o consumo médio da população através de um reforço consistente no orçamento das famílias. 

Sobre o tema
Biden propõe investimento público que rompe com consenso neoliberal dos últimos 40 anos nos EUA

Mesmo assim, eles se arvoram o direito de pregar a redução do Estado ao mínimo, deixando “os agentes econômicos regularem o mercado”.

A população ao sul da América, carente de tudo, que chafurde na contaminação e na dizimação em massa, ao melhor exemplo nazista. 

Biden investe no Estado para vacinar sua população e recuperar economia e empregos, enquanto Brasil bate novos recordes de mortes ou infeções pelo coronavírus

Aroeira
A Pandemia mostra aqui, na prática, a contradição de tudo o que é pregado pelo modelo imposto ao país

Mal de Washington

No último dia 12 de abril, morreu John Williamson, criador da expressão Consenso de Washington, em 1990. Por mais que o conceituado economista do Hemisfério norte já esteja velado e sepultado, suas ideias continuam vigorando na América do Sul — o Brasil que o diga. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes — mentor do Estado Mínimo —,  é sua mais fiel tradução. Aparentemente, como se pode perceber ao logo do texto, nem o próprio Williamson o classificaria como neoliberal.

Mesmo antes de ser assolado pela peste, o Brasil já padecia do “Mal de Washington”. Consequência da proximidade com a potência imperial do norte, a indústria farmacêutica nativa — “que já produziu 65% do consumo nacional de fármacos — hoje se contenta com 8% do mercado”, revela Paulo Roberto Feldmann, professor associado da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), da USP. 

Depois da desindustrialização de Fernando Collor (PRN), Itamar Franco (PMDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) sobraram no país apenas o Instituto Butantan e a Fiocruz – estatais – como empresas em condição de produzir vacinas.

O desfalecimento da indústria farmacêutica do Brasil levou o país a perder a capacidade para desenvolver uma vacina nacional. Para isso, investimento na ciência e valorização dos cientistas, mas muitos dos melhores e mais competentes cérebros foram “expulsos” do país pelos cortes de verbas assinados pelos governos Temer e Bolsonaro.

Ciência & tecnologia afundam

No passado não muito distante (inicio deste século), ainda dispúnhamos de pesquisas, que resultaram em novas vacinas aqui desenvolvidas para inúmeras doenças, como explica o Feldmann:

“Infelizmente esta capacidade científica começou a despencar com o governo Michel Temer (2016/18). Cortaram verbas das universidades e do Plano Nacional de Desenvolvimento Científico e Técnico, PNDCT. O governo conseguiu prejudicar toda a pesquisa no Brasil: a ciência sofreu e levou junto a tecnologia, o que prejudicou a indústria farmacêutica nacional, entre outros setores.”

Ainda assim, contra tudo e contra todos deste governo, cientistas brasileiros lutam para desenvolver uma vacina localmente. Mas, por ora, só restou ao país importar. 

Felizmente, os brasileiros têm a sorte de ainda contar com Fiocruz e Butantan, duas instituições estatais com alta capacidade de produzir vacinas. Mas para isso precisam da matéria-prima da mesma, chamada de IFA – Ingrediente Farmacêutico Ativo.

“Aqui surgiu outro problema: o mundo inteiro está importando ou as vacinas já prontas ou o IFA para fabricá-las”, lembra Feldmann.

Conclusão: há uma enorme falta de IFAs no mundo, por isso, nosso processo de vacinação segue a passos de tartaruga. Nada que um planejamento embrionário não antecipasse já no início da pandemia.

Claro que se o governo brasileiro tivesse dado início às compras em agosto, como fez o Chile, teria conseguido tanto o IFA quanto as vacinas, insurge-se Feldmann. 

Faltam economia e planejamento

Em dezembro, quando o general ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, acordou, o pesadelo do reduzido estoque mundial já era realidade. E para o país, ficaram as sobras. “Essa é a explicação de porque o Brasil é o único país da América do Sul onde faltam IFA e vacinas. O dinheiro foi torrado com cloroquina”, destaca o economista.

O fato é que a tecnologia brasileira de fabricação de vacinas e IFAs também foi destruída no bojo do processo de desindustrialização, justificado pelo Consenso de Washington, tão ao gosto do honorável FHC.

No final dos anos 1980, o país produzia de 55% a 60% de todo medicamento consumido aqui, com matéria-prima nacional. O Brasil era um dos líderes mundiais da indústria farmacêutica, que foi dizimada. Hoje, a produção nacional é de 5%.

Graças ao Consenso do Império, o país vive o pior dos mundos. Nestes últimos 30 anos, praticamente todas as indústrias privadas quebraram, uma após a outra. Ora, produzir vacina exige pesquisa científica básica nas universidades. Além de tecnologia para sua produção na indústria. Imagine o que seria de nós se tivessem privatizado o Butantan e a Fiocruz…

Na América Latina, commodities

O momento é oportuno para ver como o espectro do consenso com nome da capital dos EUA vem se comportando no mundo:

Há cerca de cinco anos começou a ganhar evidência um crescente número de pesquisas comparativas do crescimento econômico entre América Latina e Ásia. O professor Feldman observa que a maioria delas é sobre o desempenho de países entre meados da década de 1990 e o ano de 2018.

Neste período, a América Latina cresceu 18%. Já os asiáticos, emplacaram 85%. Que lavada! Para entender tais números é preciso lembrar que, na década de 1990, o Consenso de Washington foi “enfiado goela abaixo” em nossa região. 

Principalmente nas gestões de Collor, Itamar e FHC. “A cartilha dos estadunidenses começa pela imposição da adoção do Estado Mínimo, abertura das importações, fim da reserva de mercado e de proteções às empresas locais”, segue Feldmann. 

Na cartilha dos interesses ianques com nomes pomposos de instituições internacionais, como FMI, cada país deve produzir aquilo no qual tem vantagem competitiva. À época, o Brasil era induzido a produzir suco de laranja, café, açúcar, soja e minério de ferro para abastecer as indústrias do hemisfério norte.

Na Ásia, mercado fechado e crescimento

“China, Japão, Indonésia, Tailândia, Índia, Singapura e praticamente todos os países asiáticos não seguiram as ‘recomendações’ do Consenso de Washington”, observa Feldmann.

A proximidade geopolítica entre Brasil e EUA fez tudo virar lei para alcançar o “desenvolvimento”, garante o estudioso, que pode confirmar sua teoria com a experiência de quem vive entre ambos os países. 

Por outro lado, a Ásia seguiu mantendo seu mercado fechado para produtos importados. Só o estritamente necessário era aceito. O Japão, por exemplo, proibiu a IBM — maior fabricante de computadores do mundo — de vender seus produtos no país durante décadas. Graças a isso, o país é hoje uma potência na área.

Já a América Latina abriu o mercado conforme o modelo prescrito por Washington. Fernando Collor permitiu que produtos chineses, norte-americanos e europeus, como roupas, calçados, computadores e eletroeletrônicos entrassem no mercado para competir com empresas nacionais, que não conseguiam fazer frente aos novos concorrentes e começaram a quebrar.

Na Ásia e no Leste europeu, Polônia, Hungria, Sérvia, Croácia, Romênia, que também não abriram seus mercados de forma tão desbragada quanto aqui, o resultado foi de crescimento econômico bem acima da média.

Williamson não aceitaria Guedes como afilhado

De acordo com o historiador João Márcio Mendes Pereira, o Consenso de Washington se tornou a política oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI) para promover o “ajustamento macroeconômico” dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades. 

O autor explica que a expressão 

“significava o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que eram cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington D.C. e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989. Desde então, a expressão Consenso de Washington fugiu ao controle de seu criador e tem sido usada para abrigar todo um elenco de medidas e para justificar políticas que garantiriam, entre outras coisas, o crescimento econômico e o desenvolvimento social dos países latino-americanos.”

Desde que o termo foi cunhado, ele fugiu ao controle de seu criador, defendem especialistas. O termo estaria sendo usado para abrigar medidas e justificar políticas neoliberais, com as quais nem mesmo Williamson concorda:

“Claro que eu nunca imaginei que meu termo fosse usado para justificar liberalizações de contas de capital externo… monetarismo — ou que tire do Estado a função de prover bem-estar social e distribuição de renda. Entendo serem estas as quintessências do pensamento neoliberal”.

Já que auto intitulado neoliberal Paulo Guedes não é nem sobra disso, pode-se deduzir que o próprio esteja no mercado disposto a assumir qualquer coisa e justificá-la, mesmo nos casos de uma sangrenta ditadura — como o seu chefe, Augusto Pinochet — assumindo qualquer rótulo, desde que devidamente remunerado.

A tortura institucionalizada

Como destacado acima, o Consenso de Washington induziu ao fechamento de indústrias farmacêuticas no Brasil. E como consequência, o flagelo da pandemia virou pandemônio.

Em meados de abril, jornais da mídia hegemônica enfim conseguem retratar o que vivem os brasileiros, eleitores ou não do atual presidente. 

A iminência da falta do kit intubação é o terror de quem se acha à beira da morte. Entre o número insuficiente de leitos normais e UTIs, faltam remédios para intubar enfermos em 591 municípios do país. Médicos confessam ter de amarrar pacientes para que eles não arranquem os equipamentos por causa da dor decorrente da falta de anestésicos.

São Paulo — o estado mais rico da União — admite a falta de medicamentos ou estoques em níveis muito baixos, a exemplo de outros 10 estados. Diante da escassez, os médicos estão apelando para outros remédios, na tentativa de sedar minimamente essas pessoas.

Em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, um hospital filantrópico teve que parar de internar pacientes na UTI devido à falta dos medicamentos. Com a inação do governo, pela primeira vez na história, a Confederação das Santas Casas e Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB) realizou uma importação, da Índia de kits intubação para assegurar ao menos 30 dias de estoques para 94 instituições do país. 

Em declaração a este repórter, um médico, que trabalha em um hospital público da cidade de São Paulo e não quis se identificar, desabafa: “o paciente às vezes acordava no meio do procedimento, não conseguia respirar depois que a gente intubava sem ligar muito bem ao ventilador mecânico. Isso vai comprometendo ainda mais a função do pulmão, que já é bastante debilitada.” 

Isto se chama tortura.

Amaro Dornelles, colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Amaro Augusto Dornelles

LEIA tAMBÉM

Lula
Frei Betto | Para Lula, momento exige maior sintonia entre governo e movimentos sociais
Lula-RS-Brasil (2)
Nas mãos de Lula, caos no RS é sequela do bolsonarismo: desmonte ambiental e fake news
mães - palestina
Dia das Mães: algumas mães só querem a paz de presente, lembra ato pró-Palestina em Brasília
RS - inundações
Chamado à solidariedade internacionalista: inundação no RS demanda mobilização