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Ações concretas de Massa frente ao berreiro de Milei alteram cenário eleitoral na Argentina

A unidade, o coletivo e um projeto sólido, impulsionados pela própria líder, Cristina Kirchner, são uma estratégia importante da UP nestas eleições
Helena Iono
Diálogos do Sul Global
Buenos Aires

Tradução:

Não nos baseemos só nos números das pesquisas de opinião. Nas últimas duas semanas, o cenário eleitoral mudou. O berreiro de Milei convence menos. Por isso os seus números diminuem. As intervenções claras e fortes de Massa surpreendem a alguns que não entendem que a sua inesperada atuação põe por terra a dependência às personificações, quando as lideranças estão impedidas de atuar. A unidade, o coletivo e um projeto concreto, impulsionados pela própria líder, Cristina Kirchner, são uma estratégia importante da UP nestas eleições.

 Os números de Milei diminuem porque a UP desceu em campo para dirigir-se à militância e prepará-la para dialogar com o povo. Não só com tik-toks, mas com palavras, razão, verdade e realizações. Vejam os discursos do governador Axel Kicillof e Sérgio Massa no município de Ensenada.

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Outro exemplo de interação com o povo na rua, bem citado por Héctor Cabrera (ex-diretor da Secretaria Sindical da CTA Nacional), foi o ato que promoveu “o Ministro das Obras Públicas, Katopodis: realizou greves ativas em defesa das obras públicas, promovendo assembleias nos locais de produção com os trabalhadores, para discutir o projeto político que devemos defender, se não quisermos retroceder 40 anos na vida do país. Considero esse ato é um plantar de consciência social fundamental. O mesmo que as assembleias de empresários de PYMEs alertando os trabalhadores sobre os cantos de sereia dos libertários, vendendo uma falsa liberdade que os leva à verdadeira escravidão e que, em meio à incerteza e à frustração, se espalha por grandes setores do campo popular.” Opiniões como esta são parte de seu artigo num jornal popular de municípios de Buenos Aires, um instrumento de conscientização muitas vezes olvidado pela esquerda.

Cristina Kirchner, na UMET, deu uma conferência chamada “Castas, heranças, colapsos e futuro”.

Depois de uma longa exposição sobre a nefasta economia neo-liberal, o FMI e a herança macrista, reforçou a atuação do ministro da economia e candidato presidencial, Sérgio Massa, para assegurar o futuro dos trabalhadores e do país.  Ao mesmo tempo em que pediu perdão, por não haver podido ainda solucionar todos os problemas dos mais necessitados, chamou à militância: “Vamos militar com força, companheiros e companheiras! Não há que ficar com raiva de ninguém, nem criticar a ninguém pelo seu voto. Há que debater, mas com respeito”. Seu recado é de autocrítica como governo, justificando as razões da enorme “votação bronca”, mas apontando ao futuro, à revisão, sobretudo com mais comunicação e medidas. Comunicação pública, e didática (como fez enfocando a questão econômica nessa conferência); algo que esteve ausente na gestão da presidência e do executivo nacional. E medidas, como as acionadas pelo ministro Massa, tardias, mas a tempo.

 

Medidas e Ações

As medidas anunciadas e já em execução dão elementos para que os defensores da UP superem a “depressão” do pós-PASO produzida pela significativa votação em Milei (LA), e superá-lo nas pesquisas.  Enfim, a militância juvenil tem agora o tal do “bastão do marechal” a que se referiu Cristina Kirchner para poder atuar, convencer no debate corpo a corpo e virar o voto de uma juventude rebelde, despolitizada e envenenada pelas redes sociais onde a direita conta com grandes investidores econômicos internacionais.

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O importante é que entrou em campo a ação do Legislativo (Câmara e Senado) para referendar e transformar em lei medidas do Executivo que a oposição qualifica como paliativas ou eleitoreiras, a ponto de votar em contra. Transformar em lei tais medidas, reforça a expectativa de que cuidar da classe trabalhadora é uma meta do governo a continuar em 2024. Ao contrário da direita que quer acabar com os direitos já conquistados. A recente sessão no Senado, confirmou a aprovação na Câmara de Deputados, e aprovou uma nova lei. Eliminou-se a chamada quarta categoria, pagando Imposto de Renda somente os que recebem mais de 15 salários mínimos; ou seja, nenhum trabalhador registrado voltará a pagar a partir de 2024; somente 80 mil gerentes e aposentados privilegiados pagarão. Tal conquista foi comemorada nas ruas, na Praça do Congresso, por todas as centrais sindicais (CGT, CTAs, ATE, etc…) e movimentos sociais. Além disso, aprovou-se o projeto de construção de 5 novas universidades públicas, incluindo a das Madres da Praça de Maio na capital.

Enquanto isso, várias medidas de emergência anunciadas nas últimas semanas já são fatos que alteram o bolso dos mais necessitados:

 Auxílio com três reforços de $37 mil – para aposentados, mantendo-os com poder de compra acima da inflação

– Um montante fixo $60 mil (em duas parcelas) para trabalhadores públicos e privados com salários inferiores a $400 mil. 

– Um montante fixo de $25 mil para empregadas e empregados domésticos privados.

– Créditos com taxas reduzidas de até $ 400 mil – em até 48 parcelas.

– Benefícios aos trabalhadores monotributistas e a prorrogação de pagamento de 6 meses da contribuição tributária. 

– Reforço de até $ 23 mil para o cartão alimentação. Crédito em até 48 parcelas para trabalhadores

– Eliminação do IVA com reembolso de até $18 mil por mês para salários inferiores a $708 mil. 

– Um novo IFE (Entrada Familiar de Emergência) de $94 mil – em duas parcelas para os trabalhadores não registrados, entre 18 e 64 anos, 

– Um reforço de $20 mil para os beneficiários do “Potenciar trabalho”. 

– A suspensão do aumento dos planos de saúde (privados) por 90 dias. 

– Aumento do orçamento educacional de 6% a 8% 

São medidas que surgem no bojo das últimas negociações com o FMI que, antes desse último desembolso dos 7,5 bilhões de dólares, quis impor uma situação econômica-política golpista drástica, no período eleitoral, que, segundo o governo, era uma desvalorização de cerca 60%, provocando um golpe inflacionário. O mal menor aceito pelo governo peronista foi de 20%. Tudo indica que nenhuma dessas recentes medidas de Massa, incentivadas por Cristina e o governo peronista, estavam acordadas pelo FMI. A voz de Nestor Kirchner, “pagar para sair” parece tomar altura. O apoio recente dos yuans chineses, da CAF, à entrada da Argentina no BRICS-11, deram um bastão para começar a acenar um “basta de FMI. Tchau!”. Referências no artigo anterior.

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Entre as medidas de Massa há o apoio às PYME (Pequena e Média Empresa) com mais créditos e menos procedimentos bancários. Créditos para pré-financiar as exportações. Retenção de 0% para economias regionais com valor agregado industrial, colocando como prioridade central o desenvolvimento científico e tecnológico como insumos de exportação e como base essencial para a competitividade da Indústria Nacional, promovendo o consumo e o desenvolvimento do mercado interno.

O conteúdo da avalancha recente de medidas de Massa indica duas metas centrais do programa de governo da UP: recuperar as entradas (salários) e, ao mesmo tempo, proteger e incentivar os setores industriais e produtivos. Finalmente, medidas para intervir numa melhor distribuição de renda através de uma tributação mais justa. Anuncia-se uma taxa de 15% de impostos às empresas multinacionais. Ao mesmo tempo, uma Comissão Legislativa de Trabalho, com o apoio da FdT (Frente de Todos) está por levar ao Congresso o projeto de redução de horas de trabalho de 48 a 36 semanais.

A unidade, o coletivo e um projeto sólido, impulsionados pela própria líder, Cristina Kirchner, são uma estratégia importante da UP nestas eleições

Foto: Reprodução/Twitter
A UP só tem a ganhar com medidas concretas, o debate e a conscientização corpo a corpo, nas ruas, e nos meios de comunicação




Governo de unidade nacional

Um governo de unidade nacional. Esse tem sido o seu último chamado nos discursos. Um projeto nacional e popular para salvar o país do perigo da direita concentrada nas candidaturas de Milei e Patricia Bullrich, sustentada pelo poder financeiro internacional, pelo FMI, e o Partido Judicial-Midiático que impediu a candidatura de Cristina Kirchner, a mais provável vencedora. As duas caras da direita disputam para impor a mesma coisa: Cortar gastos do Estado, acabar com direitos trabalhistas e sindicatos, privatizar o ensino e a saúde pública, fim ou independência do Banco Central, fechar ministérios, a mão privada sobre o lítio e o gás, o domínio dos portos e rios, acabar com a soberania nacional e o kirchnerismo. Para assegurar tudo isso, a repressão estará na ordem do dia.

No recente debate presidencial, Milei se cuidou do descontrole habitual, mas revelou que é igual à sua vice Villarruel: defende genocidas, renega o terrorismo de Estado na ditadura; a memória e a verdade sobre os 30 mil desaparecidos; replica os ditadores, Videla e Massera. Quase na reta final, Milei se dedica a disputar os votos da direita com Patricia Bullrich. Há que ver se todo o eleitorado rebelde que o apoiou nas PASO, aprova seu fascismo, e negacionismo frente ao holocausto e a história. O El Destape divulgou um importante artigo que deveria ser base de alerta para que parte da juventude se conscientize sobre os riscos à democracia argentina ao votar na Liberdade Avança. 

Há também setores centristas da burguesia aos quais não convêm a política, nem a imagem, o desconcerto e agressividade dos “Liberdade Avança”. A evolução das divergências internas de Juntos pela Mudança (JxC) com Bullrich, e desta com Milei, é uma questão que os números das pesquisas não preveem. A amplitude das alianças da UP (União pela Pátria) em relação ao centro ainda está por se manifestar, através do governadores e forças do alfonsinismo do ex-partido Radical que haviam escoado rumo ao macrismo. O maior empenho concentra-se em ganhar os votos críticos ou passivos da abstenção (10%), e no segundo turno, também do FIT e partidos esquerdistas.

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O fato de que há casos de empresários das PYME que se dedicam a discutir e reverter a posição de seus trabalhadores, que votaram a Milei nas PASO, indicam que a batalha é complicada, sui generis, e os resultados imprevisíveis. As tradições político-culturais entre a Argentina e o Brasil não são as mesmas. Os elementos nacionais e da conjuntura global, que deram vitória eleitoral a Bolsonaro não são exatamente os mesmos em que pisa Milei. Apesar das intenções dos EUA sobre ambos serem iguais, os resultados podem não ser os mesmos. E a lição negativa do bolsonarismo serviu a muitos argentinos. No contexto mundial, há pressões na contramão de Milei. A Unesco acaba de declarar o museu da ESMA, ex-centro de detenção, como patrimônio histórico da humanidade. A ONU, já em 2006 declarou o desaparecimento forçado de pessoas, como os cometidos na Argentina, crime de lesa humanidade.

O apelo de Massa à Unidade Nacional, para alguns, soa demagogia conservadora, mas não é; responde aos riscos reais que corre o país de retroceder 40 anos, à ditadura, às privatizações de Menen, ao colapso de 2001, provocados pela perda de soberania frente ao FMI na era Macri. Na entrevista aos presidentes, Massa deixou claro que há os que se dedicam ao passado e outros que propõem um vazio.  Ao mesmo tempo, em uníssono com o dito já por Cristina Kirchner, Massa reiterou um pedido de perdão pelo que não foi feito pelo governo. Sua campanha, não se submete à agenda do ódio e da violência: agita o programa econômico-social e as medidas em curso, e as esperanças de futuro. Peron já dizia: “Melhor do que dizer é fazer, melhor do que prometer é fazer”. Massa fala em governo de unidade nacional, como o de Lula no Brasil, não em defesa de uma democracia abstrata, por simples temor à direitização; mas, baseada em propostas econômicas concretas, defendendo os direitos trabalhistas, dentro de uma economia nacionalista, com planificação estatal da relação Estado-empresas privadas, de defesa do lítio e do gasoduto estatal, de YPF e Aerolíneas Argentinas; tudo, num contexto novo no mundo, com Unasul, Mercosul, BRICS11. É a defesa do possível e necessário.

A massa da campanha de Sérgio Massa tem o fermento de medidas econômicas concretas e só poderá crescer com o calor do diálogo nas casas e nas ruas. Os debates presidenciais são importantes, porém, não decisivos para a eleição. A UP só tem a ganhar com medidas concretas, o debate e a conscientização corpo a corpo, nas ruas, e nos meios de comunicação (Rádio/TV) públicos e comunitários. Tudo indica que uma gigantesca mobilização pela Memória, Verdade e Justiça será tema para a re-conscientização popular nos próximos dias.

Helena Iono | Colunista na Diálogos do Sul, direto de Buenos Aires.



As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Helena Iono Jornalista e produtora de TV, correspondente em Buenos Aires

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