Verdade, criatividade e novas tecnologias: chaves de um jornalismo necessário

"Se se perde a verdade é mais que possível que desapareça a liberdade”

Livia Rodríguez Delis

Havana (Cuba)

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O Fórum Internacional de Jornalismo, celebrado no fim de janeiro em Havana fez uma convocatória urgente para um ofício profissional, criativo, apegado à verdade e às novas tecnologias para enfrentar a imprensa a serviço do mercado que hoje assedia os povos.

Realizado por Prensa Latina (PL), o encontro pelos 60 anos da Operação Verdade uniu personalidade e escritores de vários países, bem como representantes de uns trinta meios de comunicação, cubanos e estrangeiros, para o debate sobre o jornalismo latino-americano nos cenários da globalização e das novas tecnologias.

Durante as duas jornadas do encontro no emblemático Hotel Nacional, os participantes coincidiram em destacar a vigência da Operação Verdade e a necessidade de revivê-la com novos projetos culturais e informativos, ao mesmo tempo em que sublinharam a importância de um jornalismo independente do controle do mercado na América Latina. 

Sobre os desafios atuais da imprensa, o historiador da cidade de Havana, Eusébio Leal, assinalou que o mais importante é buscar a verdade atrás da notícia; um aspecto muito difícil nos tempos atuais, sobretudo em um mundo moderno e globalizado.

Não obstante, afirmou que defender a verdade desde o jornalismo é uma grande batalha, à qual estão convocados profissionais de todos os continentes. Destacou a vigência da Operação Verdade e o pensamento de Fidel Castro no atual contexto da informação, caracterizado pela hegemonia dos médios. 

Sublinhou o papel da educação para a transmissão às novas gerações do amor à Pátria, o culto à verdade, a radicalização das ideias e a busca da justiça. 

Ante o atual panorama político da região, advogou pela unidade, uma ideia do estrategista Fidel Castro, a quem qualificou de força poderosa do pensamento latino-americano. 

Leal rememorou que, após o  triunfo da Revolução, em 1º de janeiro de 1959, seu líder máximo, Fidel Castro, fez um apelo para dar a conhecer a verdade e se converteu em jornalista e editor ante as campanhas que pretendiam tergiversar o caráter justo, popular e social do processo cubano.

Referiu que depois dos processos exemplares de justiça que se deram em Cuba nos primeiros anos do Governo revolucionário, se tornou urgente efetuar uma Operação Verdade diante da distorção das notícias e da campanha dirigida desde os Estados Unidos.

O historiador ressaltou que por esse motivo surgiu a Agência Latinoamericana Prensa Latina, "da agudeza política de Fidel, da vontade do  Che (Ernesto Guevara), que se prova hoje em cada manifestação nos rincões mais distantes do mundo”. Evocou a participação na criação de PL do jornalista argentino Jorge Ricardo Masetti, e suas publicações em defesa do projeto social cubano, que foi recordado no fórum junto às proezas narrativas e jornalísticas de seu conterrâneo Rodolfo Walsh, outro dos fundadores dessa agência.

Por outro lado, o intelectual franco-espanhol Ignacio Ramonet advertiu sobre a necessidade de apegar-se aos fatos diante das campanhas midiáticas internacionais que têm como objetivo desinformar a sociedade. Hoje mais do que nunca é necessário regressar aos fatos, aos dados, assim como evitar as desinformações e a intoxicação por meio das redes sociais, afirmou o jornalista em declaração exclusiva a Prensa Latina, na qual acrescentou que a Internet provocou uma mudança fundamental, e existe um desconcerto geral. Também alertou para a crise de credibilidade que afeta hoje o mundo da informação. E sentenciou: "Se se perde a verdade é mais que possível que desapareça a liberdade”. 

O presidente da Federação Latino-americana de Jornalistas (Felap), Juan Carlos Camaño, referiu-se ao papel de sua organização na defesa da verdade e da justiça social. Denunciou o complexo panorama que encontram os profissionais de imprensa responsáveis com suas sociedade, em países como México, Brasil e, em menor medida, Honduras e Guatemala. Igualmente, elogiou a PL por sua capacidade de ação em diferentes lugares do mundo, na Ásia, África, América Latina e Europa, o que tem demonstrado que se pode exercer a profissão com dignidade a serviço dos interesses dos povos, onde seja e como seja.

Redh Cuba
O Fórum Internacional de Jornalismo fez uma convocatória urgente para um jornalismo, criativo, apegado à verdade e novas tecnologias

A desinformação como arma

Em uma magistral conferência, o diretor do Programa Martiano, Abel Prieto, assegurou que a agenda hegemônica cultural imposta pelos grandes centros de poder constitui um perigo para a identidade dos povos. Também sublinhou a importância de articular o pensamento das forças que defendem as alternativas anticapitalistas.

Outros, como o jornalista chileno Manuel Cabieses, convocaram a exercer um jornalismo mais comprometido com a sobrevivência da humanidade, em uma mensagem enviada ao evento pelo 60º aniversário da Operação Verdade. Mesmo não podendo assistir ao fórum por problemas de saúde, o ativista enviou um vídeo onde estimula um jornalismo alimentado com as grandes correntes de opinião que impulsionem o progresso da humanidade e assegurem a paz e a justiça no mundo.

A jornalista e escritora argentina Stella Calloni conclamou os jovens latino-americanos a protagonizar a batalha contra a desinformação e a liderar a resistência política e cultural ante a maquinaria midiática que alheia e conduz à “zumbificação da sociedade”.

“Devemos perder as vaidades e os egos para abrir espaços às novas gerações em uma luta na qual o jornalismo deve ter uma linguagem simples, didática e bela para que chegue às pessoas e ajude e emancipá-las”. Calloni também convocou os profissionais do setor comprometidos com as causas justas, a romper esquemas e trabalhar com as pessoas, com a meta de combater a desinformação.  

No contexto do fórum, o presidente da PL, Luis Enrique González, e a vice-diretora da Televisão Central da China (CCTV), Li Xia, subscreveram um acordo de cooperação que inclui um intercâmbio de notícias. Após a assinatura, González e Li coincidiram em que o convênio permitirá mostrar as realidades de ambos os países, muitas vezes distorcidas por campanhas midiáticas.

O Fórum Internacional de Jornalismo Latino-americano concluiu com o convite do secretário geral do Conselho Mundial de Agências de Notícias, Maxim Minchev, ao sexto conclave da organização que se realizará de 13 a 15 de junho deste ano em Sofia, Bulgária, com o tema: O futuro da notícia.

Minchev adiantou que mais de 150 agências dos cinco continentes participarão do encontro, onde serão abordados temas como as falsas notícias, a inteligência artificial e as novas fontes de recursos no setor.

Mensagem de Correa

O presidente da Prensa Latina leu uma carta do ex-presidente do Equador Rafael Correa, na qual ele qualificou de ópio de nossos povos os meios subordinados às elites e estimulou os processos de mudança na América Latina a considerar a imprensa burguesa como a principal força a ser enfrentada. Correa advertiu, na mensagem lida no encerramento do evento, que o poder midiático converteu o estado de direito em estados de opinião, mediante os quais governam, legislam e julgam, sendo ao mesmo tempo promotores, juízes e verdugos.

Necessitamos mais Operações Verdade. Depois de 60 anos, se mantém a estratégia contra os governos de esquerda. Já não com botas e fuzis, mas com manchetes e decisões judiciais, sentenciou.

Destacou, além disso, o papel da PL como um médio alternativo ao poder midiático. "Não apenas reconheço a grande trajetória da Agência Informativa Latino americana Prensa Latina, mas também a urgência de fortalecê-la, expandi-la e ter muitas mais”.

Para fechar as cortinas do histórico encontro, Luis Enrique González instou a articular o pensamento revolucionário e a unir forças neste empenho por levar sempre adiante a verdade. De igual modo, ratificou a disposição da PL de contribuir com todos os meios no trabalho a serviço da verdade.

* Jornalista da Redação Nacional da Prensa Latina.

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