Wikimedia Commons

Entenda "operação desestabilizadora" dos EUA que ditou golpe de Estado boliviano

Tudo estava preparado para o enfrentamento nas urnas e se perdessem os opositores, como aconteceu, a OEA desempenharia seu papel de cúmplice

Nesta segunda-feira (6) partiu para o México em condição de asilado político o presidente constitucional da Bolívia, Evo Morales, deixando para trás uma grande interrogante de por que o processo de mudança impulsionado pelo seu governo foi sabotado por setores da direita local e poderosos interesses reunidos sob o guarda-chuva dos Estados Unidos.

Dias antes que se consumara o golpe de Estado cívico-militar, Mark Weisbrot, do Center for Economic and Policy Research, advertiu sobre o que estava sucedendo e o que podia suceder, em um artigo intitulado “A administração Trump está socavando a democracia na Bolívia”. 

Por coincidência tanto a administração do presidente Donald Trump como a OEA se confabularam, sem apresentar provas críveis, para desacreditar as eleições nacionais da Bolívia. 

Esse era o caminho e o toque final para cumprir um plano desenhado por etapas para tirar Morales do Governo e criar um cenário onde se abrissem as portas a grupos opositores minoritários de Santa Cruz de la Sierra, centro do poder econômico do país, e a burguesia entronizada no sul de La Paz. 

Washington foi o eixo dessa operação desestabilizadora que quando triunfasse abriria as portas fechadas pelo Governo popular do Movimento ao Socialismo (MAS) ao controle de preciosos recursos naturais como o gás e o lítio, entre outros minerais. 

Esta "operação desestabilizadora" chegou ao seu ponto culminante quando Morales renunciou sob a pressão dos militares em meio a uma onda de protestos e violência desencadeada por setores da burguesia local, principalmente desenvolvida pelo dirigente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, que se erigiu em um importante peão neste movimento contra os mais humildes setores do país. 

Tudo estava preparado para o enfrentamento nas urnas e se perdessem os opositores, como aconteceu, a OEA desempenharia seu papel de cúmplice para plantar no imaginário dos bolivianos que ocorreu uma fraude. 

Wikimedia Commons
A "operação desestabilizadora" culminou quando Morales renunciou sob a pressão dos militares em meio a uma onda de protestos

TREP e a Neotec

Muito se falou da parada do TREP (um sistema de contagem rápido da votação) em momentos em que Evo vencia por estreita margem o seu rival Carlos Mesa. Essa foi uma peça chave no plano estadunidense para dizer que existiu fraude, e desencadear os protestos que logo se tornaram massivos com a cumplicidade da OEA, que em sua auditoria do voto apoiou a ideia. 

Hoje ninguém fala de que o TREP foi parada quando presumidamente foi hackeado em uma operação montada pelos serviços estadunidenses, na qual também chama a atenção que Marcel Guzmán de Rojas, o dono da Neotec, a empresa encarregada de realizar o TREP, era um seguidor confesso de Carlos Mesa, o principal candidato opositor. Podia-se confiar de que não participasse de uma fraude? Perguntam-se analistas. 

Aqui entra em jogo a OEA e a auditoria que o Governo aceitou confiando que fosse um processo transparente. No entanto, como era de se esperar e estava planejado, o desprestigiado fórum, em um informe mais político do que técnico, sugeriu que existiu fraude. 

Esse ditame ocorreu quando mal haviam contabilizado os votos, e segundo eles encontraram 78 erros entre a amostragem das 33.043 até as totais. 

Isto provocou a suspeita sobre todo o processo e a insurgência explodiu. A Polícia e as Forças Armadas se incorporaram como cúmplices passivos e deixaram que os grupos opositores criassem o caos nas principais cidades do país. 

Segundo Mark Weisbrot, a OEA não proporcionou nenhuma prova de fraude eleitoral e assinalou que aproximadamente 60 por cento do orçamento da OEA provém do Governo dos Estados Unidos. Então há que responder a quem dá o dinheiro. 

Evo e as mudanças

Algo que pesa contra Morales, paradoxalmente, é que seu projeto de mudança desde posições de esquerda foi satisfatório e converteu o país em uma pujante economia que abriu as portas ao bem-estar da maioria de seus compatriotas. 

Esse processo exitoso levou a pobreza a cair dramaticamente e muitos pobres passaram a ser classe média, o Produto Interno Bruto aumentou acima dos mais prósperos países que aplicavam receitas neoliberais, como a Argentina e o Chile, e o país conseguiu o maior índice de crescimento econômico da região. 

Esse exemplo foi inaceitável para as elites de poder e para a Casa Branca, empenhada em impor suas receitas e evitar que se estendesse pela região o convencimento que só os movimentos de esquerda podem chegar a satisfazer os interesses populares. 

A esse respeito, Sergio Pascual, membro do Conselho Executivo do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, aborda em um artigo de opinião como se consumou o golpe contra o Governo popular de Morales para ocultar e parar seu exemplo. 

Um país dentro de outro país

Precisa Pascual que o golpe necessitou de “muita gasolina e algumas faíscas detonantes”. 

Assinalou em sua interpretação que o oriente boliviano, o berço dos protestos contra Morales, é um país dentro de outro país e um país dedicado a si mesmo. 

Explica que duas características unem esta região: são brancos de ascendência étnica europeia e estão assentados na zona mais rica em recursos naturais do país. Nunca aceitaram que um camponês indígena os governasse. 

Neste ponto encontramos o fio condutor da revolta com outros dois setores levantados contra Evo Morales: o sul de La Paz, branco e economicamente poderoso; e a elite das Forças Armadas que, ao contrário da tropa, não só não é majoritariamente indígena mas que, da mesma forma que o resto das forças armadas latino-americanas, é profundamente anti-esquerdista. 

Sustenta o analista que as elites econômicas da região latino-americana são conscientes que o ciclo de contração no qual está entrando a economia mundial não lhes chega com boas perspectivas nos preços das commodities (gás, soja, minérios...).

Neste provável cenário, assegura, para seus representantes bolivianos resultava urgente tirar do Governo um presidente que não teria duvidado de que lado ficar quando chegassem os maus tempos. 

O caso da Bolívia só é entendível para quem conhece a idiossincrasia deste povo. Muitos se perguntam, por outro lado, porque não acudiram em defesa de um processo de mudança que trouxe a estabilidade econômica ao país, os melhores índices de crescimento, escolarização, acesso à saúde e a serviços públicos de sua história, o aumento da capacidade de consumo das classe populares a níveis inéditos e inclusive ir adiante, inclusive em seu salário mínimo, a potências regionais como Colômbia e Argentina.

Referendo de 2016

Na opinião de Pascual pesou muito o referendo de 21 de fevereiro de 2016. Naquela ocasião, em um processo mal organizado e pior executado, Evo Morales, perdeu por muito pouco (50 a 49) a consulta sobre a possibilidade de uma reforma que permitisse sua candidatura à reeleição nas atuais eleições de 2019. 

Depois de reabilitado esse direito pela justiça do país, uma parte da população sentiu traído seu apego à moral ancestral do ama quilla, ama shua, ama llulla (não mentir, não roubar e não ser ocioso) e a uma cultura do consenso arraigada em seus usos consuetudinários, não compreendeu – ou pelo menos não digeriu – aquela decisão, assegura Pascual. 

Esse foi um fator utilizado pelos inimigos do processo para apertar a tecla da fraude e tirar votos do Movimento ao Socialismo (MAS).

Apesar disso ninguém dúvida da vitória nas urnas, mas o plano desenhado contemplava um segundo turno que favoreceria estreitamente a oposição, motivo pelo qual se impôs fixar a suspeita de fraude, o que fizeram os donos do TREP e o possível hacker que prontamente executaram os serviços estadunidenses

Os resultados mostrado pelo TREP nas primeiras horas da tarde eram um cenário longe dos dez pontos de vantagem e, portanto, aproximavam a oposição de seu sonho, um segundo turno, na qual poderiam somar candidaturas divididas e superar a Evo Morales. O euforia propagou-se rapidamente entre seus seguidores. 

Não há dúvida de que Washington e os setores adversos a Morales só tinham uma meta na Bolívia: tirar Morales do Governo, inclusive se tivessem que recorrer ao magnicídio. 

Muitos recordam o suspeito acidente do helicóptero presidencial, por isso não foi aceita nenhuma das propostas apresentadas pelo presidente para encontrar uma saída à crise, inclusive novas eleições com um novo Tribunal Eleitoral. 

Assim, para evitar um enfrentamento e um banho de sangue entre bolivianos, Morales tomou a determinação de renunciar. 

Agora começam as lutas pelo poder e os protestos populares; virão momentos difíceis para os bolivianos e, sobretudo, a direita tem o desafio de igualar ou manter os avanços alcançados por Morales. 

Se não se der esse cenário, a noite escura que enfrentam hoje os bolivianos se converterá mais cedo do que tarde em um dia luminoso que chegue com o regresso da esquerda ao poder. 

A esse respeito, resume Pascual, aberta a caixa de Pandora e consumado o golpe, o certo é que a história não absolverá os golpistas. Enquanto isso, a comunidade internacional faz como se soprasse para apagar um fogo que necessitaria um exército de bombeiros.



*Luis Beatón, especial para Prensa Latina desde La Paz

**Tradução: Beatriz Cannabrava

***Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Veja também

Comentários