Prensa Latina

Evo: "Sempre estivemos com a verdade e novamente derrotaremos os golpistas"

"A unidade é muito importante e o neoliberalismo só poderá voltar por divisão ou por traição, já provamos que uma outra Bolívia é possível", diz

A dois meses de um novo processo eleitoral na Bolívia, o ex-presidente Evo Morales pede hoje que sejam investigados o secretário geral da Organização de Estados Americanos (OEA) Luis Almagro e a equipe de "técnicos" que auditou as eleições de outubro passado. 

Desde que pediu refúgio político na Argentina após o golpe de Estado, Morales não descansa um minuto, dedicando-se totalmente à campanha do Movimento ao Socialismo (MAS), e atende constantemente aos meios de comunicação nacionais e estrangeiros, sempre demonstrando sua confiança de que ao final deste processo a verdade prevalecerá.



Em diálogo exclusivo com Prensa Latina, o líder indígena boliviano falou sobre o processo eleitoral, referiu-se às causas por trás do golpe, o papel da OEA e os retrocessos impostos à Bolívia nestes últimos meses.

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Meus pais me ensinaram desde pequeno o "Ama Sua, Ama Llulla, Ama Quella"

Confira a entrevista:

Prensa Latina - Após o informe do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) que afirma que não ocorreu nenhuma fraude no processo eleitoral da Bolívia, o México apresentou à OEA um pedido de esclarecimentos sobre as deficiências apresentadas no resultado da "auditoria" realizada pela equipe "técnica" vinculada a direção deste organismo internacional. Também o Grupo de Puebla reivindica junto as Nações Unidas a instauração e arbitragem de uma investigação independente sobre os fatos ocorridos. A mentira está sendo desmascarada? 

Evo Morales - Não foi só o MIT, tenho uma quantidade enorme de outros documentos elaborados por investigadores independentes que confirmam que não houve fraude eleitoral. Há também um manifesto firmado por 123 economistas que exigem uma retratação da OEA e solicitam ao Congresso estadunidense a instauração de uma meticulosa investigação dos responsáveis pela auditoria eleitoral. 

Desde o primeiro momento dissemos que não houve fraude. Talvez eu tenha cometido um erro ao solicitar a OEA a realização de uma auditoria eleitoral, se possível voto por voto, mesa por mesa.

Não houve fraude, mas talvez por um zelo excessivo, esquecemos que o secretário geral da OEA, Luís Almagro retirou-se da Bolívia antes mesmo do final da apuração oficial dos votos e, imediatamente, refugiado no território dos EUA, sem qualquer base legal, atropelou o processo e, em nome da OEA, divulgou publicamente uma versão de que havia "claros" e "inquestionáveis" indícios de fraude. Tal versão foi de pronto encampada pelos golpistas e pela "mídia" corporativa. Neste contexto, solicitar e apoiar a realização de uma auditoria eleitoral por uma equipe escolhida e vinculada a própria OEA foi um grande erro. Afinal o resultado da tal auditoria era previsível.

O que nos deixa mais indignados é que o resultado desta tal auditoria, simplesmente desconheceu os votos dos indígenas, como tantas vezes já havia ocorrido anteriormente. Voltamos aos tempos coloniais, quando não se reconhecia qualquer rastro do movimento indígena. Mas reafirmo, sempre estivemos com a verdade e movidos pela honestidade. 

Na minha família, meus pais me ensinaram desde pequeno o "Ama Sua, Ama Llulla, Ama Quella", (em língua indígena significa não roubar, não mentir, não ser preguiçoso). Meu pai me dizia: Evito, se um dia te faltar dinheiro é melhor pedir emprestado do que roubar e se não vai devolver é melhor dizer me ajude, mas nunca roubar.

Saúdo a posição do México e dos grandes defensores da democracia que participam do Grupo de Puebla. E no contexto atual, rogamos antecipadamente que as eleições de maio próximo, sejam acompanhadas não só por observadores eleitorais vinculados a OEA, mas por outros grupos de observadores constituídos por notáveis de esquerda, de direita e independentes respeitem e façam ser respeitadas normas legais e a constituição. 

Assim como o Grupo de Puebla, também fazemos um apelo, as Nações Unidos, ao Centro Carter, e a muitas outras instituições e personalidades para que se façam presentes e façam o voto da maioria do povo boliviano seja realmente respeitado

Até quando a ingerência da OEA na região? 

Creio que no atual contexto, o secretário geral da OEA Luis Almagro e sua equipe de auditoria eleitoral deveriam ser profundamente investigados e sancionados. A OEA deveria velar pela democracia, respeitar a soberania dos estados e estar com os humildes. Por essa razão Cuba e Venezuela se retiraram. 

Isso faz pensar que o organismo não está a serviço dos povos da América Latina. Por ora, minha sugestão é que Almagro e todos os membros da sua equipe de auditoria eleitoral, sejam investigados e exemplarmente punidos, para que no futuro nunca mais aconteça uma situação como esta, que atropelou e ignorou a vontade da maioria do povo boliviano.

Recentemente a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, expôs sua preocupação pelo processo de ex-funcionários de seu governo. Ainda continuam sem poder sair da embaixada do México vários membros de seu gabinete. Qual é a situação real? 

Saudamos a reação, mas passa por algo mais de fundo. A ONU deve ser a grande defensora dos direitos humanos e dos povos do mundo. Esperamos que mediante as instâncias correspondentes possam fazer uma investigação muito imparcial, não estamos pedindo que nos ajudem, mas sim que apurem e divulguem a verdade. 

Atualmente continua a perseguição, com mais força; há dois dias, uma irmã foi detida, Felipa Huanca, executiva da Federação de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa, de La Paz, embora graças a uma ação conjunta que reagiu, foi libertada. 

O preocupante e repudiável é que os delinquentes são liberados e os inocentes detidos. Os que escaparam da Bolívia pelo tema de corrupção têm sentença e ordem de apreensão, voltam ao país agora e não são detidos nem presos. 

Mas esta classe de ditadura serve para que as novas gerações possam refletir; agora se dão conta de como se vive com a direita e em uma ditadura, uma coisa é viver no mel do processo de transformação, e outra é ter vivido o ontem do neoliberalismo, essa é a profunda diferença que temos. 

Eu sinto que isto não vai parar. Há um caminho, derrotá-los democraticamente nas eleições e com o apoio da comunidade internacional; há instituições, organismos, personalidades, não estamos pedindo ajuda mas sim presença física com as instituições para fazer respeitar a democracia e o voto. 

Se perdermos vamos respeitar, sabemos perder, mas queremos que se cuide a democracia, porque se assim se maneja em um país como a Bolívia; quem sabe depois... 

Apesar de toda a perseguição, o Movimento ao Socialismo encabeça as últimas pesquisas. Como segue o processo para denunciar toda esta proscrição com respeito a inabilitação de sua candidatura e a do ex-chanceler Diego Pary. Como vê o candidato presidencial, Luis Arce, considerando que não tem todas as garantias necessárias. 

O plano da direita nos Estados Unidos era morte ao MAS. Muito antes de ter candidatos nas pesquisas íamos bem, são pesquisas da direita, não do Evo, e agora estão subindo. Estamos já com 39 por cento; isso não dizem os meios; vamos bem. 

Eu, por razões humanitárias renunciei à minha candidatura primeiro para a presidência; se sou um estorvo, disse, não há nenhum problema; me pediram para ser senador, mas tampouco me permitem, embora legal e constitucionalmente  estou habilitado. Entendo que uma boa parte dos membros do Tribunal Supremo Eleitoral obedecem à ditadura. 

O companheiro Lucho (Arce) é nosso candidato e não se deixa vencer facilmente. No calendário eleitoral, até 18 de abril podem inabilitá-lo, ou pior nos dias 15 ou 16, mediante uma impugnação. A mim ilegalmente me inabilitaram; o que pode acontecer? Tomam uma decisão política e podem inabilitar nosso candidato no dia 18. 

Sinto que o calendário é alguém metido como calculando se o MAS cresce ou não cresce, se dispara nas pesquisas; quero advertir que podem eliminar o candidato do MAS com qualquer pretexto. 

Por isso pedimos a participação da comunidade internacional. Várias impugnações nós já temos derrotado, as pessoas se mobilizaram e o povo está defendendo a candidatura de Lucho.

Neste últimos anos, a Bolívia contava com uma das economias mais sólidas da região. Se ganhar as próximas eleições, qual seria o plano para recompô-la?

Este golpe foi um golpe ao índio, aos indígenas e aos movimentos sociais e também um golpe a nosso modelo econômico porque demonstramos que é possível outra Bolívia com crescimento econômico, estabilidade e certeza, sem a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional,) e sem o Fundo Monetário Internacional.

Os Estados Unidos não querem rivais em modelos econômicos. É também um golpe ao lítio, que começamos a industrializar. Agora nos informam que querem entrar as grandes transnacionais norte-americanas atrás do lítio na Bolívia. 

O governo de transição é um modelo de transação. É uma ditadura, mas a vantagem que temos como movimento político é que há muita indignação, decepção; inclusive as novas gerações diziam: outra vez Evo, para que vamos votar nele, e seus pais explicavam que a economia estava crescendo. Agora estão arrependidos. 

O senhor recentemente falava sobre como o governo de fato expulsou os médicos cubanos e como consequência há hospitais colapsados. Por outro lado, já há 20 mortos por dengue. Quanto se retrocedeu na Bolívia em matéria de saúde nestes meses? 

Antes de ser presidente estive em uma reunião com Hugo Chávez, e Fidel Castro nos dizia que Cuba podia operar gratuitamente a vista de 100 mil latino-americanos. Eu não acreditava e os irmãos cubanos na Bolívia operaram mais de 700 mil pessoas gratuitamente. Quando expulsaram os cubanos as pessoas choravam. Saúdo esse desprendimento dos irmãos cubanos, gratuitamente fizemos muito em saúde e solidariedade. E neste momento as pessoas pedem a gritos que eles voltem. 

É um governo que não entende sobre a vida. No departamento de Pando tínhamos um hospital de terceiro nível e deixamos orçamento para ser equipado. Agora me dizem que não há dinheiro nem equipamento; para eles a saúde é um negócio privado, para nós a saúde é mais um direito. Essas são nossas profundas diferenças. 

Quanto crê que se perdeu nos últimos tempos na América Latina com o retorno, em alguns casos, do neoliberalismo e na busca de conseguir a unidade da pátria grande? 

A unidade é muito importante. O neoliberalismo só pode voltar por divisão ou por traição. Quando há convicção, que estamos pela verdade, pela justiça, pela igualdade e pela dignidade, estou seguro de que nossos processos seriam imparáveis. 

Não estamos nos tempos da Unasul (União de Nações Sul-americanas), com Chávez, com (Luis Inácio) Lula da Silva, com Néstor Kirchner. Tampouco da Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos).

Veio uma arremetida do império; em vez de Unasul, grupo de Lima, em vez de Celac, Aliança do Pacífico, com as políticas daqueles tempos da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

Mas a nós nos estimula bastante as grandes mobilizações no Chile, no Equador, na Colômbia, e vão crescendo os movimentos populares e de esquerda. Se Lula fosse candidato à presidência do Brasil, ganharia. Mas sofreu um golpe judicial porque agora os golpe militares são substituídos pelos judiciais. 


Maylin Vidal, Correspondente de Prensa Latina na Argentina.

Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul


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