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Aquele que se propõe a corrigir a realidade é, certamente, mais otimista que pessimista

"Todos os grandes ideais humanos partiram de uma negação; mas todos foram também uma afirmação", diria o Amauta
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

“Novembro, madeira, mês dos mortos…”, escreveu Gonzalo Rose, como uma maneira de associar este mês, que se inicia no Dia de Finados, com a evocação dolente que nos gera a partida de pessoas que, em um ou outro nível da atividade humana, simbolizam uma mesma causa.

É o caso de Flor de María González Uriola, a professora falecida em 26 de novembro de 2018; e Mario Huamán Rivera, o líder dos operários da construção, que partira em dias recentes.

Uma e outro, no fundo, simbolizam uma mesma causa. E deixaram um legado similar que poderemos resumir aludindo a quatro elementos básicos. 

Nos referiremos, então, ao aporte que fizeram para assegurar por parte dos trabalhadores peruanos uma mensagem de classe. Não acreditaram nunca nos cantos de sereia dos donos do Capital, e se empenharam sempre em demonstrar que tudo o que alcançaram os explorados de um país era simplesmente o resultado de suas expectativas e de suas lutas; que nada caia como o maná do céu, nem estava inutilmente semeado na terra.

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Que tudo o que se alcançara devia ser produto do esforço e da vontade de combate dos comprometidos com altos ideais de vida humana. 

Também ao espírito internacionalista de suas ações, que nunca estiveram constrangidas aos muros que dividem artificialmente nosso solo do que habitam outros povos e outros homens. Nossa causa – disseram sempre – não tem fronteiras e não pode sujeitar-se a parâmetros artificialmente construídos para separar uns dos outros. A dignidade, a justiça e o bem comum são objetivos universais e encarnam valores de todos os que, em um ou outro confim do planeta, se empenham em alcançá-los.

"Todos os grandes ideais humanos partiram de uma negação; mas todos foram também uma afirmação", diria o Amauta

Samantha Hare – Flickr
A cada dia surgem novas expressões da crise de nosso tempo e ela não é somente uma crise material, de recursos e de caudais…

Em outras palavras, a mensagem de Ciro Alegria, que nos falara de um mundo amplo, embora alheio; e de José Carlos Mariátegui, quem tomara de Bolívar e de Martí a expressão “Nossa América”, constituía uma realidade tangível que se expressava nos objetivos do grande movimento da solidariedade.

Em terceiro lugar, a ideologia, resumida no que o Amauta chamara de uma só e grande palavra: Socialismo, que inclui a todas, as envolve a todas; e que reflete a esperança de milhões de pessoas que, em todos os confins do planeta, batalham por um mundo melhor, e mais justo.

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Por esse ideal combateu o homem desde os anos de Espártaco, passando pela Revolução Industrial de 1630, a insurgência de José Gabriel Túpac Amaru em 1780, a Tomada da Bastilha e toda sua transcendência, a Comuna de Paris em 1871 e a Revolução Russa de 1917; jornada todas marcadas pelos mesmos propósitos que em seu momento Carlos Marx pusera em preto e branco.

E em quarto lugar, a tarefa de alcançar melhores condições de vida para os trabalhadores, elevar seu bem-estar, alentar direitos, obter conquistas, alcançar salários e condições de trabalho de acordo com os requerimentos de nosso tempo.

Flor de María González foi uma modesta trabalhadora do Magistério. Exerceu a docência durante 30 anos como professora de Ciências, mas desempenhou simultaneamente uma intensa atividade sindical e política. Por isso foi também querida e reconhecida. 

Finalmente, foi eleita Secretária Geral do PC e Congressista que não conseguiu assumir seu cargo surpreendida pela morte. Sua trajetória impecável a levou a ser considerada “a flor vermelha dos trabalhadores peruanos”.

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Mario Huamán foi um homem de classe. Operário da construção desde os 21 anos, iniciou-se edificando as Torres de Limatambo, formosos edifícios nos que não podem viver aqueles que os constroem, dizia Bertold Bretch. Ali se formou como pedreiro, e como dirigente sindical que promoveu e estimulou a solidariedade e a luta. 

Nessa linha, foi Secretário Geral da Federação de Trabalhadores em Construção Civil e desempenhou os mais altos cargos de responsabilidade na Confederação Geral de Trabalhadores do Peru, a CGTP, recolhendo o legado de grandes figuras, como Isidoro Gamarra e Pedro Huilca.

Bem se pode dizer que hoje uma e outro se converteram em legítimas bandeiras de nosso povo. E é que resumem não só uma história de vida entregada a uma causa justa, mas também uma trajetória convertida em legado. As novas gerações saberão tomá-las em conta quando se trate de recolher as pegadas de luta que adornam o caminho lacerante dos trabalhadores. 

Hoje assomam novos desafios para nosso povo. O fascismo que levanta a cabeça no velho continente assoma também nessas latitudes. E mais, acossa diretamente a nosso próprio povo e busca reconstruir o mundo de ódio e de guerra que acreditávamos superado.

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A cada dia surgem novas expressões da crise de nosso tempo. Ela não é somente uma crise material, de recursos e de caudais. É, sobretudo, uma crise de valores em uma circunstância na qual o regime de dominação capitalista se afunda inexoravelmente.

Nesta circunstância, estas duas bandeiras dos trabalhadores, podiam representar estas palavras do Amauta: “A atitude daquele que se propõe corrigir a realidade é, certamente, mais otimista que pessimista. É pessimista em seu protesto e em sua condenação do presente; mas é otimista quanto à sua esperança. Todos os grandes ideais humanos partiram de uma negação; mas todos foram também uma afirmação”. 

E uma afirmação, sem dúvida, foi a vida e legado destas figuras que partiram.

Gustavo Espinoza M. | Colunista na Diálogos do Sul em Lima, Peru.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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