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Atentado a Cristina Kirchner: ódio contra vice-presidenta e peronismo atinge nível extremo

Investigações preliminares apontam que agressor brasileiro - tatuado com símbolo neonazista - defendia discursos contra programas sociais
Raúl Kollmann
Página 12
Buenos Aires

Tradução:

Um homem de 35 anos se aproximou, ao anoitecer desta quinta-feira (1), a centímetros da vice-presidenta Cristina Kirchner, acionou uma pistola calibre 38 e o disparo, ou os disparos – poderia ser uma arma de dupla ação – não saíram. A tentativa de magnicídio comoveu a toda sociedade argentina e ocorreu quando CFK ingressava em sua casa e cumprimentava os simpatizantes que esperavam pela sua vinda, como fazem todos os dias desde que foi impedida de falar no caso Vialidad.

O presidente Alberto Fernández utilizou a rede nacional para falar do que considerou “um dos atos mais graves desde que recuperamos a democracia” e decretou, para esta sexta (2), feriado nacional. A Frente de Todos convocou uma marcha na Praça de Mayo também para esta sexta, ao meio-dia, e a Confederação Geral do Trabalho da República Argentina (CGT) avalia convocar uma paralisação. Enquanto isso, as pessoas se reúnem de forma massiva em frente à casa da vice-presidenta.

Com exceções embaraçosas e estridentes, grande parte da ala política repudiou o atentado. A Associação de Futebol Argentina (AFA) suspendeu todas as partidas de futebol. O ato do congresso do Partido Justicialista (PJ), no qual participaria Cristina Kirchner, previsto para este sábado na Vila de Merlo, também foi suspenso.


Quem é Fernando Sabag Montiel, o homem que tentou assassinar Cristina Kirchner

O agressor, Fernando Sabag Montiel, foi detido logo que a pistola falhou, ainda que – segundo informações preliminares – era apta para o disparo e tinha cinco projéteis. O que ocorreu foi que o atirador, aparentemente tremendo, acionou a arma de forma incorreta, a bala não entrou na culatra e isso salvou a vida da vice-presidenta argentina. A investigação deverá determinar qual a motivação do ataque.

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Sabag Montiel tem residência na Argentina desde 1993, sua mãe é argentina e um canal a cabo exibiu imagens do sujeito incentivando um duro discurso contra os programas sociais. Além disso, em seu braço há uma tatuagem que, à primeira vista, poderia ser neonazista. Isso – e seus antecedentes de violência de gênero e contra animais domésticos – indicam um sujeito que tentou matar em razão do discurso de ódio contra Cristina Kirchner. Todas as hipóteses são consideradas, incluindo a suspeita de que alguém pagou a Montiel. Uma das linhas de investigação aponta para uma organização brasileira de tráfico de drogas, que possui assassinos no Brasil e no Paraguai.

Em 2021, Sabag Montiel foi detido por porte ilegal de arma (uma faca de grande porte); tem denúncias por violência de gênero, três acusações por maltrato a animais e registra dois ou três endereços aparentemente falsos, um deles no bairro La Paternal, em Buenos Aires. O brasileiro foi detido por militantes e guardas e está preso.

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A investigação

A investigação está a cargo da juíza federal María Eugenia Capuchetti, que na noite de ontem (1), foi a seu escritório na província de Comodoro Py para se reunir com o promotor Carlos Rivolo ou seu representante, Eduardo Taiano. A magistrada precisa reconstruir toda a história, analisar os celulares, os domicílios e a existência ou não de uma história criminal do sujeito no Brasil e em outros países.

Sabag Montiel figura como motorista do serviço de transporte urbano e suburbano, não regular, de passageiros por oferta livre. Em outras palavras, dirigia uma kombi. Pelo que se viu em um vídeo exibido pelo canal Crónica TV, não aparenta ser desinteressado pela política: apareceu dando instruções a uma mulher – que se apresentou como sua namorada – que falava às câmeras contra programas sociais. “Estimulam a vadiagem”, dizia.

É preciso também determinar no que exatamente consiste a tatuagem que possui no antebraço. Aparenta ser um símbolo neonazista, conhecido como “sol negro”, ou poderia ser uma tatuagem de tumbeiro.

A priori, a hipótese que os investigadores consideram mais provável é que se trata de um indivíduo influenciado pelos discursos políticos de ódio. Seus níveis de violência se notam pelas denúncias que possui contra sua namorada e animais domésticos. No entanto, é necessário aguardar o desenrolar da investigação para saber o que realmente há por trás do atentado.

Investigações preliminares apontam que agressor brasileiro - tatuado com símbolo neonazista - defendia discursos contra programas sociais

Reprodução – Twitter
Nenhum presidente ou ex-presidente, desde o retorno da democracia, esteve tão perto de ser vítima de uma magnicídio




O estilo dos assassinos brasileiros

Não se pode descartar a hipótese de que poderia se tratar de um integrante de um grupo brasileiro de tráfico de drogas, que em 2018 fugiu do Brasil por estar sendo buscada pela polícia. Isso deverá ser esclarecido pela Interpol.

O estilo dos assassinos brasileiro é o que se viu ontem à noite em La Recoleta: disparam na cabeça. Se preparam para passar muitos anos presos, extorquidos e pagos pela organização criminosa. No Brasil, atuam os maiores grupos do continente. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho dominam as penitenciárias, o narcotráfico, o contrabando e já estenderam ao Paraguai. Há alguns indícios da presença, em especial do PCC, nas cadeias argentinas.

Aqueles que estão próximos do caso dizem, por hora, de que a primeira hipótese – ódio político anti Cristina Kirchner ou antiperonista – encaixam mais com os antecedentes e informações analisados até o momento.


O cabo de guerra pela custódia

A vice-presidenta se tornou um alvo relativamente fácil da violência verbal, política e judicial desatada contra ela. Há dez dias, em razão das alegações histriônicas do promotor Diego Luciani, grupos de “republicanos autoconvocados” se aproximaram da comuna de Juncal e Uruguai, com megafones, gritando contra CFK, distribuindo todos os insultos possíveis e pedindo que a prendam. O ódio alcançou níveis extremo.

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De imediato, houve uma forte reação de militantes e simpatizantes, que se convocaram espontaneamente na frente da casa da ex-presidenta e ocupam a esquina todos os dias e noites. Para os especialistas em segurança, essa mobilização também fez crescer os riscos em razão da movimentação de pessoas no local.

O momento mais crítico foi no sábado passado (27), quando a prefeitura, de forma inusitada, tentou bloquear o apoio a Cristina Kirchner com o uso de cercas. A ação despertou a indignação de quem estava presente e desatou uma violenta repressão, com caminhões hidrantes, a infantaria avançando contra os manifestantes e agentes e pessoas comuns filmando e fotografando aqueles que apoiavam CFK.

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As coisas se acalmaram quando a vice-presidenta saiu em um palco improvisado e dirigiu algumas palavras à multidão. Isso também a transformou em um alvo em movimento, por exemplo, para alguém que poderia atirar contra ela de uma varanda.

As controvérsias com o governo de Horacio Rodríguez Larreta levaram o Ministro do Interior Aníbal Fernández a ordenar a prorrogação da custódia da CFK, algo que foi reafirmado horas mais tarde pela decisão do juiz Roberto Gallerdo. Porém, a verdade é que as saídas e entradas de Cristina em sua casa se tornaram momentos muitos críticos do ponto de vista de sua segurança pessoal, uma vez que ela se aproximava muito de todos que queriam cumprimentá-la.

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CFK, como antes Néstor, sempre foi incontrolável para as guardas, e parece evidente que uma segunda linha de guardas deveria ter estado mais atenta, pois o indivíduo estava a centímetros da cabeça da vice-presidenta e foi pelo milagre que não tenha carregado a arma corretamente.

Nenhum presidente ou ex-presidente, desde o retorno da democracia, esteve tão perto de ser vítima de uma magnicídio e, tudo indica, que o ocorrido é produto do clima de perseguição imperante no país. A atmosfera de violência verbal criou o terreno fértil para o tiroteio que, felizmente, não terminou em uma tragédia.

Após o choque, a Argentina será um país diferente nesta sexta.

Raúl Kollmann | Página 12
Tradução: Guilherme Ribeiro.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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