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Foto: Benedikt von Loebell / WEF

“Barbárie” e “desequilíbrio emocional”: Petro e Fernández criticam nova selvageria de Milei

Ataque misógino de Milei durente comício da extrema-direita em Madri "não têm precedentes na história da diplomacia", denuncia chanceler espanhol José Albares
Armando G. Tejeda
La Jornada

Tradução:

Beatriz Cannabrava

No último domingo (19), a Espanha chamou para consultas sine die (sem prazo) sua embaixadora em Buenos Aires e exigiu desculpas públicas do presidente argentino, Javier Milei, por chamar de corrupta a esposa do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, durante um comício em Madri, informou o ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares.

Milei foi a estrela do fórum Viva24, organizado pelo partido ultradireitista espanhol Vox, que reuniu os principais partidos da extrema direita europeia. Ao subir ao púlpito, foi recebido com gritos de “bonito” e “viva Argentina”, e reconheceu que era agradável estar entre pessoas que compartilham “nossas ideias frente àqueles que pretendem impor conceitos que não são apenas imorais, mas um ataque frontal aos valores do Ocidente.”

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A partir daí, sua intervenção foi uma ofensiva contra o “socialismo” e os esquerdistas: “o socialismo, essa ideologia que está pintada de uma pátina altruísta, que basicamente esconde o pior do ser humano, que é a inveja, o ódio, o ressentimento, o tratamento desigual perante a lei e, se necessário, o assassinato. Porque nunca se esqueça de que os malditos socialistas assassinaram 150 milhões de seres humanos… Basta de socialismo, basta de fome, basta de miséria!”

“As elites globais não se dão conta de quão destrutivo pode ser implementar as ideias do socialismo porque estão muito longe disso. Não sabem que tipo de sociedade e país pode produzir, e que tipo de gente se enraíza no poder e os níveis de abuso que pode gerar.”

Então acrescentou a frase que desatou a crise diplomática: “ainda que tenha a mulher corrupta, se suja e leva cinco dias para pensar nisso.”

Ataque misógino

Essa alusão à esposa de Sánchez, Begoña Gómez, sem nomeá-la, e aos cinco dias que Sánchez levou para refletir se continuava à frente do Executivo diante dos ataques da ultradireita e da direita, provocou a imediata declaração do chanceler José Manuel Albares, que declarou que “as gravíssimas palavras pronunciadas por Milei” em Madri “não têm precedentes na história da diplomacia”.

Recordar que “o respeito mútuo e a não ingerência em assuntos internos são um princípio inquebrantável nas relações internacionais e é inaceitável que um presidente em exercício, em uma visita, insulte a Espanha e o presidente do governo da Espanha”.

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Por isso, anunciou que decidiu “chamar para consultas nossa embaixadora em Buenos Aires, ‘sine die’. A Espanha também exige ao senhor Milei desculpas públicas. Caso contrário, tomaremos todas as medidas que considerarmos oportunas para defender nossa soberania e nossa dignidade”.

O governo espanhol pediu apoio dos grupos parlamentares, e o obteve da maioria, menos do Vox e do direitista Partido Popular (PP).

Direita questiona e minimiza ataque

Santiago Abascal, líder do Vox, publicou no X: “O que diabos tem a ver a mulher do presidente com a soberania e dignidade da Espanha? Que tipo de brincadeira é essa de Albares chamar os grupos parlamentares? Nós nem respondemos à sua ridícula chamada telefônica. Os conflitos diplomáticos surgem quando se ataca a soberania da nação, não quando se menciona a ‘suposta’ corrupção da mulher do presidente, e, portanto, do presidente. E menos ainda quando seus ministros anteriormente chamaram Milei de drogado, a quem agora querem amordaçar.”

O PP respondeu que sua função “é fazer oposição ao presidente da Espanha, não ao da Argentina”, relatou o jornal El País, acusando o governante Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) de pretender “que Milei mobilize o eleitorado que já não confia no governo”. E acrescentou: “há semanas que Sánchez deveria ter dado explicações sobre os casos de suposta corrupção que afetam seu governo, seu partido e seu entorno pessoal, e que seu silêncio gera dúvidas internas, mas também desconfiança no exterior e fraqueza em nossas posições no exterior.”

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Ione Belarra, líder do esquerdista Podemos, respondeu: “ninguém vai entender que façam isso sem chamar antes para consultas a embaixadora em Israel”, em alusão ao ministro israelense para a Diáspora e o Antissemitismo, Amichai Chikli, que qualificou o presidente espanhol como “um dos piores líderes do mundo” e “responsável por haver mais mortes em Gaza por estreitar laços com o terrorismo do Hamas”.

Em Bruxelas, o chanceler da União Europeia, o catalão socialista Josep Borrell, apontou em suas redes sociais que “os ataques contra familiares de líderes políticos não têm lugar em nossa cultura: os condenamos e rejeitamos, sobretudo quando provêm de sócios”.

Fernández e Petro criticam Milei

Por outro lado, o PSOE da Argentina emitiu um comunicado de condenação no qual assegurou que os espanhóis “socialistas que residem na Argentina consideram que essas atitudes enfraquecem os laços fraternais que historicamente existiram entre ambos os países. Não vale tudo na política, e menos ainda em se tratando do presidente de todos os argentinos, que deve representar tanto a quem o votou como a quem não o fez, e ser respeitoso das autoridades de outros países”.

O ex-presidente argentino Alberto Fernández ofereceu desculpas pela “conduta imprópria” de seu sucessor, a quem condenou seus “agravos públicos” a Sánchez e sua família “que só poderiam ser explicados por um desequilíbrio emocional que a psiquiatria já deveria analisar, e que se evidencia com sua constante violência verbal”, enquanto o ex-chanceler argentino Santiago Cafiero assegurou que “militar na internacional reacionária só isola a Argentina”.

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O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, expressou sua solidariedade a seu par espanhol com uma mensagem na rede social X, na qual se referiu às palavras de Milei como “ataques cada vez mais bárbaros daqueles que não perceberam que conduziram o mundo à doença, à fome, à guerra e à possível extinção da vida com a crise climática“.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Armando G. Tejeda Mestre em Jornalismo pela Jornalismo na Universidade Autónoma de Madrid, foi colaborador do jornal El País, na seção Economia e Sociedade. Atualmente é correspondente do La Jornada na Espanha e membro do conselho editorial da revista Babab.

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