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Buscas na mansão de Trump: atual chefe do FBI foi nomeado pelo próprio ex-presidente

Investigação liderada por jornalistas aponta que o republicano desejava que seus generais fossem leais como os alemães da 2º Guerra, de Hitler
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O FBI realizou uma revista de surpresa na mansão conhecida como o Mar-a-Lago de Donald Trump em Palm Beach, Flórida, nesta segunda-feira (8), o que o ex-presidente denunciou como parte de um esforço de “democratas de esquerda radical” para evitar sua candidatura presidencial em 2024. Ele afirmou ainda que “tal assalto só acontece em países do Terceiro Mundo” e que os Estados Unidos “agora se tornaram um desses países”. 

A notícia foi difundida pelo próprio ex-mandatário, que se queixou de que sua mansão “está sitiada, rodeada e ocupada por um grupo grande de agentes do FBI” e que “até intervieram em meu caixa-forte”. Disse que “nada como isso jamais ocorreu a um presidente dos Estados Unidos” (aparentemente esquecendo sua condição de ex-presidente).

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“Depois de trabalhar e cooperar com as agências governamentais relevantes, esta rodada não anunciada sobre meu lar não era necessária nem apropriada”, indicou em seu amplo comunicado, no qual não revelou se sabia o que era que estavam procurando os agentes federais. “Estes são tempos escuros para nossa nação”, declarou.

Trump não mencionou que o atual chefe do FBI, Christopher Wray, foi nomeado para o posto pelo próprio Trump.

Embora até o fechamento da edição não houvesse comentário oficial do FBI ou do Departamento de Justiça, esta operação sem precedentes indica que algumas das múltiplas investigações federais – há outras estaduais – sobre o ex-presidente estão se intensificando. 

Segundo informação preliminar extraoficial reportada por vários meios estadunidenses, a revista aparentemente está enfocada em documentos que Trump levou com ele da Casa Branca, incluindo alguns que são classificados como secretos. Embora anteriormente ele tenha sido obrigado a devolver várias caixas de documentos às autoridades, parte da revista seria para ver se ainda tinha em sua mansão documentos oficiais que não havia devolvido aos Arquivos Nacionais tal como marca a lei. 

Contudo, uma revista não implica que tenham sido formuladas acusações criminais; para isso se requer uma ordem judicial e para obtê-la as autoridades têm que convencer um juiz de que há “causa provável” de que um delito tenha ocorrido. 

Investigação liderada por jornalistas aponta que o republicano desejava que seus generais fossem leais como os alemães da 2º Guerra, de Hitler

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A mansão conhecida como o Mar-a-Lago de Donald Trump em Palm Beach, Flórida

Trump e os generais

O dia se iniciou com novas revelações sobre como Trump desejava que os generais se comportassem com ele como os de Hitler, segundo jornalistas que cobriram seu governo. Além disso, uma extensa investigação jornalística revela os detalhes e dimensões da elaboração e implementação da política de Trump de separação forçada de milhares de crianças de suas famílias, como medida para dissuadir a imigração indocumentada. 

“Os senhores generais, por que diabos não podem ser como os generais alemães?”, incorporou Trump ao seu chefe de gabinete, John Kelly, ex-general, o qual lhe perguntou quais generais alemães. “Os generais alemães da Segunda Guerra Mundial”, respondeu o presidente, afirmando que eles haviam sido “totalmente leais” ao chefe nazista. Kelly, obviamente irritado, lhe respondeu que esses generais “haviam tentado assassinar Hitler três vezes e quase conseguiram”. 

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O intercâmbio se revela em um novo livro de Peter Baker, o principal correspondente do New York Times na Casa Branca e Susan Glasser, escritora do New Yorker, um extrato do qual foi publicado nesta segunda-feira (8) no The New Yorker. No texto, reportam que esse modelo de mando era o que desejava Trump para seus próprios militares, e que Kelly disse ao presidente que não existia esse tipo de general nos Estados Unidos.

Os extratos do livro publicados nesta segunda-feira detalham o crescente alarme entre os máximos líderes militares e alguns poucos civis sobre seu comandante-chefe. Vários foram dispensados por Trump por não serem suficientemente obedientes. Eles se consideravam “os adultos” cuja missão, segundo eles, era literalmente evitar uma catástrofe militar no estrangeiro, e mais ainda, envolver as forças armadas em uma crise política dentro dos Estados Unidos.

Foi o general Mark Milley, a quem Trump instalou em 2019 como seu chefe do estado maior, o encarregado de navegar a reta final desta presidência, incluindo frear Trump em seu desejo de ordenar o uso de milhares de soldados ativos para suprimir manifestações em várias partes do país relacionadas com o movimento Black Lives Matter.

Diante disse, Milley decidiu que tinha que renunciar e redigiu rascunhos de uma carta com esse propósito, na qual expressou que não podia cumprir com ordens de um comandante-chefe que “está fazendo um grande e irreparável dano ao meu país”, incluindo “usar os militares para gerar temor nas mentes das pessoas… um ataque… contra o povo estadunidense”. “O senhor está arruinando a ordem internacional”, que surgiu em parte da luta contra o nazismo e o fascismo, e “subscreve a muitos dos princípios contra os quais lutamos”, apontou ainda a oficial.

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No entanto, Milley foi convencida por ex-altos-funcionários e oficiais de que tinha que permanecer em seu posto para defender o país, não de inimigos, mas sim do próprio Trump. Foi no período pós-eleitoral que Milley e outros enfrentaram a possibilidade de um presidente buscar usar as forças armadas para manter-se no poder, ou seja, dar um golpe. Segundo a reportagem, Milley temia que “Trump fabricasse uma crise doméstica para justificar e ordenar os militares a tomar as ruas para evitar o traslado de poder… Um momento Reichstag”.  

Em 6 de janeiro, esse temor de um golpe se tornou algo real, o que, segundo essa reportagem, não se conseguiu em parte porque os militares “nunca haviam sido, e nunca seriam, os generais de Trump”.

Trump e as crianças

Por outro lado, uma extensa investigação jornalística de 18 meses por Caitlin Dickerson e publicada nesta segunda-feira no The Atlantic sobre a política de “zero tolerância”, sob a qual o governo de Trump separou crianças de seus pais imigrantes à força em 2017 e 2018, revela que “enquanto os funcionários estavam desenvolvendo a política que finalmente destroçaria milhares de famílias, minimizaram suas implicações para ocultar o que estavam fazendo… Todos os piores resultados foram antecipados”. 

Ainda mais, os culpados não são só os oficiais anti-imigrantes de Trump, mas sim dezenas de funcionários que permitiram a implementação da política. E alguns “estavam a tantos níveis de abstração, longe da realidade de crianças gritando enquanto eram arrebatadas dos braços de seus pais, que podiam esconder-se das consequências humanas do que estavam fazendo” [ver a versão em espanhol].

De fato, a NBC News relatou, na semana passada, que o governo de Joe Biden conseguiu reunificar 400 menores de idade com seus pais, depois de terem sido separados sob as medidas do governo de Trump. Mais de 5 mil menores de idade foram separados de suas famílias em 2017 e 2018 e calcula-se que mais de mil ainda não foram reunificadas.

David Brooks, correspondente do La Jornada em Nova York.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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