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Cannabrava | Enquanto mídia diz que Lula não é democrata, Centrão se articula para formar mega partido e reeleger Bolsonaro

Lula sabe que o que está em jogo, de um lado é a democracia e de outro lado o fascismo. Para vencer, ele terá que ganhar no primeiro turno para não dar chance de recuperação ao fascismo
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Articulistas dos jornalões hegemônicos vaticinam, no último dia 27, que Lula não é um democrata, por isso deve ser derrotado ou vetado na eleição de 2022. Veja como funciona o diversionismo — técnica de inteligência no uso da comunicação. Apontam como evidência o fato de o ex-presidente apoiar a “ditadura sanguinária” de Cuba e o governo autoritário da Venezuela.

Querem usar a defesa que fez Lula do legítimo direito de Cuba e de qualquer outro povo do mundo à autodeterminação para criar um factoide que o transforme em um comuno-castrista. 

Lula esteve oito anos na Presidência da República. Mais do que um período democrático, proporcionou leniência demais para com as regras da própria democracia, deixou de ser rigoroso no respeito aos preceitos constitucionais e às leis que os regulamentam, negligenciou também com relação ao trato com o inimigo principal, deixando-o atuar ao bel-prazer.


Ao contrário de Lula, seus adversários atuaram ao arrepio da lei, conspiraram, perpetraram um golpe para derrubar uma presidenta legitimamente eleita, foram coniventes com a armação jurídica para deixar Lula fora do páreo eleitoral e foram cúmplices das forças armadas na operação de captura do poder. Tudo isso a sabendas de que se fazia o jogo do imperialismo: traição à Pátria.

Fizeram tudo isso, tal como o fizeram em 1964, para “defender a Democracia”. Que democracia, cara pálida?

São democratas os que exercem o poder discricionário, desmontam o Estado e entregam as riquezas do país? É democrata a ditadura da maioria quando ela se exerce contra os mais legítimos direitos cidadãos?

Pode haver democracia em um regime colonial, com tropas pretorianas e instituições de Estado atuando em função dos interesses do império?

Estão sendo injustos com Lula. Lula, antes, os livrou da hegemonia dos trabalhistas e comunistas sobre o movimento sindical. Lula os livrou de que fosse eleito Leonel Brizola presidente. Só por isso já lhe deviam dar um prêmio Nobel. 

Na Presidência, Lula foi um neoliberal de esquerda, com as ressalvas de que trabalhou mais pela inclusão social, abriu caminho para que a Petrobras voltasse a ser indutora do desenvolvimento nacional e praticou uma política externa correta, acorde com a conjuntura de integração Sul-Sul.

Paulo Cannabrava Filho | Brasil vive sob uma ditadura, você percebeu?

Até Eliane Catanhede, articulista do vetusto Estadão, reconhece que o governo de Lula foi o que mais beneficiou as forças armadas. Em todos os aspectos, seja na substituição de equipamentos que estavam sucateados, seja na questão da remuneração e valorização profissional de seus líderes. Soa como irracional esse ódio visceral dos militares para com o Lula. 

Inclusive, os Estados Unidos deveriam ser gratos a Lula e Dilma pelo estreitamento das relações com Washington, tanto no campo militar como no econômico e pelos acordos firmados entre Dilma e Obama.

Se vê, está na cara, não se pode confiar no Tio Sam. Não se satisfaz nunca. Ele é traidor, sacana, por natureza. É o mesmo que a história do sapo e o escorpião

Essa parte, pelo menos, Lula aprendeu. Em todas as entrevistas tem dito que foi vítima de uma armação arquitetada nos Estados Unidos para mantê-lo fora da eleição e para, através da manipulação do judiciário e do legislativo, arrasar com as grandes empresas brasileiras e entregar para o livre saqueio o petróleo e demais riquezas naturais.

Chega de ser subdesenvolvido: em entrevista a TV chinesa, Lula diz que, se eleito presidente, vai reativar o bloco dos BRICS

Temos aí o resultado. Para combater a corrupção e defender a democracia temos um governo militar autoritário e corrupto. Conseguiram bater todos os recordes de corrupção. Tanto a corrução do regime militar de 1964 como a do governo de Fernando Henrique Cardoso viraram coisa de amadores diante do assalto perpetrado por essa geração de militares, que tomou de assalto o poder da República. Tudo está sendo exposto na CPI do Genocídio do Senado.

Lula sabe que o que está em jogo, de um lado é a democracia e de outro lado o fascismo. Para vencer, ele terá que ganhar no primeiro turno para não dar chance de recuperação ao fascismo

Ricardo Stuckert
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve oito anos na Presidência da República.

Direita apoplética

É muito cinismo insistir na corrupção do PT e ignorar as ignomínias da Justiça de Curitiba. Lula continua sendo o corrupto e Moro, Delagnol e Janot elevados ao altar de heróis da pátria. Justo esses três que se venderam aos Estados Unidos, acabaram com a democracia e com a economia. Traidores da pátria. Preferir os traidores é trair também.

Não se pode aceitar remendos à Constituição que a desfigurem da ideia inicial dos constituintes de 1988. Esse Congresso não foi eleito para isso. Cabe ao Supremo Tribunal Federal evitar que isso ocorra, e é dever do povo organizado exigir, mobilizar todas as forças democráticas em defesa da Constituição.

Corre no Congresso projeto para criar um simulacro de parlamentarismo, um semi-parlamentarismo ou semi-presidencialismo, seja lá o que for, esses senadores e deputados não têm competência para isso. É mais um casuísmo para tentar manter o status quo caso percam a eleição de 2022. Se conseguem aprovar agora, Lula estaria fora do páreo, pois a nova norma proíbe reeleição mais de uma vez, mesmo alternada.

Desde 1889, todas as Constituições consagraram o presidencialismo. Por duas vezes a população em plebiscito rechaçou o parlamentarismo, portanto, só uma Constituinte ou um novo plebiscito pode alterar o regime de governo. Não se pode aceitar que por razões esdrúxulas mudem uma regra consagrada.

Assista na Tv Diálogos do Sul

Partidocracia ingovernável

Achar que o Parlamentarismo resolve a ingovernabilidade é desconhecer a história. A ingovernabilidade está na raiz do sistema capitalista dependente e agora na ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. Mudar as regras sem mudar a essência do regime não resolve, só atrapalha.

Com 40 partidos políticos, que não são partidos estricto senso -parte da sociedade organizada para atuar politicamente, disputar e exercer o poder-. A ingovernabilidade faz parte do sistema de dominação. Sem governo as raposas ficam soltas e a rapinagem se perpetua, e o imperialismo avança em seu domínio. 

“A Governabilidade Impossível“ na 18a Primavera Literária

Os partidos são verdadeiros feudos, latifúndios com donos, empresas familiares, todos girando em torno de objetivos de ascensão social, enriquecimento, favorecimento de interesses privados. Claro que há exceções. Claro também que desde 2019 estamos vivem um período excepcional, em que um governo militar de ocupação impõe a governabilidade através da corrupção e da cumplicidade.

Setores da direita estão entendendo que muitos partidos atrapalham. Na realidade é irracional. Direita recalcitrante, todos se dobram ao Centrão. 513 parlamentares segundo Bolsonaro, o capitão que ocupa o Planalto. 

Centrão vira Partidão

Negociar um a um, com tantos partidos esfomeados, fica muito difícil. A solução é fundir, criar o partidão. É o que está sendo tramado: PSL, DEM e PP se fundiriam, criando o maior partido no Congresso, com 121 deputados e 15 senadores. Luciano Bivar, ACM Neto e Ciro Nogueira repartiriam a direção da nova grei: presidente, vice-presidente e secretário-geral, respectivamente.

Centrão vira Partidão e Bolsonaro sai candidato à reeleição com um cacife considerável em todo território, além da dinheirama dos fundos partidário e eleitoral. Com a participação do agronegócio e empresas como Havan e Riachuelo, descaradamente declaradas fascistas, mais as milícias cibernéticas: estão armado um poderoso rolo compressor para a campanha de 2022. 

E ainda tem o Partido Militar, nove mil oficiais militares empenhados em manter seus duplos salários, e, como se não bastasse, a participação dos serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Estado Teocrático de Israel. 

Bolsonaro vinha perdendo competitividade e no cenário não se desenvolve nenhum personagem que possa ser uma terceira opção. O jeito, então, é trabalhar para torna-lo competitivo outra vez. 

Bolsonaro é denunciado à ONU por desmontar grupo de combate à tortura

Estão faltando vagas no governo para atender tanta gente, pois a maioria dos ministérios está ocupada por generais e outros oficiais das forças armadas. O jeito é remanejar alguns generais e criar novos ministérios.  

Centrão vira Partidão. Ciro Nogueira deixa o Senado e assume a Casa Civil, o mais importante órgão da Presidência. Quem é que fica em seu lugar no Senado? Pela lógica e pela norma o suplente. Quem é o suplente? Eliane Nogueira, é a mãe do Ciro Nogueira. Tudo em família. Antes estava o general Luís Eduardo Ramos em substituição ao general Braga Neto, hoje ministro da Defesa.

Entregaram também a Secretária do Governo, para Flávia Arruda, do PL, no lugar do general Luís Eduardo Ramos.

Para o cabo de esquadra Onix Lorenzoni, um estranho no ninho, um civil no meio de militares, foi quem primeiro ocupou a Casa Civil em janeiro de 2019 até que em 2020, e novo na Casa Civil de fevereiro a julho, recriaram o Ministério do Trabalho e Previdência Social, para desgosto do Guedes, o pinochetista que faz o serviço sujo de levar o país para o abismo. Onix já foi do PL, do PFL e agora é do DEM, teve papel importante na campanha eleitoral.

Segundo fontes palacianas estão planejando tirar do Guedes também o Planejamento por ser quem cuida do Orçamento da União, esse orçamento impraticável que foi aprovado e está sendo executado em benefício do Centrão.

Golpe anunciado

O golpe já está anunciado desde o dia em que tomou posse o governo militar de ocupação. Tomaram o poder para ficar. Disseram que precisam de no mínimo 30 anos para consertar o país. Por isso, insistimos que a Justiça e povo têm que derrubar esse governo antes da eleição. Estamos perdendo tempo precioso.

Os Estados Unidos não querem Lula e isso está explícito. Está explícito nas declarações do embaixador Todd Chapman, em entrevista que deu ao despedir-se de regresso a seu país: a preocupação é com mensalão, petrolão, lava-jato. Corrupção foi no governo do PT, olhos e ouvidos fechados aos escândalos do Ministério da Saúde, roubo descarada de bilhões de reais, políticas genocida e ecocida. Também deixou claro que o que mais os aflige é a China.

Precisam de um governo obediente para fazer frente ao progressismo que os ameaçam da Argentina, da Bolívia e agora do Peru. Precisam do Brasil para ajudar a desestabilizar esses governos, como já fizeram muitas vezes. 

Os governos militares do ciclo resultante do golpe de 1964 atuaram de múltiplas formas para derrubar o governo revolucionário de Torres na Bolívia, o governo socialista de Salvador Allende no Chile, organizou uma central do terror com os governos vizinhos, a chamada Operação Condor. Recentemente o governo militar oriundo da captura do poder em 2018 conspirou e atuou para derrubar o governo de Evo Morales.

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Para vencer essa máquina é preciso um trabalho de formiga, organizando o povo em cada rincão, falando a verdade, dialogando e organizando. A frente democrática tem que ser ampla. Como dizia Leonel Brizola, para derrotar a ditadura fascista vale aliança até com o diabo. O depois é outra conversa, é outra realidade, haverá espaço para construir uma nova frente em torno de um projeto nacional. 

O papel de Lula é ajudar a organizar essa frente e obter apoio externo, mobilizar a mídia estrangeira. 

Lula sabe, tem deixado claro nas entrevistas, que o que está em jogo, de um lado é a democracia e de outro lado o fascismo na continuidade da ocupação militar legitimada pelo voto. Ou pelas armas. Não queremos armas, mas, são os militares ou os civis. Para ganhar no voto tem que ser no primeiro turno, não deixar chance para que eles revidem num segundo turno.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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