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Cannabrava | Milícia tem poder paralelo no Rio de Janeiro. Como responder à violência?

A impressão que fica é de que o crime organizado está melhor petrechado que o próprio estado e é quem domina a situação
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A propósito da queima de 35 ônibus urbanos e de um trem da Supervia que implantou o caos na cidade e terror na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na segunda-feira, 23 de outubro, tudo para vingar a morte de um miliciano, um segundo na hierarquia.

Reportagem do G1 diz que o custo de cada ônibus é R$ 850 mil, e do trem BRT, R$ 2,4 milhões, um prejuízo de mais de R$ 35 milhões só com os veículos, fora as pessoas que não conseguiram chegar ao local de trabalho e o comércio que fechou as portas para se proteger. Dados levantados pela Globo indicam que 70% das pessoas que se deslocam no Rio o fazem de ônibus.

Os ataques das milícias na segunda-feira obrigou o fechamento de mais de 30 escolas, deixando mais de 13 mil alunos sem aula, entre a noite e a manhã de terça-feira. Na terça-feira as escolas estaduais ficaram abertas, mas o comparecimento foi baixo. As 24 municipais permaneceram fechadas.

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As universidades estaduais situadas na Zona Oeste também fecharam as portas na segunda e na terça-feira, enquanto a universidade federal fechou por conta da quantidade de alunos prejudicados pela ausência de transporte público e para evitar exposição dos alunos à violência.

Tudo começou com a morte de Matheus da Silva Rezende, conhecido como Faustão ou Teteus, em confronto com agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), em Santa Cruz. Ele é sobrinho de Zinho, o chefe da milícia.

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O carioca é refém do crime organizado que afeta toda a economia, acaba com o turismo, depõe contra a imagem do país no exterior. O ministro da Justiça e Segurança não dá conta e o presidente já fala em recriar o Ministério da Segurança.

É uma guerra civil. Essa guerra civil do Estado contra o povo começou em 1500.

Não há como negar. Como responder à violência? 

Até agora o que se vê é o círculo vicioso da violência a gerar mais violência. Claudio Castro (PL) – que governa o estado e qualificou de terrorismo os atos violentos – e Eduardo Paes, na prefeitura, impotentes diante da magnitude do crime organizado.

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A impressão que fica é de que o crime organizado está melhor petrechado que o próprio estado e é quem domina a situação

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Carcaça de ônibus incendiado na Estrada Santa Veridiana, em Santa Cruz, zona oeste da capital fluminense

Menos de 5% da cidade do Rio de Janeiro está fora do controle do crime organizado, das milícias ou do narcotráfico. Milícias, traficantes e narco milícias constituem um poder paralelo com economia própria e sistema de controle político e social.

A milícia se associou ao Comando Vermelho, que comprou território da milícia. Exploram o transporte coletivo alternativo, TV a cabo ilegal, gás, roubo de carga, cocaína e maconha, além de cobrar taxa de proteção para os comerciantes. O roubo de carga se tornou das mais importantes fontes de renda.

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Polícia Civil, Polícia Militar não dão conta, simplesmente porque são parte do esquema. Estão na política com vereadores e deputados e inclusive infiltrados no Poder Judiciário. A rede nacional da bandidagem está conectada com altas esferas do governo, inclusive nas forças armadas, com os bancos e financeiras.

Preocupado com a situação, o governo federal mandou 300 efetivos da Força Nacional e 270 da Polícia Rodoviária, e após reunião com o ministro da Defesa aventou a possibilidade de mobilizar as forças armadas.

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Um grande e perigoso erro, mobilizar os militares, que já não deu certo no passado. Em 2018, governo ilegítimo de Michel Temer decretou intervenção federal e entregou o poder aos militares, deu no que deu. Às forças armadas cabe guarnecer as fronteiras que estão dominadas pelo narcotráfico. 

O que se depreende de tudo isso é que a violência é problema nacional que tem que ser enfrentado com planejamento e inteligência. No Rio, a impressão que fica é de que o crime organizado está melhor petrechado que o próprio estado e é quem domina a situação.


Mortandade diária

Segundo o Monitor da Violência, os assassinatos registrados do primeiro semestre somaram 1.790, 17% mais que os 1.526 no mesmo período de 2022. Media de dez mortes por dia, uma a cada duas horas e meia.

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No país, a média diária de assassinatos soma o absurdo de 110, um total de 19,7 mil mortos. É menos que os 20,4 mil mortos de 2022. Amapá registra os mais altos índices, passou de 108 mortos para 175, nada menos que 67 a mais.

O Monitor da Violência é uma parceria entre o Núcleo de Estudo da Violência da Universidade de São Paulo, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o portal G1 de Notícias.


Abin promíscua

Na terça-feira, 24 de outubro, o governo exonerou três agentes da Abin por espionagem ilegal durante o governo dos militares chefiado pelo capitão Jair Messias Bolsonaro. Eles estavam utilizando o software fornecido por Israel com capacidade de monitorar telefones celulares.

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Na sexta-feira, 20, a Polícia Federal apreendeu 171,8 mil dólares na casa de Paulo Maurício Fortunato Pinto, que estava de secretário de Planejamento e Gestão da Abin. De onde vem esse dólar? É tradição e sabido a promiscuidade entre a Cia e os serviços de inteligência nacionais, a mesma que existe entre as forças armadas de ambos os países.

A Cia maneja dólares a fundo perdido e sem ter que prestar conta. É fácil. Eles imprimem o dinheiro e inundam o mercado com vistas a desestabilizar, derrubar, estabelecer governos títeres como fizeram na Ucrânia, para colocar o comediante no poder, como fizeram no Brasil, em mais de uma oportunidade.

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Exonerar o funcionário corrupto e traidor da pátria é correto, mas é preciso ir ao âmago da questão: cortar os vínculos com os serviços de inteligência estrangeiro. Se não cortar o mal pela raiz, a Cia continuará intervindo nos assuntos internos do país.

É uma questão de soberania nacional. E de coerência. O Brasil não pode exercer uma política externa independente e participar, ao mesmo tempo, do Comando Sul das forças armadas dos Estados Unidos e ser aliado da Otan. 

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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