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Como ódio, poder e vingança do "Apocalipse" serviu de base a religiões neopentecostais

Essência das mensagens apocalípticas se concentra no ressentimento e sentimentos destrutivos tanto da vida quanto do cosmo
Carlos Russo Jr
Diálogos do Sul
Florianópolis (SC)

Tradução:

Evangelismo Neopentecostal, uma das religiões apocalípticas surgidas na modernidade, apareceu como uma religião em que o grito é um brado que deseja ganhar os céus, o julgamento incessante do outro é a forma de relacionar-se na sociedade, a negação do mundo como ele é, uma tentativa de reconfiguração da vida nos moldes dogmáticos da visão evangélica do mundo.

O desejo do mundo evangélico é literalmente um mundo só de evangélicos, no qual tudo precisa ser traduzido de maneira evangélica. A verdade “revelada” por pastores é a moeda do dia, visa sempre a submissão do outro. E ao mesmo tempo, o evangelismo berra aos céus pelo sucesso na terra. Não por acaso, seus pastores de maior hierarquia são monetaristas e constroem seus impérios coligados a governantes espúrios.

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Mas falemos um pouco sobre religiosidade e o Apocalipse no qual se alicerça a doutrina de um Edir Macedo, dos pastores Milton Ribeiro e seus asseclas, Malafaia e companhia.

O “Apocalipse” foi o último livro a ser incorporado ao “Novo Testamento”, pese à resistência contrária da parcela oriental da cristandade. Ele foi escrito quase um século após a morte do Nazareno na cruz!

Sua autoria é atribuída a certo João (que nada tem a ver com outro João, o Evangelista, discípulo de Cristo), o qual havia sido banido de Roma para a ilha de Patmos. O próprio termo apocalipse, que significa “revelação”, foi auto- outorgado pelo próprio autor.

Enquanto o “Evangelho”, escrito pelos quatro apóstolos, que conviveram com Cristo, nos traz mensagens de amor humano, espiritual e fraterno, suave, romântico e bastante culto, o “Apocalipse”, além de incorporar tanto antigos símbolos pagãos quanto judaicos do “Livro de Daniel”, tem o sentido da turba, sendo popularesco e inculto, repleto do rancor selvagem e da violência.

São no “Apocalipse” e em parcelas do “Antigo Testamento”, especialmente livros como os de Josué, onde são reportadas a arrogância tribal e a crueldade cometida com prazer. A essência das mensagens apocalípticas se concentra no ressentimento, na sede de vingança, sentimentos destrutivos tanto da vida quanto do cosmo, numa ambição de poder inconfessável.

Elas formataram historicamente, tanto as bases da Igreja Católica inquisitorial e tradicional, quanto, atualmente, as das principais correntes do Evangelismo Neopentecostal.

Essência das mensagens apocalípticas se concentra no ressentimento e sentimentos destrutivos tanto da vida quanto do cosmo

Viktor Vasnetsov
Religiões apocalípticas na sociedade líquida em que vivemos fazem valer a reivindicação de milhões de pobres e dos fracos de espírito




Amor versus poder

Enquanto Jesus Nazareno e os evangelhos de Mateus, João, Marcos e Lucas inventaram uma religião de amor, uma maneira de viver fraterna, suave, amorosa, bastante culta, “O Apocalipse” elaborou uma religião do poder, que se baseia numa maneira terrível de julgar e punir os diferentes.

Ao invés do amor sublime e da aceitação dos diferentes pelo Nazareno, uma maneira terrível de julgar e condenar.

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Na verdade, “Apocalipse” é o livro dos fracassados como seres humanos, daqueles que se consideram zumbis na sociedade e por isso mesmo expressam seu ressentimento com o sentido da vingança, do ódio e do Poder, mesmo que seja o do outro mundo!

E, na junção de “O Apocalipse” com Apóstolo Paulo, o cristianismo se torna numa espécie de Anticristo, pois violenta Cristo, transformando-o num cordeiro com pele de leão, com dentes de sabre, que aglutina os homens em alma coletiva! Promete-lhes o Poder, mas não qualquer poder, mas um Poder absoluto que se insere por cada palmo de terra, permeia despoticamente toda a alma humana que com ele se identifica.

Na mistificação de João de Patmos, Cristo retorna da morte não mais o nobre Cordeiro Sacrificado, mas como um Cordeiro de Chifres que ruge como um leão, cruel e aterrorizante, o pior dos carrascos de toda a literatura. O que vemos é um cordeiro assassino que volta para matar e dizimar a humanidade aos milhões.


Um Cristo monstruoso

Sempre títulos de Força, jamais de amor, compaixão!

Cristo retorna como um conquistador todo poderoso, um messias da destruição, destruidor de homens que desafiem as vontades da coletividade imbecilizada. O Cristo Salvador, benevolente, jamais! A doçura da língua do Nazareno retorna à terra no Juízo Final na forma de uma espada de gomo duplo, que queima, mata, condena para todo o sempre.

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Logo, “Apocalipse” é ao mesmo tempo tanto um grande espetáculo, quanto o sonho grandioso de um monstro esquizofrênico: a grande e a pequena morte, as sete trombetas, os sete selos, as sete taças, a primeira ressurreição, o juízo final! Todos os detalhes dos flagelos e das infelicidades reservadas aos inimigos, ao mesmo tempo da necessidade dos eleitos se medirem com o desespero dos desgraçados numa cidade celestial, a “Nova Jerusalém”, que cairá dos céus, substituindo a naufragada e destruída Babilônia.

“Ódio flamejante e ignóbil desejo de fim do mundo”, proclama o “Apocalipse”. A nós, os mortais, resta apenas preencher um tempo monstruoso, que se estende entre a Morte e o Fim, a Morte e a Eternidade.

Uma longa ironia, pois para Cristo a eternidade era experimentada primeiramente em vida, “sentindo-se no céu”, por amor a si próprio, ao Pai e ao próximo!

O Nazareno é doce, amoroso, uma espécie de Buda que buscava livrar seu povo do poder dos sacerdotes dos Templos Judaicos, sacerdotes que dominavam a turba com a proliferação do sentimento da culpa, da punição, da vergonha, dos preconceitos, dos julgamentos e da morte.


Evangelismo versus cristianismo

Nietzsche, assim como Spinoza, fazia questão de jamais confundir Cristo, o homem que trouxe a boa nova, ou seja, o Evangelismo, com o próprio cristianismo. Para ele, o “cristianismo” teve por fundador não Cristo, mas o Apóstolo Paulo, que o filósofo alemão denomina apropriadamente de o “Anticristo”, um policial convertido a uma fé que lhe era estranha, mais de trinta anos após a morte do Crucificado.

No Apocalipse temos o surgimento da vontade de destruir, vontade de ser sempre a última palavra. E o Poder passa a existir como uma longa política de vingança, o longo empreendimento de narcisismo de uma alma coletiva, nas palavras de Deleuze. Desforra e autoglorificação dos fracos clamava Nietzsche, conduzida por parte do clero e pelos pastores protestantes.

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O empreendimento do Nazareno era individual; se o indivíduo e a coletividade se compõem em cada um de nós como partes distintas e intercambiáveis da mesma alma, para Cristo interessava “desfazer o sistema coletivo do sacerdócio do antigo testamento, do sacerdote que encarnava o Poder, libertando a alma individual daquela verdadeira gangue que a aprisionava”, constata D.H. Lawrence.

Enfim, Jesus pensava que bastaria uma cultura da alma individual para expulsar os demônios contidos na alma coletiva da comunidade, agrupada pelos sacerdotes vendedores da entrada nos céus.

Na realidade, as religiões apocalípticas na sociedade líquida em que vivemos fazem valer a reivindicação de milhões de pobres e dos fracos de espírito, os humildes e os infelizes, esses que somente possuem uma alma coletiva, que se submetem a serem conduzidos como ovelha em rebanho, já que se exilaram de si mesmos.


Teatro de farsantes

Nas igrejas e nos templos neopentecostais, um teatro comandado por farsantes substitui o dos Profetas dos Velhos Testamentos.

Fantasmas e mais fantasmas, expressão do instinto de vingança, arma da vingança dos fracos de espírito, dos fracassados na vida! Acontece que esses homens do ressentimento e que esperam sua vingança, gozam de uma dureza que lhes vem de sua incultura profunda, e a partir dela extraem tudo o que sabem de um único livro, de determinadas citações da Bíblia e, notadamente, do “Apocalipse”.

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E as multidões tornam-se manadas guiadas por homens sempre rudes e absolutamente gananciosos, dotados de um “sentido especial do Poder bruto e selvagem”.

São enormes as semelhanças entre a “Nova Jerusalém” e o futuro que os ressentidos da Terra nos propõem, na forma de uma planificação militar-industrial de um Estado autocrático e absoluto.


Nova Jerusalem

“O Apocalipse”, salienta Deleuze, não se encontra nas catástrofes anunciadas, mas na autoglorificação programada, e na instituição da glória da “Nova Jerusalém”, e, com esta, a emergência de um Poder demencial último, judicial e moral. ”

“A Babilônia se converteu em habitação de demônios, em retiro de espíritos imundos, em guarita de ave hedionda e abominável”. Nada mais anticristão que esta exortação, mil vezes repetida nos dias de hoje por Edir Macedo e seus acólitos.

De tal maneira que o “Apocalipse” revela, psicologicamente, o seu objetivo próprio: desconectarmo-nos do mundo e de nós mesmos. Por isso, ele é primo-irmão do Eterno Fascismo, descrito por Umberto Eco.

E as religiões apocalípticas ainda fazem mais: transformam todas as potências angelicais em terríveis policiais.

A mulher, então, sofre um destino ainda pior: é transformada ou em mulher-polícia ou em prostituta a ser destruída.

Paul Virilio, por seu lado, destaca duas outras características deste Estado futuro: “a destruição de um meio ambiente habitável em proveito de um ambiente estéril e mortífero”!

Eis aí o conflito entre certo “cristianismo militante”, hoje claramente expresso pela maior parte das seitas ditas Neopentecostais e pelo catolicismo esclerosado. Os cultos da intolerância, da incultura, das mortes, da vingança e dos preconceitos. Ao qual se contrapõe, o cristianismo e, mesmo, o agnosticismo do Cristo pacifista, tão bem encarnado na figura luminosa do Papa Francisco!

E é, principalmente contra os apóstatas do Sagrado, do bem, da humanidade e dos valores civilizatórios que necessitamos preparar uma ação de verdadeira guerra: o resgate civilizatório do Velho e do Novo Testamento, em tudo os que eles possuem de elevação, de valores civilizatórios e humanísticos!

Não deixemos aos “vendilhões do templo” a exclusividade do uso daquilo que eles jamais mereceram!

Carlos Russo Junior | Colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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