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Conheça o argentino que espalhou fake news sobre urnas na trama do golpe bolsonarista

Segundo o STF, Cerimedo integrou o “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, um dos seis grupos formados pela conspiração golpista
Redação Telesur
Telesur
Caracas

Tradução:

Fernando Cerimedo, o cérebro por trás da campanha digital que levou Javier Milei, de outsider político conhecido por seus discursos explosivos na televisão, à presidência argentina, teria sido parte de uma conspiração para dar um golpe de Estado no Brasil.

De acordo com o documento judicial assinado pelo juiz do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, Cerimedo está sendo investigado por fazer parte de uma “organização criminosa” que utilizou “milícias digitais” para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e promover a ruptura da ordem democrática no Brasil.


O arquivo do STF tornam públicas informações contidas na delação, no celular e no computador do braço direito de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, e dá base às ações da operação da Polícia Federal “Tempo Veritatis”, que investiga as manobras de Bolsonaro, quatro generais e cerca de 20 civis para tentar impedir a chegada de Lula ao poder.

Para a Justiça brasileira, Cerimedo integrou o “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, um dos seis núcleos utilizados pela conspiração golpista.

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Esse grupo – formado também por Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros, Tenente-Coronel, e pelo próprio Mauro Cid, entre outros – foi responsável pela “produção, divulgação e amplificação de notícias falsas quanto a lisura das eleições presidenciais de 2022. A finalidade era estimular seguidores a permanecerem na frente de quartéis e instalações das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o golpe de Estado”.

Segundo o STF, Cerimedo integrou o “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, um dos seis grupos formados pela conspiração golpista

Foto: Fernando Cerimedo / Reprodução / X
A aliança mais importante de Fernando Cerimedo é com Eduardo Bolsonaro, o escolhido de Steve Bannon na América Latina




Fake news e milícias digitais

O episódio em que Cerinedo é citado como participante necessário da conspiração é um vídeo visto por centenas de milhares de pessoas no Brasil. No conteúdo audiovisual, o consultor expõe um relatório de uma auditoria privada onde são apontadas supostas falhas nas urnas eletrônicas, o que teria permitido a manipulação dos resultados.

Fernando Cerimedo foi encarregado de divulgar uma auditoria apócrifa suspeita que revelava dados falsos sobre supostas falhas nas máquinas eleitorais utilizadas nas eleições de 2022. I Foto: Centro Latino-Americano de Investigações Jornalísticas (CLIP)

O relatório foi considerado de cunho duvidoso e os argumentos carecem de base jurídica, o que foi devidamente demonstrado pela Justiça Eleitoral, que ordenou o bloqueio da publicação e das contas do “La Derecha Diario”, canal pertencente ao assessor argentino.

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Além disso, a Justiça brasileira indica que o relatório apresentado utiliza argumentos fornecidos pelo Major Angelo Denicoli, autor de documentos anteriores à criação do vídeo e que foram encontrados em um Google Drive criado por Cerimedo. Os arquivos foram considerados por Moraes para mostrar que existe uma relação “devidamente comprovada”.

O processo judicial informa ainda que “seguindo a estratégia de difusão por multicanais, os investigados repassaram o conteúdo para o argentino FERNANDO CERIMEDO, que disseminou o material falso em uma live realizada no dia 04/11/2022. O conteúdo da live foi resumido e propagado por vários integrantes da organização, inclusive por militares. Em seguida, visando burlar as ordens judiciais de bloqueio, os investigados disponibilizaram o conteúdo em servidores localizados fora do país.”

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Entretanto, o tribunal superior salienta, com base em informações prestadas pela Polícia Federal, que “a atuação do grupo foi intensificada após o segundo turno das eleições presidenciais, utilizando a metodologia desenvolvida pela milícia digital para reverberar por multicanais a ideia de que as eleições presidenciais foram fraudadas, estimulando seus seguidores a “resistirem” na frente de quarteis e instalações das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o Golpe de Estado, novamente fazendo circular estudos e investigações de conteúdo inverídico.


Cerinedo contra a Assembleia Constituinte no Chile

Além do Brasil, Cerinedo também interferiu nos resultados do segundo plebiscito constitucional do Chile. No início de setembro de 2020, a agência de publicidade e serviços digitais Numen SpA, de Fernando Cerimedo, gerou um estudo baseado em dados de redes sociais que mostrava que apenas 42,3% dos chilenos eram a favor da redação de uma nova Constituição, informação que contrastava com todos os estudos anteriores que indicavam uma adesão de aproximadamente 70% ao processo constituinte.

O estudo foi publicado pelo El Mercurio, estabelecendo um marco na opinião pública chilena e dando fôlego à campanha pela rejeição, que até então não havia impactado uma sociedade marcada pelos protestos de 2019, surgidos justamente em apelo a uma nova constituição.

Cerimedo apareceu no cenário chileno em uma reportagem manipulada que mostrava um aumento na rejeição ao plebiscito constitucional de outubro de 2020. I Foto: Captura El Mercurio

Depois dessa primeira aparição, não está claro qual o papel que Cerimedo desempenhou na campanha de rejeição. Mas em entrevista concedida a um meio de comunicação argentino, durante as comemorações pela derrota ao projeto constitucional promovido pelo presidente Gabriel Boric, o especialista em campanhas digitais celebrou como seu o triunfo da “rejeição” e afirmou ter feito parte da estratégia que reverteu a opinião sobre o plesbicito.

Por sua vez, o meio de comunicação chileno LaBot.cl revelou que Cerimedo estava por trás de ações sujas de campanha, incluindo a distribuição de folhetos com informações falsas e os símbolos oficiais da Convenção Constitucional do Chile.


O sul-americano Steve Bannon, um falso ou ambos

Cerimedo com Eduardo Bolsonaro. Foto: @FerCerimedo


Cerimedo iniciou sua carreira na Argentina colaborando com prefeitos peronistas e em 2018 integrou a equipe de campanha da atual ministra da Segurança e ex-candidata à Presidência, Patricia Bullrich, de onde saiu por não ser ouvido.

Em 2023, foi nomeado chefe de comunicações da campanha presidencial de Javier Milei e posteriormente designado responsável pela supervisão a nível nacional. 

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Atualmente, Cerimedo conta com a agência de publicidade Numen SRL e uma instituição de ensino que oferece cursos sobre mercado digital e político. Porém, o seu conglomerado mais visível é o Grupo Madero, cuja figura de proa é o “La Derecha Diario”, um portal de notícias dirigido por Natalia Belén Basil, sua esposa, e criado para “influenciar” a ala direitista.


Declarações recentes

Em suas declarações mais recentes, Cerimedo afirma ter abandonado o uso de fazendas de trolls, e ressalta que sua agência utiliza inteligência artificial para criar contas. Com elas, manipula o algoritmo para gerar tráfego e credibilidade sobre determinado conteúdo e assim garantir que suas publicações tenham mais relevância e consigam maior compartilhamento.

O consultor político e digital afirma que suas empresas estão presentes no Brasil, Chile, Equador e Estados Unidos, e busca se estabelecer como referência para movimentos de ultradireita na América Latina.

A sua aliança mais importante é com Eduardo Bolsonaro, o escolhido por Steve Bannon para “desenvolver um movimento nacionalista populista na América Latina”. De fato, sua intermediação foi fundamental para que Bolsonaro participasse da cerimônia de posse de Milei, uma grave ofensa diplomática para o principal parceiro comercial da Argentina.

São essas “milícias digitais” que garantem o crescimento dos conteúdos de ódio que levaram Milei à vitória e que culminaram no ataque à Praça dos Três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. Seus próximos passos podem estar em andamento nos Estados Unidos.

Redação | teleSurtv
Tradução: Guilherme Ribeiro


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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