América Latina tem missão de aprender de um progressismo ao outro

Prioridade deve ser para que próximos governos progressistas ou revolucionários solucionem necessidades do povo

Nils Castro

0

Todos os posts do autor

Os acontecimentos logo demonstraram que o que hoje chamamos de progressismo – fenômeno político que de acordo com as particularidades de cada povo brotou no início deste século em várias latitudes da América Latina – não foi um simples “ciclo” nem acabou. E que tampouco foi mero efeito de uma mudança do preço internacional das matérias primas. A evolução de nossos povos é mais complexa que isso; seu comportamento político não oscila segundo o vai e vem do comércio, pois as relações entre economia e sociedade não são assim tão pueris. 

Como já recordamos, no início dos anos 1990 a acometida neoconservadora liderada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan foi potencializada com a derrocada soviética. Isso, além de impor uma virada das políticas econômicas que prevaleciam, determinou também um tsunami ideológico que algumas esquerdas divididas e perplexas mal puderam enfrentar. Não obstante, nem essas políticas nem os efeitos culturais daquele tsunami terminaram. A crise global que emergiu em 2008 desmascarou o neoliberalismo, mas sem que ainda tivéssemos criado as propostas necessárias para substituí-lo.

SintraEnfa
América Latina

Contudo, em menos de 10 anos as práticas neoliberais causaram danos e inconformidades populares suficientes para levantar protestos e movimentos políticos que deram ocasião para uma significativa maré progressista. Este fenômeno, mais expressivo de um vasto repúdio que de novos projetos factíveis, animou os primeiros três lustros deste século, inclusive nos países onde não pode eleger governos. E onde o conseguiu, além de realizar destacados avanços contra a pobreza e a iniquidade, aportou significativos progressos da autodeterminação nacional e da solidariedade de nossos países. 

Obviamente, ao fazê-lo em tempos de crise das esquerdas e de restauração da democracia liberal, não havia então bases sociais, político-culturais nem organizativas suficientemente desenvolvidas para empreender revoluções factíveis e sustentáveis. Caso a caso, isso criou oportunidades para aceder ao governo, não para tomar o poder. E pelo lado oposto, as elites locais, embora forçadas a ceder a administração de governo, puderam fazê-lo sem perder seus recursos econômicos fundamentais. 

Ainda assim, durante esse período milhões de latino-americanos saíram da marginalidade e adquiriram cidadania, emprego, educação e saúde, e suas nações alcançaram maior dignidade. Pátrias e pessoas puderam ensaiar novas expectativas. Inclusive sem revoluções propriamente ditas, essa era uma agenda de esquerda e foi muita ingenuidade supor que os progressos sociais e políticos alcançados nesses anos pudessem se repetir sem causar, por sua vez, uma forte contra ofensiva do imperialismo e das elites locais. 

Com muitos respaldos econômicos, socioculturais e midiáticos, a direita teve condições e tempo para renovar objetivos, remoçar a imagem, reatualizar métodos e reconstruir sua imagem política. E não apenas para voltar ao Palácio e recuperar hegemonia, mas para empreender um roll back mais ambicioso:reverter as conquistas populares cedidas desde os anos 1950 até o presente. Da estruturação e fins desse contra-ataque já me ocupei então.[1]

Quem nos torna vulneráveis?

Mas nem todos os êxitos depois conseguidos pela contra ofensiva reacionária podem ser debitados às artimanhas e ao poder financeiro e midiático das direitas locais, nem à coordenação e patrocínio do imperialismo. Estes são fatores reais, mas não suficientes para explicar suas conquistas. Os revezes desse progressismo devem também ser atribuídos às permissividades, omissões e erros de suas lideranças e governos, que valorizaram menos a indispensável coparticipação crítica de seus partidos e das organizações populares, e relegaram o diálogo e o acordo com as comunidades locais. 

Pouco útil é atribuir o conseguinte refluxo do apoio popular apenas ao poderio econômico, à vileza e aos meios de comunicação da classe dominante, e ao respaldo de seus mentores forâneos: estes meios foram tão eficazes, como foram facilitados pelas deficiências das lideranças que com tais falhas e erros os tornaram mais vulneráveis. 

Entre estes, os erros em política econômica. O primeiro, característico dos processos mais radicais; propiciar um rápido incremento do gasto social e do consumo popular para resolver suas principais urgências, com uma celeridade muito superior ao crescimento da produção e da produtividade, e da melhoria da eficiência institucional e da capacidade de obter novos recursos econômicos. Com as conhecidas consequências de desabastecimento, endividamento e perda do valor efetivo dos salários. Acelerar o desenvolvimento nacional – o das forças produtivas – é custoso; exige formar recursos humanos, assimilar tecnologias, criar infraestruturas. Isso exige exportar recursos valiosos para adquirir insumos caros, em melhores condições de intercâmbio, ou contar com potente ajuda externa.

Mas, na presente conjuntura, o erro de política econômica que os críticos assinalam com maior amargura é o de haver justificado ou até propiciado o extrativismo. Os governos progressistas são responsabilizados de se valer das empresas extrativas – mineiras, agrícolas ou outras – como fontes de renda para resolver necessidades sociais e investimentos em infraestrutura e desenvolvimento. E são acusados de fazê-lo sem restringir suas atividades com as necessárias fiscalizações, penalidades e compensações pelos danos socioambientais que causem. 

Não obstante, a crítica ao extrativismo, tal como alguns articulistas costumam abraçar, pode exibir a frivolidade de uma moda e conduzi-los a disparates. A extração de matérias ou produtos sem elaborar é uma atividade comum a muitas economias de diferentes tipos. A primeira questão é se a política econômica de cada país busca incrementar o valor agregado desses produtos mediante sua transformação por empresas e trabalhadores nacionais, ou se favorece um saqueio colonial ou neocolonial que exporta esses recursos primários para elaborá-los no exterior. Essa extração contribui para desenvolver e valorizar a respectiva economia e sociedade nacionais, ou é apenas um modo de explorar sua mão de obra barata reproduzindo o subdesenvolvimento do país? 

A outra questão é se as autoridades nacionais vigiam eficazmente que a regulamentação e controle das atividades extrativas são previstas, concedidas e realizadas garantindo os menores danos ambientais e sua melhor compensação e restauração, assim como a suficiente proteção e proveito para as comunidades próximas e para os setores nacionais afetados. 

Este assunto sempre esteve entre as principais reivindicações dos movimentos de libertação nacional e das esquerdas em geral. Com uma exceção: enquanto prevaleceu o modelo soviético (inclusive sua variante maoísta) primou o afã por forçar a todo custo o crescimento econômico, com devastadoras consequências em matéria ambiental, até o colapso desse modelo. Mas ainda assim, o estalinismo não foi um pecador solitário, posto que nem o liberalismo clássico nem o neoliberalismo têm sido inocentes dessa mesma prática, que eles prosseguem por razões muito piores. 

De fato, nada justifica o disparate de atribuir ao atual progressismo uma índole necessariamente extrativista, nem alegar que a esquerda e o progressismo são diferentes porque a primeira se opõe a essa prática, enquanto que cometê-la é um atributo constituinte do progressismo. Como tampouco a simplicidade economicista de supor que o progressismo obedeceu a uma subida do preço internacional das commodities e sua suposta extinção a que este baixou; ergo, que não até que estas voltem a se encarecer.   

Antes disso, durante grande parte do século 20 e no que vai do 21, o progressismo – como noção inclusive vinculada às lutas pela libertação nacional e pelo desenvolvimento social – tem sido a manifestação mais visível das esquerdas latino-americanas. E agora, uma vez depurado das deficiências de sua passada ofensiva regional, há motivos de sobra  para prever que voltará a ser. Essa anterior experiência não foi a primeira nem a única em que as esquerdas cometeram erros. 

Para evitar que esses se repitam, um dos melhores aportes de seus críticos será idear melhores modos de que os próximos governos progressistas ou revolucionários possam resolver o imperativo de financiar sua luta contra o subdesenvolvimento e solucionar necessidades populares, sem recorrer a formas incorretas de obter os recursos indispensáveis para isso. 

Consolidar um governo nacional‑libertador e suas possibilidades de projetar-se a objetivos de maior alcance exige tanto superar o atraso como assegurar o desenvolvimento humano e material das forças produtivas. Fidel Castro dedicou ao tema grande parte de seu pensamento. Temos que propor e debater estratégias e alternativas de combate ao subdesenvolvimento, bem como formas de concertação e cooperação dos países do Terceiro Mundo e da América Latina para modificar as injustas condições do comércio e do financiamento internacionais, em defesa dos interesses de seus povos, inclusive sem que as diferenças de regime político sejam obstáculo para colaborar nesse objetivo comum. 

No caso concreto de Cuba, esse desafio desde o começo foi extraordinariamente agravado pelo bloqueio estadunidense. Na primeira época da Revolução, o apoio econômico e militar soviético foi importantíssimo para resistir e avançar. Mas depois desses tempos os processos progressistas, libertadores ou revolucionários de outros países não puderam contar com esse tipo de solidariedade. Assim, sua capacidade real para adquirir recursos tecnológicos e econômicos para o desenvolvimento é uma dificuldade objetiva para suas possibilidades reais. Tão grande que parece que seus críticos mais severos preferem não a mencionar. 

De conta nova, a mesa está servida 

Assim são as coisas, a experiência dos três lustros progressistas que iniciaram nosso século XXI deve ser discutida examinando todas as suas arestas, o que deve ser feito com autocrítica e responsabilidade. Não para imputar responsabilidades pessoais, mas para tirar conclusões substantivas sobre como prever, castigar e erradicar tais deficiências, e imprimir uma mais robusta e eficaz consistência ética, política e estratégica à nossa participação na próxima ofensiva popular. Não só para agregar mais análises diagnósticas, porém, enfocados em propor melhores opções para vencer os anteriores problemas e aqueles que já cabe prever. 

Entre outras, há falhas que já é habitual assinalar, mas que reclamam uma análise maior. Uma, a insuficiência e até o abandono do trabalho político e organizativo que sempre deve substanciar cada gestão administrativa das esquerdas, não apenas no âmbito trabalhista e setorial, mas igualmente no de bairro e comunitário, que é onde habitam, convivem e votamos necessitados e suas famílias. 

Outra, o acomodamento e até mesmo permissividade com os vícios do poder burocrático, que chegam até a admitir indícios de corrupção em alguns dirigentes transformados em funcionários, desmentindo assim a qualidade moral da organização e do processo político que representam. E ainda mais, reduzir alguns partidos e movimentos surgidos da rebeldia, da luta e da criatividade política, à mera condição de aparelhos para a reeleição. Ao extremo, inclusive, de fazê-los “compreender” arranjos com operadores da política tradicional, a despeito dos princípios cuja prática nos faz gente de esquerda e nos identifica como tal. 

A corrupção é um vício politicamente assimétrico: salvo ocasionais excessos, na direita é parte de uma velha cultura e se dá por sentado. Mas à esquerda é eleita para combatê-la, e tolerá-la em suas fileiras constitui uma afronta que põe em dúvida os demais valores que as pessoas reconhecem nos dirigentes de uma organização progressista. Na esquerda, sem que importe a magnitude do delito, suas implicações políticas lhe dão transcendência e, embora o castigo seja maior, o conjunto de lideranças demora a recuperar a necessária liderança moral. 

Como também deve ser censurada a bobagem política de supor que, se um governo progressista cumpre seu dever elementar de solucionar demandas populares, seus beneficiários automaticamente lhe concederão uma interminável gratidão de eleitores cativos. Resolver os problemas das pessoas não é um favor, mas sim a missão dos funcionários. Cumpri-la não supõe um contrato eleitoral. Se o voto popular tirou a anterior administração para que ela não cumpria seus deveres, isso não significa que os eleitores passam a ser devedores de quem os realize. 

Pelo contrário, são os funcionários – mais ainda se assumem a tarefa a título de progressistas ou revolucionários – aqueles que diariamente devem voltar a ganhar a confiança da cidadania. Em política eleitoral, são os funcionários que estão sempre em dívida, pois o povo cada vez terá novas demandas pendentes. Os eleitores não votam para atrás, mas sim para adiante; não sufragam pelo que já foi resolvido, mas sim dando certa confiança temporária àqueles que se comprometem a solucionar o que falta. Quem recebe esse voto assume o dever de honrar esse compromisso para seguir merecendo essa confiança. 

Ainda assim, esse compromisso não termina ao entregar soluções, mas sim ao dar a elas sentido perdurável. Sua adequada interpretação, uso e manutenção devem se reproduzir além da entrega. Coisa que também requer promover a consciência e organização que assegurem o bom aproveitamento e preservação do que foi recebido. A entrega só culmina quando seus beneficiários se assumem como seus responsáveis e defensores. Essa consciência e a organização participativa – e não uma gratidão de vassalagem – é o que dá significado político aos benefícios entregues. 

Uma pessoa se torna revolucionária porque se indigna diante de uma realidade injusta e decide contribuir para transformá-la. Por conseguinte, a integridade ética é a principal exigência da condição de revolucionário. Ainda mais que a astúcia ou as habilidades de manobra, que algumas vezes têm servido para encobrir o oportunismo ou a perda de integridade moral e credibilidade cidadã. 

O projeto revolucionário é estratégico, não é conjuntural. Nesse sentido, em algumas ocasiões mais vale perder sozinhos do que ganhar mal acompanhados, se com isso robustecemos a identidade, o ascendente político e a liderança sociocultural que devem diferenciar a opção revolucionária. 

Portanto, transcorrida a passada maré progressista, a experiência desses três lustros de conquistas e erros agora oferece um acervo continental de extraordinário valor, que é preciso revisar com autocrítica e responsabilidade. E o que dá sentido ao exame desse caudal é obter as conclusões requeridas para erradicar as deficiências e potenciar os acertos dessa experiência, a fim de garantir uma melhor armação ética, cultura política, organização popular e eficácia a nossas práticas, e concretizá-las na liderança da próxima ofensiva popular. 

Agora, enquanto os falantes bizantinos se esquecem dos processos de emancipação nacional e popular, e especulam sobre “ciclos”, progressismos, reformas ou revoluções, outra onda de protestos sociais já começou. As barbaridades de Macri e similares voltam a exibir os abusos, incompetências e fracasso das velhas ou “novas” direitas como alternativa. 

Como aponta João Pedro Stédile, mesmo que Bolsonaro use o tempo todo a repressão e o amedrontamento, e libere todas as forças reacionárias presentes na sociedade, para dar toda a liberdade ao capital com um programa neoliberal, essa opção é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas concretos da população. Isso, continua Stédile, embora satisfaça os bancos agrava as contradições e gera um caos social que leva os movimentos sociais a retomar a ofensiva.[2] 

Os despropósitos neoliberais causam inconformidades populares que, por sua vez, demandam lideranças e projetos confiáveis. A sólida votação obtida por Gustavo Petro, as expectativas que já levantam frentes como Brasil Popular e Povo sem Medo e uma esquerda redirecionada, bem como a esmagadora vitória eleitoral de López Obrador, estão entre suas novas manifestações palpáveis. 

Ao mesmo tempo, por seu lado, em Washington DC os disparates de um paquiderme arrogante evidenciam que o sistema de dominação imperial continua perdendo capacidade de prover-se de visão, eficácia e liderança estratégicas. 

Assim pois, de conta nova a mesa das condiciones objetivas suficientes para começar outra ofensiva progressista está servida. Uma ofensiva que não apenas é de segunda geração, mas diferente, melhor dotada de experiências, ideias e expectativas. Com o que o assunto já não reside em se os processos progressistas, de libertação nacional ou com vocação socialista amainaram ou terminaram, mas em de que forma corresponde liderar suas próximas aspirações, para que nas novas circunstâncias sua acometida seja mais abrangente e assuma objetivos sustentáveis de maior alcance.

Quanto aprendemos de nossa anterior experiência? Como atualizar, compartilhar e instrumentalizar suas lições nas atuais condições? A passada ofensiva brotou em determinadas condições socioculturais que as esquerdas enfrentaram não apenas fragmentadas, mas também sem ainda amadurecer uma compreensão da crise do modelo soviético, nem de seus pontos políticos e ideológicos, como tampouco da mudança das circunstâncias internacionais, nem das opções que estas poderão apresentar.

Naquela conjuntura foi possível captar o voto, mais que a adesão, de pessoas exasperadas, mas ainda coibidas pela sombra de hegemonia imperial e recentes ditaduras. E por isso culturalmente inibidas de aspirar as expectativas, ainda percebidas como arriscadas. Em tais condições, esse crédito eleitoral possibilitava aceder ao governo, não ao poder.[3]

Hoje, em contraste, às vésperas de outra ofensiva progressista, nos cabe assumir duas missões prévias ante uma situação que já não é a mesma. Por um lado, colaborar com ampla parte do povo – com a diversidade de suas comunidades concretas – para superar diferenças político-culturais e organizativas tanto no setor trabalhista como em seus assentamentos locais. Por outro lado, oferecer nossas propostas como parte do esforço para superar a fragmentação conceitual e política das esquerdas. Ou seja, promovendo vias de diálogo e cooperação para juntar forças e abrir caminho a novas possibilidades, não apenas propondo a ir mais longe, mas articulando as forças necessárias para consegui-lo.[4]

É doentio ignorar a pluralidade que dinamiza cada povo e classe social confundindo o conceito de unidade com o de sua acepção monolítica. Da mesma forma, equiparar os sujeitos políticos e suas vanguardas com esquadrões militares, extrapolando una metáfora didática de tempos da guerra civil na Rússia. É indispensável apreciar as diversidades, uma vez que a unidade é um processo que se constrói entre diferentes, posto que sem diferenças não seria preciso construí-la. 

Enquanto deixamos aumentar as discrepâncias, as contraposições ressaltam sobretudo o que há em comum. No entanto, entre correntes de esquerda e progressistas a maioria das vezes será mais – e de maior peso estratégico – o que elas compartilham, embora não se reconheça. Isto remarca o acerto da proposta de começar a pôr sobre a mesa os respectivos projetos e encontrar em que campos coincidem (com o que os preconceitos irão sendo descartados). 

Não é necessário conseguir unidade em cada um dos aspectos conceituais e propostas, mas sim onde já é possível coordenar colaborações. Como processo que é, a unidade se constrói fazendo caminha ao andar,pois ao propiciar aproximações onde já é possível cooperar, ampliam-se as possibilidades de coincidir em outras áreas e perspectivas. A fertilidade da estratégia de frente ampla consiste em que se começa pelo mínimo essencial e as convergências crescem enquanto se luta em comum por objetivos que mereçam ser lutados, sem que as diferenças obstruam a marcha. O que também é prova de boa-fé. 

Para abrir caminho 

Nos tempos em que prevalecia o marxismo dogmático, uma das primeiras lições de Fidel Castro e da Revolução cubana foi sobre a efetividade da ação e da experiência conjuntas como meio para produzir organização e pensamento compartilhados. O Movimento que saiu à luz em 26 de julho de 1953 se iniciou depois de convocar jovens honestos e patrióticos em base a uma condição, sem se deter a discriminar sua pluralidade de ideias políticas e origens sociais. A condição moral mínima era estar dispostos a tomar as armas contra a ditadura para erradicar a política corrupta, efetivar a independência nacional e erigir uma democracia socialmente comprometida. Proposta que pouco depois seria argumentada em A história me absolverá, um projeto de libertação e desenvolvimento nacionais. A partir dessa condição inicial, combater juntos e compartilhar as vicissitudes populares sustentou a formação ideológica desses jovens e da maior parte do povo cubano, mais do que qualquer catecismo doutrinário. 

Doutos analistas hoje qualificariam esse projeto de reformista, desenvolvimentista, social-democrático ou progressista, dizendo que não passa de promover um capitalismo mais decente, não uma proposta revolucionária. Mas em sua condição de projeto de libertação nacional, esse do Moncada fundou-se em poderosas convicções patrióticas e de solidariedade social, e teve grande capacidade de convocatória não só por seus argumentos, mas sim pelo exemplo cívico de seus militantes. Projeto que, a partir de 1959, avivado por sua rápida execução e pelo assédio norte-americano, em véspera de Playa Girón tornou possível dar um piso popular efetivo à vocação socialista emanada de sua matriz nacional‑libertadora e desenvolvimentista. 

Essa experiência deve ser recordada diante da forma com que alguns hoje pontificam sobre o progressismo latino-americano. Qualificam esse fenômeno latino-americano e atual apelando a clichês estáticos e excludentes como os de reforma ou revolução, ou de intenção anti-neoliberal ou anticapitalista, que reduzem a análise às taxonomias com que a lógica formal disseca um objeto isolado e estático. E assim eludem a fadiga de discernir e interpretar a rede de contradições com que a lógica dialética opõe e associa uma diversidade de fatores, no trabalho de compreender e explicar um processo.[5]

Na situação atual das nações latino-americanas e seu contexto continental e global, como parte ativa de uma transição histórica diferentes da que foi confrontada em 1962, quando da II Declaração de Havana, ou durante a retração, crise e caída do modelo soviético, e sob a ofensiva neoconservadora e o apogeu do neoliberalismo, ou em meio da primeira onda progressista iniciada por Hugo Chávez. Não poucas vezes, os esquemas ou clichês verbais que um ou mais desses períodos pareceram úteis para entendê-lo não são apropriados para compreender as potencialidades de outro. Em situações tão modificadas, os anteriores modos de conceber e alcançar as metas desejadas podem ter deixada de ser eficazes, e teremos que qualificá-los com outros adjetivos. 

Para abrir caminho a outro futuro possível, durante essa transição não apenas é desejável e necessário ir além do que na anterior oportunidade, senão que é indispensável articular e formar as forças requeridas para empreender caminho, ampliá-lo e sustentá-lo.  Na iminência desta nova maré de inquietudes populares, urge capacitar essas legiões, a tempo de lutar para reverter a contraofensiva da direita e discutir que objetivos propor para recuperar iniciativa, e como avançar a curto e médio prazo nessa direção, com os destacamentos sociais que efetivamente podem tornar isso possível. 

São estas forças reais que determinarão quanto e até onde se pode fazer e sustentar na prática política, não os jogos de palavras mais sutis, nem menos uma campanha de caça e condenação de presuntos reformistas. As indignações organizadas das pessoas atiçam o acontecer melhor que as exibições verbais, em que alguns articulistas malgastam suas perícias intercambiando sentenças e enterros políticos em vez de aportar ideias que resolvem problemas e abram caminhos. 

Porque se de forças se trata, há que formá-las. Para começar, tal como Frei Betto resume a atual perspectiva, antes de que seja tarde “só resta à esquerda voltar ao trabalho de base, organizar as classes populares, promover a alfabetização política do povo”[6]. 

 

Nils Castro é cientista político, fundador do Partido Revolucionário Democrático do Panamá, ex-assessor de Omar Torrijos, ex-embaixador do Panamá no México, colaborador de Diálogos do Sul.

Revisão e Edição: João Baptista Pimentel Neto

Referências

[1]. Ver, por exemplo, ¿Quién es la “nueva” derecha?, en Alai del 14-4-2009; Una coyuntura liberadora… ¿y después?, en Rebelión del 23-7-2009; Una liberación por completar, en Alai del 17-8-2009; La brecha por llenar, premio del concurso Pensar a contracorriente, La Habana, febrero de 2010; El reto de las izquierdas latinoamericanas, en Rebelión del 27-4-2012; ¿Por qué y para qué son progresistas estos gobiernos?, en Rebelión del 20-7-2012; Las disyuntivas progresistas y la contraofensiva de las derechas, en Rebelión 1-12-2014; La contraofensiva de las élites dominantes, en Alai del 2-12-2013; La contraofensiva de las derechas y las opciones de las izquierdas, en Rebelión del 5-11-2014; Combatir errores y sumar nuevas fuerzas, en Alai del 24-10-2016 y Convertir indignación social en militancia política, en Alai del 14-11-2016.

[2]. Ver João Pedro Stedile, “Temos que retomar o trabalho de bases”, Brasil de Fato, 30 de outubro de 2018. 

[3].  Uma parte das esquerdas entrou para o órgão Executivo, ao eleger presidente sem ganhar a maioria nas eleições parlamentares, estaduais e municipais, nem influência no Órgão Judicial, tal como 30 anos antes ocorreu com Salvador Allende e a Unidade Popular. 

[4]. Entre as esquerdas ainda pesa uma má maneira de discutir, na qual o debate não busca desenvolver ideias, mas sim desqualificar o oponente. É preciso diferenciar tampos e objetivos. Marx contra Proudhon, Engels ante Dühring ou Lenin frente a Kautsky responderam a outra circunstância: a de três polemistas geniais no momento de resolver pontos críticos de uma decisão estratégica. Seu exemplo não vale para dirimir controvérsias táticas, nem muito menos para suprir a falta de maiores argumentos. Lamentavelmente, desde o século XIX – e em particular em período de decomposição política como o stalinismo, o maoísmo e suas sequelas – não faltam publicistas mais dados a desqualificar possíveis interlocutores do que a gerar conhecimento e propiciar cooperações. 

[5]. Ao fim e ao cabo, reforma e revolução não são duas pontas incompatíveis de uma disjuntiva estática, mas sim pólos de uma inter relação dialética, assim como a luta contra o capitalismo começa por derrotar seu extremo neoliberal. 

[6]. Ver Sergio Ferrari, entrevista Frei Betto: Volver al trabajo de base, promover la alfabetización política del pueblo, em Sur y Sur, de 22 de agosto de 2018.  

Comentários