Estação Primeira Mangueira / Divulgação

Samba-Enredo da Mangueira humaniza Jesus e critica desigualdade, dizem religiosos

Para pastora Lusmarina Garcia escola traduziu o que ela vem pregando: um Jesus periférico, negro, que acolhe população LGBT, pobres e mulheres

A escola de samba carioca Estação Primeira Mangueira nem desfilou e seu enredo “A Verdade Vos Fará Livre” já está causando uma grande discussão nas mídias sociais. Motivo: o carnavalesco Leandro Vieira resolveu refazer uma releitura histórica da vida de Jesus Cristo, projetando a sua volta para os morros cariocas, em um mundo apartado pela intolerância.

Antes dos carros alegóricos da verde e rosa adentrarem a avenida Sapucaí, no Rio, Leandro convidou um grupo de diversos líderes religiosos para que pudessem conhecer e opinar sobre a sua versão do homem mais consagrado no Cristianismo, o Nazareno.


Coube ao babalaô Ivanir dos Santos reunir o maior número possível de representantes de distintas religiões, em sua maioria cristãos, para visitar os barracões da Estação Primeira. Estiveram lá a pastora Lusmarina Garcia (teóloga luterana), o reverendo Daniel Rangel (Paróquia Anglicana de Todos os Santos), frei Tata, a reverenda Inamar Corrêa de Souza (da Igreja Anglicana), Júlio Oliveira (Comunidade Batista de São Gonçalo), reverendo Rodrigo Coelho (Igreja Presbiteriana de Botafogo), Rafael Oliveira (antropólogo, do Terreiro da Casa Branca, na Bahia), José Kowalska (Igreja Luterana), pastor Marco Davi (Nossa Igreja Brasileira), Conceição d’Lissá (Terreiro de candomblé Kwe Cejá Gbé), Yango (Agen Afro) e o rabino Nilton Bonder (Congregação Judaica do Brasil)

Estação Primeira Mangueira / Divulgação
O enredo “A Verdade Vos Fará Livre” está causando uma grande discussão nas mídias sociais

O grupo ouviu do carnavalesco suas intenções em como apresentar o Cristo e conheceu de perto como estão sendo fabricados os carros alegóricos. Alguns dos religiosos nunca haviam pisado em um barracão de Carnaval. A coluna Gueledés no debate conversou com três dessas lideranças religiosas que trouxeram suas visões sobre a temática.


Segundo o babalaô Ivanir dos Santos, a ideia de Leandro Vieira é apresentar “um Cristo humano que viveu entre os marginalizados, pobres, acolhendo os necessitados”.  E o babalaô faz a mesma pergunta levantada no enredo pelo carnavalesco: “E se Jesus nascesse hoje no Morro da Mangueira, como ele seria?”. De acordo com o babalaô, os que estiveram presentes na apresentação da Mangueira, em sua maioria cristãos, compreenderam o enredo por “respeitar a figura do sagrado”.

Assista ao clipe:


A pastora Lusmarina Garcia disse que saiu do barracão com uma “impressão excelente”. De acordo com ela, a “Mangueira vem com o Evangelho feito arte”. Para a pastora, a escola de samba conseguiu traduzir um Jesus que ela e outros religiosos vêm pregando há anos, um Jesus periférico, negro, que acolhe a população LGBT, os pobres e as mulheres. “É o Jesus que está no sofrimento das pessoas e em Seu corpo reside a humanidade inteira. Essa cultura tão popular do Carnaval ganhou uma riqueza muito grande ao optar por essa temática”. Para a pastora, Jesus tem sido “vilipendiado por parte de igrejas que são comerciais, mercadológicas, que se desviaram do Evangelho e a Mangueira está ajudando a redimir esse Jesus”.

O rabino Nilton Bonder afirma existir uma “intenção bonita em trazer a figura de Jesus dentro da construção teológica e filosófica de buscar o excluído, o ser humano como um igual”.  Bonder considera que, “no Ocidente, Jesus é a maior figura da tolerância”. Sobre a polêmica religiosa na maior manifestação artística brasileira, o rabino lembra que esta não é a primeira vez que há discussões em torno de figuras bíblicas no Carnaval. Para ele, o importante é que “se respeite os símbolos e tradições religiosas”, e não considera um problema a arte em retratar o Cristo. “O que não pode é fazer parte de uma ideologia de ódio à uma crença”, completa ele. Após a aprovação da temática, os líderes religiosos foram convidados a desfilar no Sambódromo. E existe a chance de alguns aceitarem o convite. “A Mangueira fala sobre a intolerância religiosa e os direitos humanos que estão sendo muito afetados nos dias de hoje”, avisa Ivanir.


Veja também


Comentários