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"Não querem apenas vender, é pior: querem controlar zonas", afirma testemunha sobre a ação do narcotráfico (Imagem ilustrativa: Governo de Buenos Aires)

Destruição de direitos sob Milei entrega bairros argentinos às mãos do narcotráfico

Segundo entidades, Estado ausente com Milei não apenas impulsiona maior consumo de drogas, mas abre espaço para o controle de regiões vulneráveis pelo crime organizado
Laura Vales
Página 12

Tradução:

Ana Corbisier

* Atualizado em 28/03/2025 às 09h05.

“Nos bairros, a presença do narcotráfico tem pelo menos 20 anos: sempre tivemos o traficante e o jovem que consome. O que estamos vendo agora é o controle do território, controle pela força, com armas, e pelo consenso, porque o consenso não se alcança apenas com acordos, mas também pelo horror”, diz Javier. Para esta reportagem, o acordo é não usar seu nome verdadeiro, como acontece com quase todos os que falam e vivem em bairros populares da Argentina. Ele autoriza que se diga que milita no conurbano, em uma organização social da qual faz parte desde 2002, quando era adolescente. Javier se formou em seu movimento: se terminou o ensino médio, foi em um bacharelado de sua organização, e se saiu do país, não foi em férias familiares, mas como brigadista. Sua visão do que acontece nos bairros é a de um militante.

O que seria controlar o território?

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Meu irmão também está no movimento. A organização pediu que ele fosse morar em um bairro próximo ao rio Matanza, um assentamento novo. Fui visitá-lo, cheguei às 19h, e na entrada fui parado por um jovem armado. Ele queria saber para onde eu ia e com qual objetivo. Eles controlam quem entra e quem sai: a partir dessa hora, ninguém abre a sociedade de fomento (nota da edição: na definição do próprio governo argentino, são organizações ligadas à promoção do desenvolvimento social ou à defesa de direitos, que surgiram no país na década de 1970 e contaram com o apoio da cooperação internacional), nem a escola, a menos que seja conhecido deles. Eles montam cordões de controle.

Mais tarde, Javier conta sobre outro bairro: “Em setembro, apareceram duas mulheres boiando no rio Matanza; elas tinham 28 e 14 anos. Foram vistas porque o rio baixou; a polícia havia feito buscas, mas os narcotraficantes atiraram neles. Alguns meses depois, houve uma inundação, e a Defesa Civil não pôde levar alimentos para as famílias que estavam isoladas porque atiravam neles dos telhados. Eles nos pediram que levássemos os alimentos. Conversamos, pedimos permissão, e nos deixaram passar”. Ele diz que o problema hoje nos bairros “não é que os narcotraficantes queiram vender, é pior: eles querem controlar o território”.

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O alerta vem sendo feito por todos os movimentos sociais: o governo de Javier Milei, em sua cruzada para eliminar qualquer vestígio de organização entre os mais pobres; parou de enviar alimentos para os refeitórios públicos; eliminou o Potenciar Trabalho (nota da edição: projetos socioprodutivos, sociocomunitários, sociolaborais e de conclusão educacional que buscavam melhorias nas condições de emprego), substituíndo-o por programas que não organizam a comunidade; fez uma campanha de estigmatização midiática contra os movimentos sociais e criminalizou seus integrantes. Como resultado, o conjunto de políticas públicas que o Estado articulava com os movimentos nas áreas mais abandonadas da Região Metropolitana de Buenos Aires (com refeitórios, agentes de saúde, operações de documentação, programas de escuta inicial para vítimas de violência de gênero, bacharelados, obras de urbanização, empreendimentos produtivos) recuou. Muitos empreendimentos tiveram que fechar, as obras de melhoria dos bairros estão paralisadas, e grande parte das trabalhadoras sociocomunitárias teve que buscar outras formas de ganhar a vida. Criou-se um vazio.

Os padres das vilas e que atuam na assistências aos mais pobres concordam com esse diagnóstico e, assim como os movimentos, alertam que, em meio a esse vazio, há um avanço do narcotráfico. Mas como isso acontece na prática?

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“Cada um teve que ver como sobreviver”

Lídia — outro nome fictício — é responsável por um refeitório em uma das maiores vilas da cidade de Buenos Aires. Há décadas, ela é uma referência no bairro. “A primeira coisa que aconteceu com este governo foi que os jovens se afastaram”, relata. E lembra: “Eles haviam se juntado ao trabalho durante a pandemia. Pediram para ajudar na cozinha porque seus pais não tinham o que comer. Levavam comida para os avós, depois começaram a cozinhar ou se juntaram às equipes de saúde”.

“Naquela época, tínhamos o Potenciar Trabalho, por isso eles conseguiam ganhar um salário mínimo, entre o Potenciar e o Plano Nexo; e ainda tinham a comida. Vários começaram a estudar enfermagem. Mas este ano perdemos quase todos: dos sete jovens, restaram três. Sem o Plano Nexo, sem o Potenciar, sem a comida, cada um teve que ver como sobreviver. E não apenas deixam o refeitório, mas acabam no mau caminho”.

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Ela nunca usa palavras como “narcotráfico” ou “droga”. Usa alusões, como “dinheiro sujo” ou “mau caminho”. “Isso é um golpe muito forte, estamos muito tristes. Desanimamos”, lamenta. Do refeitório, várias mulheres também se afastaram. Um dia, “uma das companheiras esqueceu uma bolsa, e dentro encontramos uma balança bem pequena. Ela vinha dizendo que ia trabalhar em uma quitanda, mas nós vimos a balancinha para pesar” (nota da edição: um possível indício de tráfico de drogas, que usa pequenas balanças para pesar os entorpecentes).

“Lutamos muito para que as companheiras saiam desse caminho, lutamos muito para que as coisas melhorem”, reflete.

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Facundo e Gastón, padres das vilas

Para Facundo Ribeiro, padre da paróquia Caacupé, na Vila 21-24, Buenos Aires, “não se deve pensar no avanço do narcotráfico como algo organizado, no sentido de que estejam abrindo refeitórios, mas em outras situações que ocorrem de fato: há muitas pessoas que não têm como comer porque sua renda caiu, e a contenção social diminuiu”, explica. “O avanço do narcotráfico acontece em um ‘guarde isso para mim’; a pessoa guarda em sua casa em troca de alguns pesos e fica envolvida nessa situação”. “Para os jovens, é dinheiro fácil, é dinheiro rápido. Não é algo organizado, não é que o traficante instale um refeitório, mas situações que ocorrem de fato”.

O padre Gastón, sacerdote da vila 1.11.14, no Baixo Flores, também em Buenos Aires, descreve algo semelhante: “Dão alimentos a refeitórios? Não, nas vilas da Capital isso não aconteceu”, assegura. “O que acontece é que os jovens menores começam a vender drogas. Um jovem de 16 anos que puxa um carrinho para juntar papelão, junta cerca de 20 mil pesos em um dia se ficar em uma esquina vendendo drogas, em vez de ganhar o dinheiro dignamente; é o que vemos. E isso não acontece apenas com os jovens: antes, as pessoas tentavam ganhar uns pesos vendendo comida, sanduíches de milanesa. Agora, vendem (drogas) em suas casas”, acrescenta. Ele afirma: “cada vez há mais trabalhos ligados à venda, e não será fácil sair disso, porque não se pode dizer ‘vendo isso por um mês e depois volto para os sanduíches de milanesa’”.

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O sacerdote enumera os trabalhos para o narcotráfico que não envolvem ser soldado ou usar violência: guardar, pesar e fracionar, vigiar uma rua, levar e trazer.

O narcotráfico se torna financista

Javier volta ao controle do território. Ele afirma que as gangues têm uma dinâmica de cinturões para controlar áreas pelas quais precisam movimentar sua mercadoria. “Eles não querem apenas vender, é pior: querem controlar zonas, ruas”, insiste.

Isso leva a confrontos mais violentos. Incêndios em barracos, que os moradores apontam como locais de venda, são seguidos por outros incêndios mais cruéis como represália. Ele acrescenta que outro aspecto do problema é que, devido ao crescimento econômico das gangues, seus negócios se diversificam: “o narcotráfico se torna financista e domina o negócio da venda de botijões de gás. Todas as questões que dizem respeito à comunidade, que poderiam ter uma solução comunitária, tornam-se uma variável de seus negócios”.

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De certa forma, as organizações sociais veem uma situação semelhante à do final dos anos 90, quando, diante do surgimento do paco (nota da edição: pasta base da cocaína) nos bairros, tiveram que desenvolver estratégias para estarem presentes no espaço público: realizavam atividades nas praças, estavam no território com propostas comunitárias. Mais tarde, em articulação com o Estado (por meio da Secretaria de Políticas Integrais sobre Drogas da Nação Argentina – Sedronar), abriram centros de atendimento para pessoas com problemas de consumo, Casas de Atenção e Acompanhamento Comunitário.

Mas as semelhanças entre aquela crise e a atual não são tantas. A disputa pelo espaço público hoje é muito mais violenta, os jovens têm outra subjetividade, a ideia de se juntar a uma organização social não os atrai como antes; os próprios movimentos estão em retração. O aspecto comunitário se reduz, se desfaz. Resiste, mas sustentado pelo compromisso dos mais militantes, que enfrentam o difícil desafio de salvar o que pode ser salvo e pensar em novas estratégias.

Página/12, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Laura Vales

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