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Discurso "Bolsonarinho paz e amor" em convenção revela desespero por voto feminino

O agora candidato simplesmente ocultou seu eterno discurso pró-arma, rejeitado pela maior parte do eleitorado, em especial o feminino e juvenil
Laura Capriglione
Jornalistas Livres
São Paulo (SP)

Tradução:

O presidente Jair Bolsonaro foi indicado neste domingo (24) candidato à reeleição, tendo como vice o ex-ministro da Defesa, general Braga Netto. Foi uma aclamação com travo de decepção. Para quem, como Bolsonaro, já anunciou milhões de correligionários presentes em suas melhores manifestações, a convenção do PL (o novo partido de Bolsonaro), amplamente convocada pelos canais bolsonaristas, não conseguiu nem sequer lotar o Maracanãzinho, cuja capacidade é de 11.800 espectadores. Todo o aro superior do ginásio estava vazio, além da área atrás do palco. E não foi preciso instalar os telões na parte exterior do local, como estava programado, para pessoas que não conseguissem entrar. Um funcionário do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, avaliou o público em menos de 8 mil pessoas.

Foi nesse quadro que Bolsonaro adentrou no ginásio com os rosto encharcado de lágrimas, de mãos dadas com Michelle para o que deveria ser a consagração de uma candidatura viável à reeleição, mas que não foi. Em vez disso, o que se viu foi uma tentativa desesperada de amenizar a imagem do atual presidente, de modo a conquistar os votos de setores que lhe têm maior rejeição: jovens e mulheres, majoritariamente favoráveis a Lula. Segundo a última pesquisa do BTG Pactual, banco fundado pelo ministro Paulo Guedes, Bolsonaro tem apoio de 24% das mulheres, contra Lula, que tem 46%. Ressalte-se que as mulheres compõem 52% do eleitorado. Entre os jovens, a disparidade é semelhante, também favorecendo o candidato do PT.

Um mal ajambrado “Bolsonarinho Paz e Amor” tenta agora emplacar a narrativa de que ele representa o “bem contra o mal”. Para tanto, o agora candidato simplesmente ocultou seu eterno discurso pró-arma, rejeitado pela maior parte do eleitorado, em especial o feminino e juvenil. Nem o gesto que o consagrou, de simular ter um revólver nas mãos, apareceu no ato. Nenhuma vez. Até as palavras “amor” e “resgate da dignidade apareceram no discurso, como se não fosse ele o maior responsável pela fome e desespero que assolam o país.

De olho no público feminino, o apresentador do ato, Carlos Rudiney, que é locutor de rodeio, entoou algumas vezes a canção de Benito di Paula: “Agora chegou a vez, vou cantar… Mulher brasileira em primeiro lugar”. Foi essa, por exemplo, a senha para anunciar a presença da ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP). Mas o principal farol para atrair o voto das mulheres foi aceso pela primeira dama, Michelle, a única pessoa chamada a falar além do próprio Bolsonaro (o deputado e pastor Marcos Feliciano, que abriu o ato, apenas rezou o “Pai Nosso”). A entrada de Michelle na campanha foi celebrada pelos correligionários do atual presidente, que acreditam na capacidade dela para atrair parte do público feminino, particularmente as evangélicas.

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Michelle, toda produzida em um vaporoso traje verde água, incumbiu-se de contraditar a impressão generalizada de que “Bolsonaro não gosta de mulher”. Ele não gosta mesmo, a julgar por declarações pregressas, como aquela em que disse, entre outras aberrações, que a sua própria filha Laura foi fruto de uma “fraquejada”, ou quando disse que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), porque ela “não merecia” (se referindo ao corpo da deputada).

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Com voz suave e firme, em tom pausado, entremeado por “améns”, Michelle apresentou-se como uma pastora evangélica defendendo o marido. Enumerou supostas ações dele em prol das mulheres. Citou por exemplo, como sendo de Bolsonaro a iniciativa de entregar às mulheres, em vez de aos homens, os títulos de propriedade de casas populares. Mas essa política, em vez de original, já vinha sendo adotada pelos governos de Lula e Dilma. Citou também a transposição do Rio São Francisco, que levou água a regiões castigadas pela seca no semi-árido nordestino, poupando as mulheres de ter de carregar “bacias e baldes na cabeça”. Mas essa obra já estava praticamente concluída no governo de Dilma.

Algumas ausências foram eloquentes demais no ato de lançamento da chapa de Bolsonaro. Se ao candidato a vice-presidente, general Braga Netto, não foi nem sequer dada a palavra, também não falou nenhum outro oficial das Forças Armadas. O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, não participou da cerimônia. Idem para o general Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República. Lembre-se que um dos principais discursos de apoio à candidatura de Bolsonaro em 2018 foi o do general Heleno, que cantou, em cima de um palanque da campanha: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão…” Na época, Bolsonaro apresentava-se como adversário do Centrão, identificado como símbolo da corrupção, “escória”. Ontem, esse discurso estava velho demais, como se via pelas presenças de membros notórios do Centrão e protagonistas de estrondosos escândalos, como Arthur Lyra (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, Fernando Collor (PTB-AL), cassado por corrupção em 1992, Valdemar Costa Neto (PL), condenado e preso no mensalão, e o ex-governador José Roberto Arruda, cassado e preso no mensalão do DEM.

O agora candidato simplesmente ocultou seu eterno discurso pró-arma, rejeitado pela maior parte do eleitorado, em especial o feminino e juvenil

Jornalistas Livres
“Os atos de Bolsonaro estão muito pequenos, apesar de a campanha dizer o contrário", assumiu um vendedor de bonés bolsonarista

Bolsonaro falou logo depois de Michelle. Fez um discurso longuíssimo, de mais de uma hora, em que atacou o STF, sem citar nomes, a quem chamou de “surdos de capa preta”, e convocou seus apoiadores, nomeados “exército” a irem às ruas “pela última vez” no 7 de Setembro. O que significa esse “pela última vez” ficou em aberto, mas muitos interpretaram a fala como uma ameaça velada aos ministros do STF:

“Convoco todos vocês agora para que todo mundo, no 7 de Setembro, vá às ruas pela última vez. Vamos às ruas pela última vez”, disse.

Bolsonaro referiu-se a Lula chamando-o de “cachaceiro descondenado”. Lembrou-se do velho e surrado discurso anticomunista. Acusou o petista de “desconstrução da heteronormatividade” e de defender o ensino de sexo para crianças de 5 anos, uma óbvia mentira, mas que os correligionários do atual presidente compram sem pestanejar. Por fim, jurou dar a vida pela liberdade. E pediu para o público repetir com ele: “Juro dar a vida pela liberdade”. Todos repetiram a bravata, apesar de a esmagadora maioria da plateia que estava no Maracanãzinho ser composta por pessoas muito humildes, mais velhas, o contrário do que se imagina um guerreiro do Batalhão Azov. Raros eram os bombadões que sempre são vistos nos atos de Bolsonaro em São Paulo, Brasília e cidades da região Sul do Brasil. Também eram raras as emulações de soldados em trajes camuflados ou as exaltações a torturadores do regime militar –a reportagem viu apenas uma camiseta com os dizeres “Ustra vive”, vestida por um jovem obeso demais para qualquer combate.

Bolsonaro não criticou as urnas eletrônicas, contrariamente ao que tem feito praticamente desde sua posse, e comportamento agravado no encontro com os embaixadores realizado no último dia 18. Paradoxalmente, os organizadores do ato fizeram questão de colocar o “trililili”, barulhinho das urnas eletrônicas, como sonorização a cada anúncio de candidatos a postos no legislativos que estavam presentes.

Todo o ato foi embalado pelo jingle de campanha, composto pela dupla sertaneja paulista Mateus e Cristiano, que diz:

“É o capitão do povo
que vai vencer de novo
Ele é de Deus, e pode confiar
Defende a família
e não vai te enganar.
É o capitão do povo
que vai vencer de novo
Igual a ele nunca existiu
É a salvação do nosso Brasil”

Findo o ato, que durou cerca de quatro horas, preenchidas em sua maior parte pelas apresentações de figurinhas óbvias do bolsonarismo, como Carla Zambelli, Daniel Silveira (ovacionado), Sérgio Camargo e Romário, entre outros, o público saiu do ginásio sem nenhuma animação. À reportagem, um vendedor de bonés amarelos com a inscrição “Bolsonaro 2022”, bolsonarista que vem acompanhando os atos de seu candidato, comentava: “Os atos de Bolsonaro estão muito pequenos, apesar de a campanha dizer o contrário. Ele tá sendo abandonado. Eles devem estar brigando por causa de dinheiro. Desse jeito não vai dar, precisa fortalecer o “Mito”.

As jornalistas Laura Capriglione e Marlene Bergamo (jornalista convidada) assistiram à Convenção de lançamento da candidatura Bolsonaro-Braga Netto dentro do Maracanãzinho.


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