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Entidades da América Latina e do Caribe denunciam negligência contra crise climática

Organizações se reuniram paralelamente à Semana do Clima, na República Dominicana, para refletir e apontar soluções efetivas ao grave cenário global
Guilherme Ribeiro
Diálogos do Sul
Bauru (SP)

Tradução:

A Assembleia Cidadã pela Justiça Climática da América Latina e do Caribe emitiu, na sexta-feira (22), uma declaração com reflexões, críticas e sugestões acerca da crise climática na região.

A carta é divulgada após encontros entre entidades-membro da assembleia entre os dias 18 e 22 de julho, na Universidade Autônoma de Santo Domingo, na República Dominicana. Não por acaso, as reuniões foram realizadas paralelamente à Semana do Clima, realizada no mesmo período e país entre governantes latino-americanos e caribenhos.

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No protesto, os representantes das organizações populares apontam que a América Latina e o Caribe, embora sejam os menos responsáveis, são os mais golpeados pelos efeitos da crise climática. Enquanto isso, os líderes dessas nações se reúnem, junto da ONU e do Banco Mundial, para propor “unicamente medidas tecnológicas e mercantis (…), repetindo as insuficientes receitas dos últimos 20 anos”, denuncia o texto.

Como ainda bem afirma a declaração, o trágico cenário climático global tem produzido danos como a extinção de milhões de espécies, o deslocamento de pessoas e condições incompatíveis com a vida, especialmente graves no Haiti e na República Dominicana, somadas a graves violações aos Direitos Humanos.

Os coletivos também definem as atuais medidas como falsas soluções que não confrontam as causas estruturais do problema, robustecendo o sistema capitalista, extrativista e patriarcal e aprofundando “o saque, o colonialismo, o racismo, a violência sobre os corpos, a sobre-exploração do trabalho”, observam.

Entre as propostas da Assembleia Cidadã, estão o cancelamento de dívidas externas causadas pela desigualdade da economia internacional; a criação de um financiamento climático a partir dos países industrializados e das corporações multinacionais, a adesão ao Acordo de Escazú

Confira a seguir a declaração na íntegra.

Organizações se reuniram paralelamente à Semana do Clima, na República Dominicana, para refletir e apontar soluções efetivas ao grave cenário global

UNICEF/UN0286416/Akash

"A história das negociações climáticas internacionais está marcada pelo fracasso e a hipocrisia"




Declaração da Assembleia Cidadã pela Justiça Climática da América Latina e do Caribe, 18 a 22 de Julho, 2022

Nós, mulheres e homens, somos representantes de organizações populares latino-americanas e do Caribe de mulheres, de negras e negros, de operárias e operários, de camponesas e camponeses, de povos indígenas, ambientalistas, ecologistas, religiosas, afrodescendentes, de jovens e de comunidades locais. Nos reunimos no espaço democrático da Universidade Autônoma de Santo Domingo, República Dominicana, entre os dias 18 e 22 de julho de 2022, para refletir acerca da crise climática, suas causas estruturais e suas consequências, a fim de promover ações efetivas para construir a justiça climática em nossos territórios, os menos responsáveis e mais golpeadas pela crise, e em toda nossa região da América Latina e o Caribe.

Enquanto isso, os governos de nossa região se reuniram em um hotel 5 estrelas – símbolo da ditadura e da oligarquia dominicana – na Semana do Clima, organizada pela ONU e o Banco Mundial e continua propondo unicamente medidas tecnológicas e mercantis para enfrentar os efeitos e consequências do câmbio climático, repetindo as insuficientes receitas dos últimos 20 anos.

Assista na TV Diálogos do Sul

Durante esta intensa semana de fraterno intercâmbio de visões e conhecimentos, visibilizamos o trágico cenário climático global: milhões de espécies estão desaparecendo; cresce a quantidade de pessoas deslocadas e afetadas pelos extremos climáticos; nossa própria sobrevivência como povos e como espécie está em risco. O planeta se incendeia, se inunda, se resseca, e todos os seres vivos nos enfrentamos a condições incompatíveis com a vida. Tudo isto se incrementa em contexto agravado de crises democráticas e de graves violações aos Direitos Humanos Fundamentais por todo o continente.

Especialmente grave é a ameaça para a vida no Haiti e República Dominicana, nossos anfitriões; pequenos estados insulares no Caribe que podem ver desaparecer grande parte de seus territórios com o aumento no nível do mar e os golpes de fenômenos recorrentes e cada vez mais intensos.

Constatamos e denunciamos a forma com que os poderes políticos e corporativos do mundo e de nossa região continuaram promovendo falsas soluções que não confrontam as causas estruturais da crise e que, pelo contrário, robustecem o sistema capitalista, extrativista e patriarcal que a gerou. Desta maneira não resolvem o câmbio climático, intensificam os impactos da crise global e geram novos impactos e desigualdades derivados destas falsas soluções.

Assim, vimos como os governos reunidos na Semana do Clima continuam favorecendo em nossos territórios a lavagem verde de corporações mediante as compensações e mercado de carbono, o cero-neto, REDD e as mal chamadas soluções baseadas na natureza, a incineração de resíduos, as monoculturas industriais de agrocombustíveis à base de palma, soja e cana e seu uso na aviação, as plantações massivas de pinheiros e eucaliptos e a energia de biomassa florestal, o hidrogênio verde, a dessalinização  de água marinha, a geo-engenharia e a manipulação climática em grande escala, como o projeto VESTA, de captura de carbono na costa norte da República Dominicana.

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Por sua parte, e com a cumplicidade dos governos, as empresas enriquecem mediante ao extrativismo e as falsas soluções, aprofundando o saque, o colonialismo, o racismo, a violência sobre os corpos, a sobre-exploração do trabalho, enquanto em comunidades como Haina, a mais industrializada da República Dominicana, se sofre por não contar com água potável, condição básica em qualquer ideia de desenvolvimento.

A história das negociações climáticas internacionais está marcada pelo fracasso e a hipocrisia; escreveram grande quantidade de acordos com um impacto nulo no enfrentamento do aquecimento global e seus crescentes impactos. E esta Semana do Clima é uma nova evidência de que os governos continuam sem ter vontade política para assumir com responsabilidade a urgência climática.

Demandamos aos governos e organismos multilaterais da América Latina e do Caribe assumir um giro radical nas políticas climáticas e nas posições individuais e conjuntas nos espaços de negociação das Nações Unidos, consistente com uma mudança de paradigma.

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Neste sentido, reclamamos:

●       O cancelamento das dívidas externas contraídas em base a uma ordem econômica internacional desigual e coercitivo e o estabelecimento de um financiamento climático que em sua origem e seus montantes responda ao pagamento da dívida climática dos países industrializados e das corporações multinacionais, vinculado com o debate sobre perdas e danos, assim como a adaptação climática. O uso deste financiamento deve ser do controle dos povos do sul, para construir suas alternativas em base dos próprios conhecimentos, culturas e bens.

●       A firma do Acordo de Escazú por parte dos Estados que não o subscreveram e sua plena implementação para a proteção das e dos defensores dos territórios frente à criminalização, a perseguição e o assassinato, assim como o fortalecimento da participação social nas políticas públicas e o fim da subordinação e dependência dos interesses das corporações.

●       O abandono e a promoção da desinversão do modelo econômico extrativista, baseado o acaparamento de terras, a extração e exportação de minerais, energia, monoculturas e agroindústria e pecuária a grande escala, e tratados de livre comércio, que vulneram a soberania e os direitos humanos nos territórios.

●       O pleno reconhecimento dos povos indígenas e negros da América Latina e do Caribe, com seus territórios e suas práticas culturais e de gestão ecológica de seus meios de vida.

●       O impulso de uma agenda pela justiça climática que priorize o respeito aos direitos humanos e da natureza, a construção de meios de vida sustentáveis, a defesa dos bosques, da água, dos alimentos sadios. Deve orientar-se para a recuperação da soberania territorial, alimentar, hídrica e energética dos povos; deve se basear no conhecimento que guardamos as mulheres e homens em cada rincão do planeta, e deve incorporar as visões de jovens, de crianças, de gente do campo e da cidade, dos afrodescendentes e dos povos originários.

●       Apoiar o trabalho das universidades, centros académicos, pesquisadoras e pesquisadores que produzem conhecimentos comprometidos com o bem comum e o cuidado da vida e do planeta.

Chamamos as redes, movimentos e organizações sociais, de todos os âmbitos de resistência e luta da América Latina e do Caribe a somar-se à causa de justiça climática, a não permanecer indiferente às ações que põem em risco bens comuns como o clima e a água, em qualquer parte em que esta se encontre, seja na superfície, no subsolo, nos cumes nevados ou nos polos da Terra.

Chamamos a comprometer-se na transformação de raiz desse sistema, para trocá-lo por outro, baseado no respeito a todos os seres vivos que compartilhamos a vida no planeta, cuidando do desenvolvimento da vida das gerações presentes e futuras.

Ou nós salvamos todas e todos, ou não se salva ninguém.

22 de julho de 2022
Santo Domingo, República Dominicana
Tradução de Beatriz Cannabrava – Revista Diálogos del Sur


Guilherme Ribeiro, jornalista e colaborador na Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Guilherme Ribeiro Jornalista graduado pela Unesp, estudante de Banco de Dados pela Fatec e colaborador na Revista Diálogos do Sul.

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