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Evo, Arce e MAS: urge reparar arestas em prol da estabilidade política boliviana

Disputa pelo controle do primeiro grande partido sul-americano de esquerda indigenista ameaça a governabilidade do país
Álvaro Verzi Rangel
Estratégia.la
Cidade do México

Tradução:

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O racha entre as lideranças de Evo Morales e Luis Arce tornou-se matéria judicial, depois que dirigentes camponeses impugnaram o congresso do Movimento ao Socialismo-Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP), programado pelo ex-presidente, que se realizou nos dias 3 e 4 de outubro no Trópico de Cochabamba.

A disputa entre Evo Morales, o dirigente histórico do partido majoritário e o presidente da República Luis Arce generalizou-se, fraturando o bloco de deputados e paralisando a câmara baixa da Assembleia Plurinacional. Este conflito político e institucional ocorre em um contexto de crise econômica causada pela queda nas exportações de gás.

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Todas as mudanças sociais, econômicas e estatais ocorridas neste primeiro quarto de século 21 na Bolívia são incompreensíveis sem a presença organizada do movimento popular, indígena, camponês e operário, que conta com sólidas organizações de base — sendo as mais fortes, as camponesas — e com uma capacidade de mobilização que foi decisiva nos momentos mais críticos deste ciclo político.

Mas, paralelamente a esta atitude vitalmente combativa de povo em movimento, apresentam-se sérias limitações para transcender a mera resistência e a reivindicação imediata.

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O congresso realizado em Lauca Ñ proclamou Evo Morales candidato presidencial para as eleições de 2025, decidiu não fazer nenhuma aliança para as mesmas e constatou a “auto expulsão” do partido do presidente Luis Arce e do vice-presidente David Choquehuanca, por não terem comparecido à assembleia partidária. Agora a impugnação do evento junto à Justiça Eleitoral pelos partidários do mandatário judicializou a disputa política, ameaçando transformá-la em um conflito institucional.

Em uma reunião realizada simultaneamente em La Paz, Arce disse que era “um atropelo das organizações sociais que na realidade estão sendo despojadas de seu próprio instrumento político; há um desrespeito às organizações sociais, não se leva em conta esse caráter fundacional”.

Disputa pelo controle do primeiro grande partido sul-americano de esquerda indigenista ameaça a governabilidade do país

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Morales e Arce formaram entre 2006 e 2019 uma dupla de êxito: o primeiro como chefe de Estado e o segundo como ministro da Economia




A governabilidade

O MAS deve encontrar uma solução política para sua crise, para que não se rompa a constitucionalidade da Bolívia, não se facilite um novo golpe de estado e uma renovada ameaça para a democracia sul-americana.

A disputa pelo controle do primeiro grande partido sul-americano de esquerda indigenista ameaça a governabilidade de um país lastreado pela debilidade de suas instituições e por uma incerteza econômica que tende a agravar-se.

O setor de Arce conseguiu que o Tribunal Constitucional decretasse nula a eleição de Morales como candidato. Os seguidores de Morales denunciaram a sentença como “fraudulenta”. A bola está agora com o Tribunal Eleitoral, que ordenará ao MAS que organize um novo congresso. Se não for assim, tem atribuições para cancelar sua sigla, o que mergulharia a Bolívia em uma instabilidade política de grandes dimensões.

Como a oposição está muito dividida, não aparecem modelos alternativos, mas o tempo urge e, se o movimento popular boliviano não solucionar sua crise de direção, mergulhará o país em uma nova crise constitucional.

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As eleições de 2020, depois do golpe de Estado na Bolívia, que deram como grande vencedor o Movimento Ao Socialismo, não foram suficientes para recompor tudo o que a crise de 2019 rompeu. A ruptura agora é tão profunda que chegou à única coisa que lhe faltava dividir: o próprio MAS.

O caminho de Evo Morales tem mais obstáculos que antes, pois uma boa parte de seu partido, ocupado em administrar o Poder Executivo, lhe fez saber de muitas formas que já não precisa dele e que se opõe a seu personalismo ou a qualquer culto à personalidade. Mas seus partidários veem nele um líder imprescindível.

Morales é um político com longa experiência sindical e presidencial, razão pela qual não se explica vê-lo constantemente irritado. Suas denúncias sobre possíveis perseguições judiciais ou sobre a ineficácia governamental chegam a ser simplistas como para facilitar que os meios de comunicação mostrem-no como um ambicioso personalista, mais do que como uma heroica vítima.

O sociólogo, político e filósofo boliviano René Zavaleta, docente nas Universidades de San Andrés, Oxford, Vincennes, Santiago, UAM e UNAM, e diretor fundador da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, com sede no México, refere-se a ela como “a incapacidade de “transformar a força social efetiva em medidas concretas de transformação social”.

Este movimento de massas, que derrota o regime neoliberal de partidos, que derrota as sedições direitistas, age depois como força social no voto a favor do MAS… mas é como se deixasse de existir no dia seguinte.

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Dadas as dimensões históricas do processo político aberto desde a chegada do MAS ao governo, não é exagero considerar que um desarranjo dos aparatos masistas pode levar sua base social à desmoralização e a uma derrota que exceda em muito o mero revés eleitoral.

Precisamente, e pelas dimensões do perigo, é urgente orientar todos os esforços — fundamentalmente no interior do movimento operário, camponês e popular — a discutir novas agendas políticas que indiquem aspectos-chave e de interesse comum, como elevar a qualidade dos serviços educativos e de saúde, reformar a fundo a justiça estatal e fortalecer os direitos democráticos das mulheres, da juventude e dos povos indígenas. A passividade e a subordinação às sórdidas disputas dos aparatos políticos é um caminho pavimentado rumo à divisão, à descrença e, finalmente, à derrota.

Morales e Arce formaram entre 2006 e 2019 uma dupla de êxito: o primeiro como chefe de Estado e o segundo como ministro da Economia. Depois do golpe civil-militar que em 2019 os tirou do poder, Arce foi o eleito por Morales como seu sucessor. Três anos depois, a relação entre ambos está rompida.

Arce decidiu quase desde o início de seu Governo distanciar-se de seu mentor. Disse que este não teria “papel algum” nas decisões políticas, relegando-o a coordenador das dezenas de sindicatos e agrupamentos sociais que integram o MAS. Morales interpretou isto como uma traição. Agora, a expulsão de Arce, a que se somaram outros 20 deputados afins ao Governo, foi o último capítulo desta luta interna.

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Morales prometeu aos seus que “o MAS vai recuperar a revolução para salvar a pátria novamente”. O ex-presidente relembra 2006, quando a nacionalização dos recursos petroleiros permitiu à Bolívia o crescimento sustentado da economia, ao mesmo tempo em que reduzia a pobreza e o desemprego. Parte deste êxito Morales deve a Arce, a quem agora não perdoa sua decisão de encabeçar um processo de renovação interna no movimento que encabeça há mais de 30 anos.


O que virá

Os dirigentes das Seis Federações do Trópico de Cochabamba (uma poderosa organização de produtores cocaleiros onde Morales nasceu como dirigente) já advertiram o governo de Arce que adotarão ações radicais caso Evo fique inabilitado para competir em 2025.

Arce devia ser só uma figura transicional, mas tem o poder do Estado e maneja recursos. Ninguém soube encontrar uma fórmula de unidade entre a condução do Estado e a do movimento de massas, e assim foi desde que, no final de 2021 os dois dirigentes começaram a divergir até chocarem-se.

O evismo não está disposto a esperar 2024, quando tem que se realizar na Bolívia as Primárias Abertas e Secretas (PAS, não obrigatórias). Provavelmente Evo tema uma decisão do TCP interpretando a Constituição de um modo que iniba sua candidatura. Aliás, Evo  é rejeitado por 60% da população urbana e tem poucas chances de ganhar uma eleição.

Por sua vez, para Luis Arce tampouco é fácil, já que, se quiser manter o apoio popular, não pode descuidar da gestão.

Eva Copa y Adriana Salvatierra

Superar a fratura atual implica que tanto Evo como Arce deem um passo atrás. Bem poderiam ser substituídos pela geração intermediária de dirigentes em que assoma, primeiro que todos, Andrónico Rodríguez (34 anos), vice-presidente da Federação de Cocaleiros do Trópico de Cochabamba (ou seja, segundo de Evo) e presidente do Senado, onde atuou com suma prudência, tecendo acordos (também com a oposição) e mantendo o funcionamento da câmara.

Imediatamente atrás de Andrónico assomam três mulheres: Adriana Salvatierra, Eva Copa e Gabriela Montaño. A primeira (34 anos) e a segunda (36 anos) foram sucessivamente presidentas do Senado e a segunda é hoje prefeita de El Alto, o populoso subúrbio de La Paz. A terceira (47 anos) também já exerceu a presidência do Senado e depois diversos cargos. Será a hora das mulheres?

Álvaro Verzi Rangel | Sociólogo e analista internacional, Codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sênior do Centro Latino-americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la)
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Álvaro Verzi Rangel Sociólogo e analista internacional, é codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sênior do Centro Latino-americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la).

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