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Falsas promessas de Keiko Fujimori não são suficientes para esconder passado de perseguição aos direitos trabalhistas

A candidata do partido Fuerza Popular oculta que na Década Dantesca o governo de seu pai arrasou um a um com todas as garantias trabalhistas
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Em distintas circunstâncias, os trabalhadores foram mencionados no marco do confronto eleitoral que se encerará no próximo 6 de junho.

Na segunda-feira passada, à tarde, Pedro Castillo teve um encontro com a CGTP e os sindicatos, no Centro Recreacional da Construção Civil, em Huachipa.

Dois dias antes, na porta do Cárcere de Chorrillos, Keiko Fujimori se referiu também aos trabalhadores, falando – surpreendentemente – dos “direitos trabalhistas”.

Além dessas mensagens dirigidas a um destinatário definido, um “analista político” de “Peru21” considerou oportuno filosofar um pouco, referindo-se tibiamente à relação capital-trabalho que tantos desvelos suscitam em nosso tempo.

Cabe sublinhar o fato de que todas as referências, de um ou de outro signo, tiveram como pano de fundo um tema que habitualmente se omite, e comumente se deforma: a luta de classes.

É sabido que a expressão assusta a uns e gera expectativa a outros. Mas com frequência é tomada como uma alusão a acontecimentos que melhor deviam não ocorrer.

Acontecem, no entanto, desde épocas milenares. Os estudiosos a remetem até o aparecimento da propriedade privada sobre os meios de produção, e a assinalam como a fonte natural das contradições sociais.

Há alguns que a adjudicam a Carlos Marx, e preferem persignar-se quando a evocam; mas o Titán de Tréveris, já por volta de 1850, deixou claro que seu mérito não era tê-las descoberto, mas sim mostrá-las como o motor da história.

No Peru também o é, a despeito da opção de certos indivíduos que preferem fechar os olhos diante da realidade, porque pensam que afeta os seus interesses, bem supremo que estão prontos a cuidar a qualquer preço.

Quando Pedro Castillo alude à peremptória necessidade de vincular o sindicalismo com a política, está assumindo uma clara opção de classe. Consciente disso, assegura que “durante muitos anos nos meteram na cabeça que se pode fazer sindicalismo sem fazer política”.

Diante disso, reivindica a necessidade de fazer política como uma opção irrenunciável, e sustenta que deve ser exercida com um propósito definido: construir um Poder Popular que oriente o rumo do Estado.

Isso é possível – diz – enquanto sejamos capazes de trabalhar de comum acordo para abordar uma tarefa concreta: mudar o Peru, para forjar uma sociedade mais justa no plano social, econômico, político e cultural.

Podemos fazê-lo – assinala – “falamos a mesma linguagem e estamos em condições de forjar a unidade. Para isso, temos que trabalhar, não nos intimidar; e lutar”.

O candidato de Peru Livre não faz promessas, nem busca aplausos. Procura chegar à consciência dos trabalhadores para fazê-los refletir. Conseguir isso, diz com acentuada convicção, é tarefa de todos. Age, então, como alguém que tem opção de classe, instinto de classe e sentimento de classe.

Keiko Fujimori em troca, promete. Assegura, com o maior desenfado, que respeitará os direitos trabalhistas. Mas oculta que na Década Dantesca o governo de seu pai arrasou um a um com todos os direitos trabalhistas; a estabilidade no trabalho, a negociação coletiva, a jornada de trabalho, o reajuste salarial, a vigência da organização sindical. Inclusive assassinou aleivosamente dirigentes sindicais, como Pedro Huilca. Alguém poderá acreditar em suas promessas?

E esquece também que sua representação parlamentar votou a favor de leis ominosas; e que inclusive Rosa Bartra, sua principal porta-voz nessa época, propôs uma delas: “A lei do escravo” como a chamavam e consistia em obrigar a todos os universitários a trabalharem nas empresas, sem remuneração alguma, durante um ano, como requisito para formar-se.


Adicionalmente, esses escravos deviam pagar uma soma em dinheiro às empresas para que “permitissem” trabalhar nelas.

Com essa concepção na cabeça, a senhora K. assegura que luta de classe é fonte de ressentimento e ódio. E que sua negação é algo assim como esperança e amor. O que ela quer dizer é muito simples: vou me encarregar de explorá-los a meu bel prazer, mas me amem, não me odeiem, que eu haverei de protegê-los. Alguém pode levar a série tamanha burla?

O esquema é simples. Quando os donos das empresas exploram seus operários isso responde “às leis de mercado de trabalho”. E quando os assalariados protestam, isso é “luta de classes”.

Como diz Juan Manuel Robles “se aceitam as manifestações políticas geradas pelo medo, mas não as inspiradas pela rebeldia”.

Para Peru 21, não se pode falar de “ricos e pobres” porque isso implica “alentar a luta de classes”. É delito. Então, há que falar de paz. Além disso, assegura que o investimento – quer dizer o dinheiro – “gera impostos, trabalho e salários”. Está em sua lógica. A lógica dos capitalistas.

A verdade é outra; o trabalho é que gera riqueza. Graças a ele, os “investidores” têm recursos; e os povos, bem-estar e desenvolvimento. É difícil entender isso?

Por isso, na perspectiva de uma a cada dia mais segura mudança social, o papel dos trabalhadores será decisivo. A preparar-se…!

* Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru.

** Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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