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Falta compreensão do governo chileno sobre povo e dirigentes mapuche, explica historiador

Fernando Pairicán, de ascendência mapuche, aponta ainda que existência de presos políticos impede confiança do movimento nas instituições do país
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

Na última quinta-feira (25), quase simultaneamente, o Juizado de Garantia de Temuco formalizava a prisão do dirigente indígena mapuche Héctor Llaitul Carrillanca, enquanto o presidente chileno Gabriel Boric reiterava pela enésima vez que seu governo tem a vontade de conseguir acordos reparatórios com o povo mapuche e está disponível para “dialogar com quem seja necessário”. 

Minutos antes de que Boric se referisse à detenção, dois dias antes, do líder da organização rebelde Coordenadoria Arauco Malleco (CAM), a juíza Leticia Rivera Reyes comunicava que acolhia a petição da promotoria de imputá-lo por cinco delitos de furto, usurpação violenta de terrenos, apelos à desestabilização do governo e atentado contra a autoridade, além de decretar a prisão preventiva por 30 dias por considerá-lo “um perigo para a segurança da sociedade” e pelo risco de fuga. 

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A promotoria sustentou suas acusações com fotografia, provas periciais balísticas, interceptações telefônicas, entrevistas e declarações formuladas pelo acusado, nas quais defende a sabotagem, a resistência armada e a “recuperação territorial”. 

Enquanto isso, Boric, que se encontrava na cidade de Copiapó, 800 quilômetros ao norte de Santiago, proclamava sua intenção de negociar com os mapuche e se referia duramente a Llaitul e aqueles que optaram pela via armada. 

Prisão de líder mapuche Llaitul é continuidade da estratégia de repressão do Estado chileno

“Quero dizer de maneira clara e firme que no Chile ninguém está sobre a lei e que nosso governo tem a vontade sincera de avançar para uma solução profunda no conflito que temos no Sul. Que não é só pela via do enfrentamento, da violência e da repressão, mas tem a ver com comunidades postergadas, direitos negados, povos despojados”, disse.

“Como governo, vamos dialogar com quem seja necessário com a condição de que seja o diálogo, com respostas concretas, compromissos verificáveis, com mudanças, e sem violência, o caminho a seguir”, enfatizou. 

Acerca de Llaitul, disse que o líder mapuche “reiterou de maneira pública sua nula disposição e da organização que lidera de abandonarem a via violenta e, portanto, como corresponde a todo cidadão, deve responder à justiça; isso é que o está sucedendo em nosso país, estamos fazendo funcionar as instituições, porque a violência não é o caminho e aqueles que queiram segui-lo se enfrentarão a todo o estado de direito como corresponde”. 

Desde a detenção de Llaitul na “macrozona sul” do Chile, o Wallmapu mapuche, onde acontece o conflito, se sucederam pelo menos quatro ataques armados incendiários contra caminhões, maquinaria, propriedades florestais e agrícolas, além de cortes de caminhos. 

Governo do Chile enquadra organizações de povos mapuche como terroristas

Também suscitou uma voragem de acontecimentos e reações políticas, com todos os setores tentando colher com oportunismo, histrionismo e também mentiras brutais no rio agitado de suas implicações, buscando impactar a força e contra a ratificação da constituição chilena no plebiscito de 4 de setembro.

Por exemplo, um senador ultradireitista assinalou que a nova carta magna e a justiça indígena que ela prevê não contempla o julgamento de delitos penais que Llaitul seria liberado “em cinco minutos”. Outro, deu conta dos vínculos da CAM com o “chavismo”. 

A maior sequela dos acontecimentos foi a queda da ministra de Desenvolvimento Social, Jeannette Vegas, após filtrar-se à imprensa que, entre as interceptações telefônicas ao dirigente mapuche, foi encontrado um áudio em que uma assessora de Vegas falava com Llaitul para solicitar que atendesse a funcionária. 

Fernando Pairicán, de ascendência mapuche, aponta ainda que existência de presos políticos impede confiança do movimento nas instituições do país

La Jornada
Fernando Pairicán: Independente de "aprovo" ou "recuso" à nova Constituição, povo mapuche vai seguir lutando por direitos fundamentais

Entrevista com historiador mapuche Fernando Pairicán

Com as brasas ainda ardentes da detenção e prisão preventiva do dirigente mapuche Llaitul, o Chile se aproxima do plebiscito constitucional, que acontece no próximo domingo, 4 de setembro, com as forças do “aprovo” e do “recuso” tentando capitalizar o caso. A detenção do líder da Coordenadoria Arauco Malleco (CAM), talvez a menos radical das organizações pela ruptura, é também a expressão mais recente do fracasso do presidente Gabriel Boric em persuadir o mundo indígena a estabelecer uma mesa de diálogo, apesar de seus permanentes apelos e ao reconhecimento que houve um despojo histórico pelo Estado que merece reparação. 

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Em conversa com o La Jornada, o historiador de ascendência mapuche Fernando Pairicán analisa suas implicações.

“A gente nunca compartilha a detenção dos dirigentes do movimento mapuche, independentemente de ter simpatia ou não, porque tem sido uma constante que só radicalizou o contexto político no qual se situou o povo mapuche sob o Estado colonial chileno. Nesse âmbito, não se pode aventurar quais vão ser as consequências daquilo.

Llaitul, como figura de uma parte do movimento político autonomista, viveu a experiência da prisão política. Isto não é novo, é parte de uma política que se gerou sobre essa organização. O contexto distinto é que a CAM não compartilha o momento democrático que o Chile vive, que é o debate de uma nova constituição e um plebiscito de saída no qual participa um setor importante do movimento mapuche”, explica Pairicán. Confira a entrevista a seguir:

Aldo Anfossi: A prisão do líder da CAM pode gerar unidade com outras organizações pela ruptura?
Fernando Pairicán: O apelo à unidade foi colocado em 2021, no funeral de Pablo Marchant (um combatente da CAM que morreu em um enfrentamento com a polícia de Carabineiros) no qual participaram líderes de organizações mapuche que estão pela saída política do controle territorial e a via da ruptura da autonomia, mas continuam agindo individualmente. Não vejo antecedentes de que vá suceder, mas é uma instância possível porque o cenário está aberto.

A detenção e o plebiscito: quanto estima que é a conexão entre esses fatos?
Llaitul sempre se mostrou bem crítico ao processo constituinte, ao governo de Boric e às cadeiras reservadas mapuche, as quais o dirigente maltratou com um discurso bastante violento dizendo, que representam um indigenismo tresnoitado e parte do círculo do colonialismo. Nesse sentido, o cenário não se modifica com sua detenção, ele nunca esteve de acordo com o processo constituinte nem com o trabalho que fizeram as e os constituintes mapuche.

No Chile, revolta mapuche se estende e pode refletir na votação da nova Constituição

A CAM pode radicalizar-se ou tentar operações de maior escala?
A CAM sempre fez conviver a clandestinidade com seus espaços públicos, é uma organização que tem experiência em etapas de coerção. Esta seria uma terceira etapa de clandestinidade. Viveu a prisão política e a aplicação de leis de exceção; ou seja, tem uma experiência política para reverter este cenário adverso.

O diálogo entre governo e organizações mapuche está encerrado?
Não creio nisso, sempre há instâncias de diálogo; (as organizações pela ruptura) são uma expressão do movimento, mas não de seu conjunto. Outra expressão está no processo constituinte, que demonstrou capacidade de diálogo e de condução para gerar uma constituição de direitos no marco dos estatutos internacionais indígenas. A CAM é uma voz dentro do povo mapuche que, com 20 anos de história, tem uma validade, mas não é representante de 100% da população mapuche; e nenhum movimento mapuche representa a totalidade de seu povo, há uma diversidade que se canaliza através de distintas expressões políticas e de outras instâncias”.

Por que não se produz a instalação desse diálogo, o que o bloqueia?
Há falta de compreensão do governo sobre o contexto do movimento mapuche e seus dirigentes; age de maneira apurada, precipitada, não consegue uma instância profunda. E também a intransigência, neste caso, da CAM. Mas também está a existência de presos políticos mapuche e isso também dinamita confianças. O governo deve dialogar com os prisioneiros políticos mapuche, deve avançar sobre os legítimos direitos que os povos originários possuem. Aí há um debate que a esquerda não conseguiu superar, se realmente vai defender a plurinacionalidade e os direitos coletivos ou vai ceder diante da campanha do recuso. 

O resultado do plebiscito será determinante?
Em parte, porque a decisão de um setor mapuche de participar no processo constituinte mostra a capacidade de estender pontos, mas se ganhar o recuso o povo mapuche não perde muito mais do que tem. Em qualquer das duas condições, o povo mapuche vai seguir lutando para conquistar direitos fundamentais.

Como na era Pinochet, militares chilenos ocupam Wallmapu, terra ancestral Mapuche

Uma vitória do recuso radicalizaria os povos indígenas?
É provável, porque dinamita a confiança sobre os espaços institucionais. É um momento histórico que o Chile perde, não o povo mapuche.

Após o plebiscito, se prevê um importante ajuste ministerial. O presidente deveria incluir pessoas que viabilizem um diálogo de paz?
Creio que sim. Há uma data que se aproxima, no ano de 2025 serão comemorados 200 anos do Tratado de Tapihue (em janeiro de 1825, o governo do nascente Chile independente, e o cacique principal Juan Mariluán, subscreveram o primeiro de vários acordos de paz entre a república e os mapuche). Seria um bom momento para refletir sobre as relações interculturais, reconhecer o parlamento como forma de diálogo e avançar no reconhecimento dos direitos coletivos dos povos originários.

Uma troca de gabinete pode dar um espaço e a oportunidade para que se incorporem pessoas que tenham uma reflexão maior sobre os direitos indígenas que eu não necessariamente vejo no governo, em seu plano que chamam “do bom viver”, que é continuidade dos governos anteriores.

Aldo Anfossi | La Jornada
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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