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Guerra total entre Israel e Líbano pode depender da vitória de Trump nos EUA

Israel não pode travar uma guerra total contra o Líbano sem um aumento massivo da ajuda dos Estados Unidos. Se Trump ganhar as eleições, Netanyahu buscará um apoio livre das limitações e pressões que a administração Biden tentou impor recentemente
Gilbert Achcar
Viento Sur
Líbano

Tradução:

Ana Corbesier

As últimas semanas testemunharam uma forte escalada da troca de fogo entre a resistência libanesa e as forças israelenses no sul do Líbano/norte do Estado sionista.

Esta escalada foi acompanhada por uma intensificação das declarações e intimidações de ambas as partes, com crescentes ameaças israelenses de lançar uma guerra total contra todas as zonas em que o Hezbollah está implantado e de lhe infringir um destino similar ao da Faixa de Gaza em termos de intensidade da destruição.

No entanto, ainda que fontes do exército israelense afirmem estar plenamente preparados para travar esta guerra, essas afirmações contradizem os esforços para aumentar o número de reservistas mobilizados de 300 mil para 350 mil, elevando a idade de saída para a reserva (de 40 para 41 anos para os soldados, de 45 para 46 para os oficiais e de 49 para 50 para médicos e membros das tripulações aéreas).

Além disso, esses esforços continuam se chocando com a insistência do comando militar sionista na necessidade de pôr fim à isenção do recrutamento para os estudantes de yeshiva ultraortodoxos, o que aumentaria o número de soldados sem incrementar a carga sobre as famílias e os postos de trabalho dos atuais recrutas e, portanto, sobre a economia do país.

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Israel intensifica esforços militares no sul do Líbano

Assim, ainda que os esforços para aumentar a mobilização indiquem certamente a determinação da cúpula militar de completar os preparativos para uma guerra total contra o Líbano, eles indicam ao mesmo tempo que a escalada de ameaças por parte israelense não reflete uma intenção real de lançar uma guerra em grande escala contra o Líbano nas circunstâncias atuais.

Sobretudo porque todos estão cientes de que o custo de uma guerra desse tipo para o Estado sionista será muito maior do que o custo de invadir Gaza, tanto em termos de custo humano (mesmo se o exército sionista se abstiver de invadir território libanês e se limitar a um bombardeio intensivo, o número de vítimas dos bombardeios dentro do Estado de Israel será inevitavelmente maior do que na guerra contra Gaza), quanto do custo militar (o tipo de equipamento que o exército sionista precisará utilizar contra o Hezbollah) e do custo econômico.

A dependência de Israel da ajuda dos EUA

Esta realidade cria um grave problema para Israel, já que não pode travar uma guerra total contra o Líbano sem um aumento massivo da ajuda dos Estados Unidos em comparação com a grande ajuda já proporcionada por Washington na guerra genocida travada contra Gaza.

Além disso, dado que o Hezbollah está vinculado organicamente a Teerã, uma guerra total das forças sionistas contra o Líbano poderia se ampliar para incluir o Irã, que poderia disparar foguetes e aviões não tripulados (drones) contra o Estado de Israel, como fez no último mês de abril.

À luz desta dependência do ataque israelense da ajuda estadunidense, a repentina escalada retórica de Netanyahu contra a administração Biden nos últimos dias é uma prova mais da falta de vontade do governo sionista de lançar uma guerra total contra o Líbano nas atuais circunstâncias.

O comportamento de Netanyahu em relação a Washington contradiz a necessidade de seu exército contar com um apoio estadunidense ainda maior do que recebeu até agora.

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Netanyahu e a aposta política pelo futuro de Israel

Assim, ficou claro que Netanyahu aposta na vitória de Donald Trump para um segundo mandato nas eleições estadunidenses previstas para o início de novembro.

O premiê está atuando como um jogador que decidiu empenhar tudo o que tem na mesa, apostando tudo ou nada. Além disso, Netanyahu está se beneficiando politicamente de sua própria escalada de tensões contra a administração Biden, o que aumenta sua popularidade ao se apresentar como um governante sionista que resiste às pressões externas mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Ele está se preparando para uma nova rodada deste jogo, mostrando o importante apoio político de que goza no Congresso estadunidense contra a administração Biden quando for a Washington pronunciar seu quarto discurso ante uma sessão conjunta da Câmara de Representantes e do Senado em 24 de julho.

Com Trump ou sem Trump

Se Trump ganhar as eleições, Netanyahu buscará um apoio livre do tipo de limitações e pressões que a administração Biden tentou impor a ele recentemente.

Se Trump não ganhar, é provável que Netanyahu negocie com a administração Biden e a oposição sionista para obter garantias que lhe permitam romper sua dependência da extrema direita sionista em seu governo e formar um gabinete de “união nacional” que presidiria até as próximas eleições de 2026.

A oposição, por sua vez, tentará sem dúvida se desfazer dele, dividindo a coalizão em que se baseia seu atual governo na Knesset e forçando eleições antecipadas.

Não pensem, no entanto, que a disputa dentro da elite política sionista é entre falcões e pombas: é mais entre falcões e abutres. Ambas as partes, Netanyahu e a oposição, acreditam que não existe uma terceira opção em sua frente norte.

A menos que o Hezbollah consinta e aceite se retirar para o norte, aplicando a Resolução 1701, adotada pelo Conselho de Segurança da ONU depois da guerra de 33 dias de 2006, ou se Israel travar uma guerra encarniçada contra o Hezbollah a um alto custo, que todos consideram necessário para reforçar a capacidade de dissuasão de seu Estado, que foi rebaixada significativamente no front libanês desde 7 de outubro.

O original árabe foi publicado em Al-Quds al-Arabi em 25 de junho de 2024. 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Gilbert Achcar

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