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Indocumentados mexicanos serão os mais atingidos pela nova política migratória dos EUA

Governo comandado pelo democrata Joe Biden não foi capaz de elaborar estratégias de longo prazo para a questão migratório
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Os indocumentados mexicanos serão os mais afetados pelos impactos imediatos das novas políticas de migração anunciadas pelo governo de Joe Biden nesta semana, seguidos pelos centro-americanos, indicam especialistas enquanto que novo informe afirma que o problema fundamental é que os Estados Unidos têm focado na dissuasão no curto prazo sem desenvolver estratégias necessárias para abordar os desafios da migração no século 21

“Todos vão querer falar dos cubanos, venezuelanos, mas serão os mexicanos que terão mais dificuldade em ingressar nos Estados Unidos, e depois deles os centro-americanos”, comentou Ariel G. Ruiz Soto, analista de políticas no Migration Policy Institute em Washington, sobre as novas medidas que estão sendo implementadas para substituir o chamado Título 42 que imperou durante a pandemia no manejo do fluxo migratório na fronteira e que vence em 11 de maio. 

Cresce fluxo de indocumentados aos EUA e país prepara novas políticas de repressão

Ruiz Soto explicou, em entrevista ao La Jornada, que no mês de março de 2023, a Patrulha Fronteiriça de Estados Unidos registrou 162 mil “encontros” com migrantes indocumentados que tentavam cruzar a fronteira por acessos não autorizados, e desse total 71.300 era mexicanos – o número mais alto.

Com os atuais procedimentos sob o chamado Título 42, aqueles que tentam cruzar de maneira não autorizada são expulsos para o México e depois podem tentar outra vez sem consequências legais, mas a partir de 11 de maio, sob as novas medidas estabelecidas pelo chamado Título 8 de uma lei estadunidense, os que tentem cruzar serão detidos e deportados ou “removidos” com uma proibição de tentar de novo durante cinco anos.

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Se o migrante for capturado em nova tentativa de ingressar, enfrenta uma proibição de 10 anos, e se violar isso poderia enfrentar uma condenação à prisão. Por isso, afirma Ruiz Soto, o chamado Título 8 que estará vigente a partir de 11 de maio “é um dissuasivo significativo para a migração mexicana”. 

Ao julgar pelo que tem ocorrido anteriormente, Ruiz Soto comentou que é de se esperar que a grande maioria de mexicanos tentando cruzar a fronteira sem autorização serão expulsos rapidamente e, daqueles que solicitarem asilo, menos de 20% terá êxito. Os provenientes de El Salvador, Guatemala e Honduras também serão expulsos rapidamente, provavelmente retornados aos seus países por avião. 

Governo comandado pelo democrata Joe Biden não foi capaz de elaborar estratégias de longo prazo para a questão migratório

AZCentral
"Políticos têm que abandonar a fantasia de soluções de curto prazo", afirma Aaron Reichlin-Melnick, diretor do American Immigration Council




Reunificação de famílias

As autoridades estadunidenses esperam que, com outra medida de sua nova política, até 100 mil pessoas de El Salvador, Guatemala e Honduras, que solicitaram ser reunificadas com seus familiares nos Estados Unidos, sejam admitidas condicionalmente. Isso reduzirá o fluxo da migração indocumentada dessa região. 

Mas se o volume do fluxo indocumentado se mantiver nos níveis de março, os Estados Unidos terão que gastar muito dinheiro para deportá-los a seus países, apontou Ruiz Soto.  É muito mais barato remover aqueles que tentam cruzar ao México que enviá-los de regresso aos seus países de origem na América Central, e ainda mais com os provenientes da Índia ou da Rússia.

Biden está disposto a políticas ainda mais agressivas contra imigrantes indocumentados

Por isso, o acordo entre Estados Unidos e México anunciado esta semana que permitirá deportar ou remover para o México até 30 mil migrantes provenientes de Venezuela, Haiti, Cuba e Nicarágua a cada mês é tão importante para o governo de Biden. Mais do que isso, essa política inclui incentivos para que imigrantes desses quatro países solicitem através de canais legais o ingresso aos Estados Unidos, e Washington se comprometeu a aceitar até 30 mil a cada mês. 

Funcionários dos governos dos Estados Unidos e do México ressaltam que esta combinação de medidas de dissuasão e incentivos têm logrado reduzir em um dramático 95% o número de imigrantes indocumentados desses quatro países que tentam cruzar a fronteira. 

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Mas o analista Adam Isacson, da Washington Office on Latin America, assinala que o fluxo de imigrantes não baixou em 95%. “A migração desde Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela poderia ter se reduzido agudamente na fronteira Estados Unidos-México como resultado de expulsões agressivas sob o Título 42. Mas as expulsões absolutamente não dissuadiram a migração. Estão fugindo, mas estão parados” no caminho, afirmou.

Muitos dos detalhes do acordo entre Estados Unidos e México desta semana não foram tornados públicos. Sob a atual política, os migrantes desses quatro países eram expulsos ao México sob a chamada emergência de saúde pela covid e não eram processados formalmente nos Estados Unidos. Depois de 11 de maio, esses migrantes serão removidos ou deportados sob o Título 8 depois de serem processados pelas autoridades estadunidenses. A decisão do México nesta semana de aceitar dezenas de milhares de imigrantes processados nos Estados Unidos é algo novo e ainda não se contam com detalhes.


Daqui um mês

No próximo mês serão vistas as primeiras mudanças, declarou Aaron Reichlin-Melnick, diretor de políticas da organização independente American Immigration Council. “Há muita gente encurralada no México esperando o fim do Título 42”. Prognostico que haverá um incremento significativo de migrantes tentando cruzar a fronteira imediatamente depois de 11 de maio, mas que algumas das novas medidas – novos canais legais para certas nacionalidades, mais pessoal para atender as solicitações de asilo, escritórios regionais, entre outras – poderiam reduzir o fluxo indocumentado no futuro. 

Porém o problema de fundo não são as virtudes ou carências das medidas imediatas. “O que mais se necessita é um giro maior… Os políticos têm que abandonar a fantasia de soluções de curto prazo”, sublinhou Reichlin-Melnick. O American immigration Council difundiu hoje um novo informe oferecendo um mapa da rota para construir “um sistema de asilo funcional, flexível e ordenado que, ao mesmo tempo, assegura um manejo fronteiriço efetivo”.

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Enquanto isso, o secretário de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas, anunciou que viajará esta semana à fronteira do Texas com o México como parte dos preparativos para enfrentar, no prazo imediato, os efeitos esperados com o fim da política fronteiriça de controle migratório da era de Donald Trump.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca festejou a colaboração conjunta com o México na transição das políticas na fronteira mas recusou-se a dar mais detalhes sobre o acordo, com a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, indicando: “não vou abordar as discussões diplomáticas que estão ocorrendo” sobre o tema entre os dois países.

David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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