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Massacre: Ação policial-militar em Senkata resulta em ao menos 8 mortos e 30 feridos

Lideranças indígenas da comunidade de El Alto afirmam que a quantidade de projéteis e a impunidade indicam que o número de vítimas pode ser ainda maior
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

A mando da autoproclamada presidenta da Bolívia, Jeanine Áñez, a megaoperação policial-militar realizada na tarde da terça-feira (19) no terminal de combustíveis de Senkata, em El Alto, deixou ao menos oito moradores mortos e mais de 30 feridos.

O banho de sangue foi perpetrado, segundo os golpistas, porque a sede do governo na capital, La Paz, “já estava sem gasolina e diesel há três dias” e era preciso abrir passo aos caminhões para a retirada do cada vez mais precioso e escasso material.

Conforme denunciam os manifestantes que defendiam a unidade da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), empresa nacionalizada pelo governo de Evo Morales, as tropas golpistas chegaram em comboio, apoiado por helicóptero, e começaram a disparar desde um dos inúmeros tanques.

“Infelizmente, há mais gente assassinada pelas tropas que tiveram seus corpos jogados, escondidos dentro do terminal para não fazer número”, denunciou ao HP o morador Joaquim Rojas – um dos muitos lutadores sociais que se encontra atualmente na clandestinidade. “Uma senhora vendia sucos para jovens que protestavam fazendo a segurança do local. Assim como ela, muitos perderam a vida de forma covarde”, acrescentou.

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A defensora dos direitos humanos, Bettyna Valencia, explicou que “a polícia levou três pessoas mortas, mas que fará com que seus corpos desapareçam. “As tropas estão atirando em nós desde helicóptero, estão todos armados, completamente desequilibrados”, revelou.

De acordo com a Defensoria do Povo, das oito vítimas fatais, só duas tinham sido identificados até o final da noite da terça-feira: os jovens Deivid Posto Cusi e Edwin Jamachi Paniagua. Mais do que estrondos e explosões contra suas casas, os moradores sofreram na própria pele o despejo de bombas de gás e disparos indiscriminados de balas. Oportunisticamente, setores da Igreja tentaram tomar à frente de um hipotético “processo de negociação” com o governo, atraindo a ira da população.

Lideranças indígenas da comunidade de El Alto afirmam que a quantidade de projéteis e a impunidade indicam que o número de vítimas pode ser ainda maior

MAS – Movimiento al Socialismo / Facebook reprodução
As tropas golpistas chegaram em comboio e começaram a atirar indiscriminadamente

Imposição de um silêncio midiático

A quantidade de projéteis e a impunidade – diante do completo amordaçamento da imprensa local – alertam as lideranças da comunidade de El Alto, apontam que o número de falecidos pode ser superior. Recentemente a impostora que se arvora ministra da Comunicação ameaçou de punir os jornalistas – nacionais e estrangeiros – com toda a ilegalidade de um Estado sem direito, acusando a quem informar de “sedição”.

Em vídeo publicado por uma rádio da comunidade, duas mulheres em prantos reclamam de militares que lhes impediram de ao menos resgatar o corpo de um falecido. Ao que um dos uniformizados responde cinicamente: “Vamos fazer a autópsia da lei, vamos saber por que morreu”.

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Até o Hospital Boliviano Japonês do Distrito 8 chegaram dez pessoas feridas – à bala, apontam as denúncias -, duas com gravidade, pelo que foram transferidos para outros centros de saúde, informou outra rádio local. No hospital de Kenko foram confirmadas outras cinco.

Outro vídeo mostra um médico tentando prestar atendimento, enquanto as forças militares tentam impedi-lo com balas. Com a voz entrecortada, Aiver Huaranca contou que as centenas de policiais e militares não respeitaram nem mesmo seu uniforme médico e clamou por ajuda, uma vez que não há profissionais de saúde no local.

Barrando os primeiros socorros

“É muito triste o que está se passando aqui, no Distrito 8. No momento em que eu estava tentando prestar os primeiros socorros que ele merecia, recebi também disparos. Não podem reconhecer como é um médico quando está uniformizado e está atendendo aos feridos”, denunciou. Huaranca disse que lhe lastima profundamente “ver um companheiro morrer desta forma, porque morreu em minhas mãos”. “Ver que é um tiro de bala no coração, que triste. Peço neste momento a todo o pessoal médico, às enfermeiras, que venham aqui colaborar conosco, porque não temos médico, estou só”, alertou Huaranca e logo questionou: “onde estão os bombeiros e a Cruz Vermelha?”

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Também foi divulgado que uma equipe de reportagem foi agredida quanto tentou ingressar na zona de conflito. “Vamos lhe prender fogo, esta é a câmara da Bolívia Tv”, disse um dos marginais que protagonizou a barbárie em outro vídeo.

Logo após a retirada do comboio militar os moradores reativaram os pontos de bloqueio com fogueiras, paralisaram a operação do teleférico para La Paz e preparam para esta quarta-feira uma série de protestos “contra o golpe fascista”.

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Para a senadora Adriana Salvatierra, este é o momento das organizações de direitos humanos visitarem o país o mais rapidamente possível, “porque se estão silenciando a jornalistas e parlamentares que não se calam diante dos crimes do atual governo”.

*Leonardo Wexell Severo é jornalista e colaborador da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Leonardo Wexell Severo

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