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Mísseis dos EUA comprados por Bolsonaro só fazem sentido no Brasil da Terra Plana

Professor da USP André Martín destaca que defesa anti-tanques não tem qualquer utilidade no país a não ser financiar a indústria de guerra dos EUA
Amaro Augusto Dornelles
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

A despeito de golpismo e volúpia pelo acesso ao que o dinheiro possa trazer de bom — seja em real ou dólar — no poder, a banda podre das Forças Armadas do Brasil costuma se comportar como criança mimada ao receber presentes. No caso em questão, os mimos vêm de aduladoras potências estrangeiras, como os Estados Unidos quando a eles convêm. 

Em 9 de agosto, a agência Reuters informou que o Congresso dos EUA estava travando aprovação da venda de 220 lançadores de mísseis ao Brasil há meses. Os paladinos da democracia temiam novos ataques de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e o sistema de apuração brasileiros

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Um dia depois, os mesmos “democratas”, via Reuters, mudaram de ideia e liberaram a negociata. O arsenal não foi dado. Muito antes pelo contrário: foi comparado do Pentágono em dólares estadunidenses por 100 milhões. São 22 lançadores de mísseis, direito a explosivos arrasa-quarteirão para destruição de tanques. Emblema do logro. Que tanques, de quem? Hein

“Os militares do governo estão delirando”, dispara André Martin, debaixo de seus longos cabelos grisalhos, professor de geopolítica na USP. Pois ele recebeu a revista Diálogos do Sul para falar, pessoalmente, sobre essa negociata toda, o que demonstra o quão preocupado tem estado com que está sendo colocado em jogo nesta eleição. Ironicamente, no ano da comemoração de 200 anos de uma miragem jamais experimentada: a independência do Brasil.

Pindorama está de volta ao Mapa da Fome da ONU. Um terço de nossos conterrâneos driblam, ou tentam, a subnutrição todo dia. Enquanto o capitão mente nas redes (ditas) sociais, o bando de farda marcha na toada do planejamento geopolítico dos Estados Unidos, topando torrar o dinheiro da nação para manter empregos na maior indústria bélica da Terra. 

A mídia corporativa noticiou a venda dos 220 lançadores de mísseis “made in USA” com uma discrição notória, quando, mesmo especialistas militares do governo ianque garantem que o país não precisava desses mísseis. Mas não adianta. “O Brasil não poderia ter comprado armas quando falta alimento, educação e tecnologia como nunca por aqui”, argumenta o professor.

Professor da USP André Martín destaca que defesa anti-tanques não tem qualquer utilidade no país a não ser financiar a indústria de guerra dos EUA

Divulgação Loockeed Martin
Mísseis? Só se fosse para atingir porta-aviões. Ora, a ameaça que poderia preocupar a soberania nacional só poderia vir pelo mar




Americanizada Ucrânia

Mas afinal, onde estamos metidos? Qual a implicação geopolítica desse rolo infame, tão ao gosto dos “irmãozinhos do Norte”?

André Martin | “Gostei da pergunta'', diz o professor André, armado com seu mais sardônico sorriso: “Só que a resposta é… embaraçosa, digamos assim”. Se a gente entra na geopolítica, diz o estudioso, se constata que estamos vivenciando o confronto entre Otan, de um lado, apoiando a Ucrânia, versus a Rússia, como se ela ainda fosse comunista: “Esses mísseis talvez fizessem mais falta aos ucranianos”, provoca o docente, que vai além: “o Brasil está tirando munição que poderia ser usada contra a Rússia comunista (risos)? Ora, isso seria a confirmação de Bolsonaro como apoiador de Vladimir Putin contra a Ucrânia e a Otan?” 

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Volodymyr Zelensky — o comediante presidente da Ucrânia americanizada — acredita que tanto o nosso operário vermelho, Lula, quanto o Messias dos iludidos, Bolsonaro, estão do lado russo. “Isso é só trailer para confirmar como a geopolítica é complicada”, avisa Martin, sem esconder a irritação com o buraco onde estão jogando o Brasil. “Pobre de quem terá a missão de tentar reconstituir as instituições”.


Mísseis inúteis

A compra desse armamento é prioridade para o Brasil há bastante tempo, sustenta André: “mas para que o Brasil precisa de mísseis anti-tanques?”, pergunta ele, pasmo com a Geopolítica castrense.

Trata-se de um lote de 33 lançadores e 222 mísseis. Tudo o que os EUA querem na vida, além de empregos para ostentar nas estatísticas… Esse arsenal é inútil para o Brasil: “será que estão prevendo ataques de tanques ao país? Ora, esse arsenal só serve para destruir um tanque. Precisaria perguntar ao general Ministro da Defesa do Brasil, Paulo Sérgio Nogueira, para que vão servir esses mísseis?” 

Exército, Marinha, Aeronáutica: qual nível de adesão das Forças Armadas a possível golpe?

O mundo e o Brasil mais ainda — graças ao ‘choque de gestão neoliberal’ — vem desmantelando a economia nacional, com privatizações e dilapidação da indústria e tecnologia. Vai ser difícil a esquerda fazer algo decente com um neoliberal do cajado de Geraldo Alckmin na ante-sala do Planalto.


Geopolítica ianque Míssil Javelin: Sucesso na Ucrânia, agora no BR

Professor, isso não dá cadeia? 

Quem ameaça o país, além do neoliberalismo, hã? Ora, o general-ministro Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, da Defesa, tem a obrigação de dar essa resposta à nação. Tanto do ponto de vista político, quanto no geopolítico, militar e do orçamento também. Nada justifica a compra desse armamento da fábrica de Guerra dos EUA. 

Recentemente,  o governo Biden mudou sua posição; de uma hora para outra aceitaram vender e o medo da estupidez de Bolsonaro evaporou. “Por outro lado, há poucos dias o Brasil assinou a Carta das Américas a favor da democracia”. 

Uma no cravo, outra na ferradura…

Elementar dear Watson: para não melar as eleições — vitais para os “pais da democracia” (para inglês ver) o império faz o favor de vender, a preço de mercado (poderiam doar, tamanho é seu interesse) todo o armamento sonhado pelos brucutus de plantão. Norte-americanos dão uma no cravo, outra na ferradura quase sempre. 

500 intervenções militares: o rastro de destruição dos EUA pelo mundo desde 1776

Importante para eles é sempre se manter como fornecedor de armamento ao Brasil. Coisa de planejamento estratégico deles. Dessa forma, amarram o Brasil no cabresto de seu contexto principal: Américas e ainda reforçam o papel da OEA. 

A metáfora do presente para a criançada é irretocável. Lamentavelmente, o mimo, além de dilacerar vivos até a morte…

É pago com sangue de crianças, adultos e de velhos brasileiros. militares do país adoram equipamentos modernos de matar em série. A verdade é que esse aparato não faz o menor sentido. O Brasil poderia precisar, talvez, de outro tipo de armas, como o seu submarino nuclear [os EUA abortaram o projeto vitorioso, da gestão do PT], por exemplo.

Futuro da humanidade é importante demais para ficar refém de países como os EUA

Mísseis? Só se fosse para atingir porta-aviões. Ora, a ameaça que poderia preocupar a soberania nacional só poderia vir pelo mar. Por terra não temos nenhum problema. Não há qualquer perspectiva de guerra de tanques na América do Sul. Isso é absolutamente ridículo. É delírio estratégico de dementes”.


Enquadrar Casta Militar

Conheço esse inferno de dentro. Essa gentalha engorda, como Bolsonaro, dentro do quartel, é paga para garantir a segurança do País e se acha no direito de se curvar aos EUA e servir de capacho. Não tem lei para essa tropa? Nunca ouvi falar de Corte Marcial no Brasil…

O pior é que as coisas são assim mesmo. O país precisa discutir seriamente temas militares agora. Aliás, é irresponsável qualquer governo decente deixar de enquadrar os militares no quesito da democracia social. Um segmento da corporação comporta-se como casta. Eles absolutamente não podem se furtar de explicar a quem paga seu soldo o motivo pelo qual o governo federal queimou dinheiro público para beneficiar os estratégicos planos de dominação da Casa Branca.

A indústria bélica nacional não teria condição de produzir ao invés de importar? Talvez eles queiram emprego no Norte…

Em 1976, o general Ernesto Geisel reconheceu que a Defesa supõe a Indústria da Defesa. Ele realmente rompeu o acordo militar com os EUA por ele impedir o desenvolvimento de empresas bélicas nacionais. Você está coberto de razão. Agora, o governo Bolsonaro refez o acordo de novo. É uma questão muito séria para o futuro do país. 

Com esse tipo de aquisição, estamos aderindo ao estilo de produção da indústria norte-americana de defesa — além dos objetivos estratégicos deles. É disso estritamente que se trata. Para que raios e trovões o Brasil precisa de armas leves anti-tanque? Será que os argentinos vão despachar tanques de guerra para invadir o Rio Grande do Sul e depois o restante do Brasil? Ou será que a Venezuela e os ‘malditos’ cubanos não estão a preparar a guerra contra o Brasil da Terra Plana?


Caviar & Moet Chandon

Responda, professor: a Banda Podre das Forças Armadas merece Corte Marcial ou não? Estatísticas comprovam: o oficialato da administração federal ganha muito além dos tetos. Braga Neto, vice de Bolsonaro, recebem mais de R$ 1 milhão — com gratificações e bônus —, o que é apenas um exemplo da Farra da Farda. A fome grassa para ‘abacates do governo aproveitarem a vida com caviar & moet chandon. Esse armamento na mão de alucinados  não pode servir para intimidar a massa — no caso de rebelião contra o desgoverno?

É possível, claro. Ora, com Bolsonaro, o exército foi transformado em uma espécie de Partido Militar Fisiológico, o PMF. É possível que o equipamento seja usado para intimidação da própria população sim, de acordo com o que está por acontecer. 

Cannabrava | Criminosos criaram Estado paralelo no Brasil, com tutela das Forças Armadas

Como é que os militares vão se comportar até a eleição? Depois do pleito, teoricamente eles podem ir para onde mandaram Lula…

Os norte-americanos já se antecipam, como sempre. E tratam de comprometer militares brasileiros a se alinhar à estratégia dos EUA. Isso é o mais importante, para evitar um desalinhamento aos gigantes do norte.

Eis o ponto central: eles não podem perder o Brasil. É por isso que, qualquer que seja o governo, eles precisam se antecipar — de alguma maneira — e manter um compromisso de mais longo prazo dos militares brasileiros é o ponto-chave. 

Consultei um graduado ex-assessor do Congresso dos EUA  com familiaridade em questões militares: o Brasil não precisa desse armamento, pô. Se o perito militar dos EUA diz que o País não precisa disso, o que preciso eu, professor, acrescentar?


Usando e Lambuzando

Mas a maioria silenciosa não abre o bico, tchê?

Veja bem, imagino que no meio dessa balbúrdia se abriu também a contradição interna dentro da corporação militar. É claro que nem todos aproveitam a mamata. Há uma cúpula ligada ao governo atual que está se ‘lambuzando’ no poder. 

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Tenho certeza de que isso pega muito mal para a maioria dos militares, que é honrada. Então isso também está criando um mal-estar muito grande nas instituições militares seriamente preocupadas em defender e desenvolver o país. É outro ponto que tem de ser colocado depois da eleição.

Tudo como o diabo dos EUA gostam…

Esse negócio da China era tudo o que eles queriam na vida. As Forças Armadas do Brasil são levadas a cumprir objetivos estratégicos dos EUA exatamente como os americanos do norte costumam fazer com outros exércitos do quintal da América. 

Eu colocaria como exemplo o Egito: o medo que eu tenho é que a gente viva situação parecida com o que os egípcios passaram depois da queda da ditadura Mubarak, em 2011. 

Logo após, a Irmandade Muçulmana ganhou a eleição, mas não pode assumir, pois foi derrubada pelos militares. Essa é uma possibilidade real porque, assim como no Egito, o exército do Brasil tem crescente importância econômica no atual regime, principalmente a cúpula militar.

Aqui, as coisas são muito mais complicadas, por isso é vital respeitar a eleição, que interessa à geopolítica estadunidense. Não vejo os EUA interessados em melar a eleição em conluio com o grupo do capitão, mas para depois da eleição, o sucessor vai ficar com a faca no pescoço. Como o Estado vai tratar os militares?

Qual é o risco de mais um golpe?

A possibilidade do golpe é só para depois da eleição, sossegue (risos). E aí o risco é saber como o governo empossado vai tratar as Forças Armadas. Sejamos honestos nesse momento, por favor. O fato é que muitos militares teriam de ser presos. Não há como fugir disso dentro dos parâmetros legais. Assim como empresários, o clã Bolsonaro e apaniguados… O conjunto de crimes foi muito grande.

E muito maior se tornará quando a tropa largar o osso...  

É Vero, mas a questão é saber se dá para confiar nas instituições desta atual republiqueta.

Afinal, vão prender os bandidos? 

Duvido. Creio que não. Talvez haja uma acomodação. Dependendo de como as coisas andem, não podemos descartar também que haja uma raiva represada na população. 

Bolsonaro tenta desviar para a violência estúpida da guerra de todos contra todos. Uma espécie de catarse do medo do comunismo. Aquela paranoia estimulada, raiva irracional, muito grande, por parte da população desinformada, sofrida e desnorteada demais. 

O próximo governo vai ser complicado, qualquer que seja ele.  Temos um mínimo de esperança que sobre um pouco de racionalidade para prevalecer no final.

Amaro Dornelles, colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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