Um mundo distante, onde dizem que meninas não podem estudar por serem mulheres

Uma menina educada é um ser humano integral. Para uma menina marginalizada, a independência está a um mundo de distância

Carolina Vásquez Araya

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Uma importante percentagem do atraso político, social e econômico da maioria dos países latino-americanos se deve à marginalização das meninas e, por conseguinte, de mulheres adultas cujo histórico de discriminação e de falta de oportunidades para se educar determina sua inclusão nos setores mais empobrecidos de nosso continente.

Essa é uma realidade demonstrada em inúmeros estudos e extensos relatórios elaborados por especialistas; estudos e relatórios que só são acessíveis à outros especialistas e cujo destino final é serem engavetados pelos funcionários públicos de plantão.

ONU Mulheres
Três garotas Q'eqchi 'com um guarda-chuva caminham atrás de lixo na região de Sepur Zarco. Foto: ONU Mulheres / Ryan Brown

Desse modo, sem maiores trâmites e com o propósito de manter o controle de um sistema depredador e desumano, os políticos encarregados dos despachos oficiais decidem truncar o destino deste imenso contingente humano de desenvolver seus talentos e capacidades, impedindo qualquer perspectiva de ascensão social, ante a indiferença coletiva.

Pensar em qual seria o resultado de uma iniciativa revolucionária e inovadora para garantir o acesso à educação de qualidade a todos os meninos e meninas de qualquer país, é (ou deveria ser) um exercício essencial para qualquer político.

Paralelamente a isso, atrever-se a tomar a iniciativa de estabelecer programas de nutrição escolar para a infância dos setores mais pobres – já que sem esse complemento nenhum programa educativo pode funcionar eficazmente - alcançaria um impacto que seria resultaria em um maior desenvolvimento físico, intelectual e psicológico de milhares de meninas e meninos atualmente vitimados pela desnutrição. Nos países menos desenvolvidos e onde existem elevados níveis de corrupção, contam-se aos milhares as famílias carentes de uma renda mínima para sobreviver com dignidade e é ali, nesses lares onde se costuma sacrificar seus membros mais indefesos: as meninas.

“Em nossa comunidade existe sim uma grande diferença. A menina na comunidade é desvalorizada por ser mulher. As crenças culturais na região Q'eqchi´ são: a menina Q'eqchi´ é quem deve ajudar sua mãe na cozinha, é quem deve buscar água, quem deve ajudar sua mãe a lavar a roupa de suas irmãzinhas e irmãozinhos.

Já o menino Q'eqchi´ desfruta de todos os privilégios da casa, especialmente os concedidos pelo pai. É quem brinca e tem liberdade de sair com seus amigos. Apesar de também ser responsável por algumas tarefas, como a de, acompanhado pelo pai, trazer lenha para suprir as necessidades domésticas.

É porém inegável que as meninas não são tão valorizadas como os meninos. E que portanto ela é mais afetada pelas carências experimentadas pelas famílias mais empobrecidas[1]". (Tomado do informe “O Matrimônio Infantil Forçado na Guatemala, Caso do município de San Pedro Carcha, elaborado por Plan Internacional).

Esta citação exemplifica a situação de milhões de meninas em nossos países. Condenadas por costume a uma vida de serviço, são conduzidas inevitavelmente a perder toda possibilidade de alcançar objetivos de vida produtiva e gratificante, o  que é accessível para seus irmãos; e então suas perspectivas se reduzem a um matrimônio precoce para o qual não estão preparadas, gravidezes inseguras e uma perda total de sua liberdade individual, destino não apenas injusto, mas de uma enorme violência.

Um estilo de vida considerado normal por um setor da cidadania é uma fantasia, um mundo distante para as meninas dos setores mais pobres, aquelas cujos sonhos se chocam contra as paredes de seu fechado círculo doméstico: carrear água, lavar roupa, cozinhar e varrer; servir, servir e servir porque “para isso são meninas, para servir”. Esta violação flagrante dos direitos humanos de meninas e mulheres em nossas sociedades, violação naturalizada por costumes até há pouco tempo baseados em leis discriminatórias, requer a atenção de toda a cidadania e um compromisso real de reparação. Uma menina educada é um ser humano integral, capaz de contribuir para uma sociedade melhor.

Para uma menina marginalizada, a independência está a um mundo de distância.

*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala

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