Jornal da USP

400 anos após migração forçada, afro-estadunidenses lutam para romper cadeias

Atualmente há mais afro-estadunidenses presos ou sob algum tipo de supervisão judicial nos Estados Unidos do que houve escravos em 1850

Este mês marca o 400º aniversário do início da migração forçada aos Estados Unidos, quando em agosto de 1619, um barco apareceu nas costas da Virgínia com sua carga de mais de 20 escravos africanos originários de Angola. Estes primeiros escravos foram aparentemente roubados por piratas de um barco espanhol que ia rumo ao México e que os havia recebido, por sua vez, dos portugueses, impérios que lucraram não apenas com os recursos naturais de outros países, mas também com o grande negócio de sequestros e compra e venda de seres humanos.

Eram os primeiros dos 400 a 600 mil escravos transportados da África para os Estados Unidos, cerca de 5% do total de aproximadamente 12 milhões de escravos originários da África que foram comercializados pelos europeus na maior migração massiva forçada da história até a Segunda Guerra Mundial.

Em 1860, justo ao começar a Guerra Civil (que entre outras coisas levou à abolição da escravatura depois de quase 250 anos) a população escrava estadunidense era de quase 4 milhões – uns 13 por cento da população total. Esta história, esta migração forçada em correntes, foi parte integral da criação deste país que desde seu início tem se proclamado como o farol mundial da liberdade.

“Sim, todos os nossos ancestrais chegaram por barco a este país. Mas alguns chegaram por sua própria vontade no convés dos barcos, outros chegaram involuntariamente acorrentados nos porões de carga”, costumava recordar o reverendo Jesse Jackson sobre as origens dos Estados Unidos.

Foi a mão de obra escrava que gerou grande parte da riqueza das treze colônias e que assentou as bases econômicas do país que surgiu oficialmente com a Declaração de Independência de 1776. Por isso, alguns historiadores afirmam que a data de nascimento real deste país é 1619, quando apareceu esse barco com os primeiros escravos que foram vendidos aos colonialistas ingleses.

cnpt.org
Foi a mão de obra escrava que gerou grande parte da riqueza dos EUA

As origens deste país são construídas sobre o roubo e genocídio contra os indígenas destas terras, e pela mão de obra de escravos africanos. Portanto, alguns historiadores recordam uma e outra vez que o conto de um país baseado nos conceitos nobres escritos na sua Declaração de Independência (redigida por Thomas Jefferson, um dono de escravos) e pouco depois em sua Constituição, proclamando uma nação baseada na liberdade, na igualdade ante a lei e na livre determinação de seus habitantes é em parte mentira. Oito dos primeiros 12 presidentes desta república eram donos de escravos.

Hoje em dia, 400 anos depois, os afro-estadunidenses (em grande parte descendentes dos escravos) são 13% da população, e por múltiplos indicadores socioeconômicos, ainda os mais oprimidos destas terras: Os lares afro-estadunidenses têm 10 centavos em riqueza por cada dólar em lares brancos; o rendimento médio dos brancos é 10 vezes mais que o dos negros (Pew Research).

Atualmente há mais afro-estadunidenses presos ou sob algum tipo de supervisão judicial nos Estados Unidos do que houve escravos em 1850 (Profa. Michelle Alexander, autora de The New Jim Crow). Os homens afro-estadunidenses correm muito maior risco de ser assassinados pela polícia do que suas contrapartes brancas (Academias Nacionais de Ciências).

São as lutas de resistência e libertação que se iniciaram também há quatro séculos – as dos indígenas, dos afro-estadunidenses, das mulheres e das subsequentes ondas de imigrantes – as que têm exigido que este país que construíram, cumpra com suas promessas de liberdade e democracia. Por isso mesmo, não se pode reduzir os Estados Unidos a um país de “gringos” – nem todos compartilham a mesma origem, a mesma experiência e nem a mesma cultura.

Toni Morrison, a grande escritora afro-estadunidense Prêmio Nobel que faleceu em 5 de agosto, escreveu em The New Yorker pouco depois da eleição de 2016, que uma parte dos votos em Trump foi “não tanto por ira, mas por estar aterrorizados” de estar perdendo seu “privilégio branco”. 

Não há maneira de entender o presente estadunidense sem levar em consideração este conflito histórico e as lutas por romper cadeias, algo tão antigo como este país.


*Tradução: Beatriz Cannabrava

**La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

 Veja também

Comentários