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Seis pontos que Europa deveria resolver para sair das crises econômica e humanitária

A crise é mais evidente e é sofrida por dezenas de milhões de pessoas, sobretudo os jovens

Roberto Sávio

IPS IPS

Roma (Itália)

Temos necessidade de um paradigma sob o qual colocar organicamente os vários problemas que enfrentamos de modo separado. São problemas globais que se vivem diversamente nas várias regiões do mundo.

Enfoquemos o caso da Europa, onde a crise é mais evidente e é sofrida por dezenas de milhões de pessoas, sobretudo os jovens.

O paradigma: não há paz sem segurança (especialmente nestes tempos). Mas a segurança não é a militar, que consome um trilhão e seiscentos bilhões de dólares. A segurança é a humana, para a qual o total dos orçamentos é de 50 bilhões de dólares. Bastaria que 10% dos gastos militares fosse destinado às necessidades humanas para um acordo sobre o controle climático.

Um mundo no qual 51 milhões de pessoas têm a mesma riqueza que um bilhão e 200 milhões de cidadãos é insustentável.

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União Europeia

Creio que é bom identificar quais são os problemas existentes. Os temas prioritários para resolver são seis:

1) o mundo vive uma profunda crise de governabilidade. A decadência econômica e social dos países do Norte (enquanto no Sul está se delineando uma dezena de novos atores em escala global) está criando uma fuga para a frente, com partidos e movimentos que sonham um retorno a uma época já desaparecida. O Tea Party, que tem em suas mãos o partido Republicano nos Estados Unidos, e os partidos da direita xenófoba surgidos em países considerados modelo, como Holanda, Noruega, Suécia, Finlândia e outros, são o resultado dessa fuga para adiante. Agregue-se que já passamos do fim das ideologias à afirmação do pragmatismo como fórmula madura da política. Mas sem um quadro de referência e de análise, do pragmatismo passamos ao utilitarismo, ou seja, a administrar só aquilo que é útil. Então, o tema da crise da política aparece como prioritário. É necessário dar maior participação à cidadania, além do sistema eleitoral. É necessário pedir uma democracia participativa, que delegue aos cidadãos a discussão sobre todos os bens comuns, não apenas sobre a água ou a energia nuclear. 

2) Um elemento chave da crise é o voo sem controle das finanças, cada vez mais opostas à economia real. Enquanto os intercâmbios comerciais baixaram mundialmente em 15%, as transações financeiras estão em contínuo aumento, alcançando já 40 trilhões de dólares cotidianos. As finanças não têm nenhum instrumento internacional de controle. A pressão das bolsas faz com que o déficit fiscal seja mais importante que o social. Então é imprescindível um primeiro passo urgente: ocupemo-nos do déficit social como verdadeira prioridade. Impeça-se que os bancos especulem com o dinheiro de seus clientes, reduzindo assim a bolha especulativa. E limitem-se os instrumentos especulativos em uso, muitos dos quais são loterias arriscadíssimas. 

3) Estas duas crises puseram de joelhos a cooperação e a justiça social internacionais. Mas em um mundo globalizado não se pode deixar que o mercado e o lucro operem sem controles. Sobre este ponto há que concretizar a proposta de um tributo às especulações financeiras. Elas são tão enormes que bastaria um imposto de 1 por 10.000 para gerar 400 milhões de euros diários para ser distribuídos entre os vítimas da crise, os desempregados, os jovens, o déficit social, de modo proporcional ao tamanho de cada país. 

4) Um tema que interessa a toda a humanidade é o do ambiente. Os dados sobre o aquecimento global são notórios. Mas o governo estadunidense é prisioneiro de um Congresso que nega o tema e impossibilita qualquer acordo internacional. Entretanto, está crescendo uma nova categoria de prófugos; os ambientais. As Nações Unidas estimam que podem chegar a ser 400 milhões dentro de 30 anos. E quem paga a crise são sobretudo os países mais pobres, em primeira fila os africanos. Mas também a Europa se verá profundamente golpeada por esse problema. Então, exijamos dos parlamentos que cumpram os compromissos internacionais sobre a redução da dependência dos combustíveis fósseis, a introdução das novas tecnologias verdes, temas sobre os quais todos (menos, talvez, a China) estão profundamente atrasados. E peçamos à cidadania que reconheça que o atual modelo de desenvolvimento baseado no consumismo não é mais sustentável e requer modificações em nosso estilo de vida. 

5) Um assunto que não deve jamais ser esquecido é o dos direitos humanos. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a cada ano mais de 12 milhões de pessoas são presas der organizações criminosas e obrigadas a trabalhar em condições desumanas. E na Europa há pelo menos várias centenas de milhares de pessoas em condições de virtual escravidão. Sem uma política baseada na dignidade dos imigrantes, o crescimento da Europa não é possível nem tampouco a manutenção do sistema de previdência social, visto que a relação intergeracional reduziu-se devido à baixa natalidade. Peçamos, portanto, que se abra um debate para criar uma política de imigração europeia que saia dos genéricos lugares comuns nos quais a relegou o mundo da política

6) Uma última prioridade é devolver dignidade ao mundo do trabalho. Hoje em dia os sindicatos representam mundialmente 12% da força de trabalho e são cada vez mais ilhas de defesa dos próprios sindicalizados. 80% dos trabalhadores do mundo carecem de assistência social. O desemprego juvenil é 30 a 70% superior à média. 

É necessário retomar os ideais da solidariedade e da responsabilidade intergeracional. Que se reforme o sistema econômico e fiscal para reduzir a brecha crescente entre os cidadãos que atualmente estão dentro do sistema e os muitos que estão fora, desprotegidos. É um tema politicamente suicida e, portanto, é mantido fora do debate. Mas se não for enfrentado iremos rumo a um mundo de sofrimento e penúria. 

Chegou a hora do compromisso, do sacrifício, do esforço comum e pessoal. Falta um Winston Churchill, que prometendo lágrimas e sangue conseguiu mobilizar seu país contra o nazismo. E falta também um Manifesto, mas temos dados suficientes para saber que evadir essa realidade é um ato gravíssimo. E não bastará com atribuir a culpa aos políticos. Nós somos igualmente responsáveis.


*Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS).

**Tradução: Beatriz Cannabrava

***IPS, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

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