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Ocidente deveria se preocupar com massacre operado por Netanyahu livremente

É absurda e abominável a capitulação das nações europeias que mais sofreram as agruras e consequências do nazifascismo; esses países não aprenderam nada?
André Marcio
Espaço Literário Marcel Proust
Florianópolis (SC)

Tradução:

Há pouco mais de um mês, os EUA vetaram o reconhecimento da Palestina como Estado na ONU. Até ali, mais de 34 mil pessoas haviam sido mortas por Israel na vingança desmedida deflagrada contra o ataque que o Hamas perpetrou em 07/10/2023, contra civis e militares, em solo judaico. Lembro-me do horror que o mundo vivenciou ao ver as imagens chocantes das vítimas do Hamas. Mas o que dizer do genocídio praticado pelas forças militares de Israel contra o indefeso povo palestino, atingindo crianças, mulheres e idosos? Surpreendentemente, só no último mês o mundo começou a se manifestar de modo mais veemente contra este massacre. De fato, salvo tentativas isoladas de países como o Brasil, Colômbia e a África do Sul, o Ocidente de uma forma geral aceitou o ataque de Israel contra um povo incapaz de sequer tentar se defender como legítimo.

Vejam bem, caros leitores: não se trata de um país mais poderoso (Israel) contra um outro país desproporcionalmente mais frágil, o que já seria condenável. Não. Se trata de um dos países mais bem armados do mundo contra… ninguém! Ou melhor, contra uma população de mais de dois milhões de habitantes que vive confinada em dois guetos – Faixa de Gaza e Cisjordânia –, onde existe uma milícia de alguns milhares de homens armados com artefatos obsoletos. Nada de navios de guerra, caças supersônicos, helicópteros ou mesmo tanques de guerra.

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O quadro acima descrito não pode ser qualificado como uma guerra, salvo por muito cinismo e hipocrisia.

Mas, nos últimos 6 meses do massacre que vem sendo realizado por Israel, capitaneado pelo indefensável Primeiro-ministro judeu Benjamin Netanyahu, foi justamente esse cinismo que imperou na grande mídia ocidental, especialmente nos países anglo-judaicos, como a Inglaterra e os Estados Unidos, e na Europa ocidental. De fato, o mundo assistiu ao boicote de toda e qualquer forma de repúdio às práticas genocidas de Israel contra a Palestina, em um nível que não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Qualquer opinião, artigo ou reportagem que criticasse o “status quo” da carnificina praticada por Israel foi prontamente tachado de terrorista.

Capitulação abominável

É absurda e abominável a capitulação dos países europeus que mais sofreram as agruras e consequências do nazifascismo, como França, Alemanha e até mesmo a Inglaterra, frente à vontade de uma parcela do povo judeu, que aplaude esse extermínio. Esses países não aprenderam nada? Pior: os sionistas deram as costas para a outra parte do seu povo que só quer paz? Será que eles não entendem que reduzir o povo palestino a pó, ou a meros trabalhadores escravos, não será uma garantia de paz perpétua para seu próprio povo?

Infelizmente, não temos como responder a essas questões agora. Se eu pudesse arriscar um palpite, para não ficar na neutralidade sombria da história, como já disse Bertold Brecht, diria que os 80 anos desde a criação do Estado de Israel pela ONU estão eivados de ações que podem reverter a pretensa segurança que Israel desfruta no cenário internacional, sob os auspícios dos Estados Unidos. Essa premissa é importante: Israel promoveu o êxodo palestino de 1948, denominado por este povo de “Nakba” ou “catástrofe”, quando pelo menos 711.000 árabes palestinos, segundo dados da Organização das Nações Unidas, fugiram ou foram expulsos de seus lares, em razão da guerra civil de 1947-1948 e da Guerra Árabe-Israelense de 1948, tudo com o beneplácito da maior potência ocidental, os Estados Unidos da América, e a omissão dos outros países. Nada garante que nos próximos 80 anos Israel continue a contar com a mesma proteção e permissão para matar. Mais ainda: nada garante que no próximo século os Estados Unidos ainda serão a maior potência do planeta.

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Por conseguinte, a parcela do povo judeu que também está revoltada com o morticínio provocado por seus governantes – espero que ela represente a maioria – deveria começar a se posicionar de forma mais assertiva em relação ao destino do povo palestino e, por tabela, ao seu próprio destino. Historicamente, nenhum povo hegemônico reinou “eternamente” sobre os povos mais frágeis. O Império Romano só durou cinco séculos (entre o primeiro século a.C. até o ano 476 d.C., entre períodos imperiais e republicanos), e isso por saber respeitar culturalmente certos limites que os povos subjugados lhes impuseram. Todos os outros impérios, de Roma para cá, que submeteram regiões inteiras aos seus domínios, ou mesmo quase todo o globo terrestre, como o Império Britânico, duraram apenas alguns anos, décadas ou, quiçá, alguns séculos. Nesse sentido, existem sinais claros de declínio relativo da hegemonia estadunidense sobre todos os outros países.

China, Índia e outros emergentes

É de conhecimento geral que a China deve ultrapassar os Estados Unidos como a maior economia do planeta até o meio desse século, se tudo continuar como está. A Índia virá logo atrás com uma população que já é maior que a da China. Sem olvidar da capacidade industrial de outros países desta região, como a Indonésia e o próprio Japão. Logo, o centro gravitacional da economia mundial pende, neste exato momento, para o Oriente.

É por isso que assistir Netanyahu e seus comparsas sionistas desafiarem a ONU e continuarem a promover o massacre do povo palestino deveria ser extremamente preocupante para todos, inclusive os judeus. O recente ataque a Rafah, a única região que havia restado para que os palestinos migrassem, desde a invasão judaica, é ofensivo sob todos os aspectos: ético, moral, humanitário e até econômico. Desafiar quase todo o mundo, boquiaberto de pavor pelas atrocidades cometidas contra uma população indefesa, pelo simples fato de que os principais países ocidentais estão omissos, quando não encorajam essas atrocidades – reféns que são dos mastodônticos conglomerados industriais-financeiros-militares, muitos deles de propriedade de judeus –, é semear um rancor, um ressentimento sem tamanho, que irá explodir em algum momento na história. Não à toa, estamos vendo os estudantes (sempre os estudantes do lado certo da história) de vários desses países se manifestando enfaticamente contra esse horror.

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Entretanto, as manifestações estudantis não serão o bastante. É preciso muito mais.

O Brasil, de novo, está fazendo a sua parte, ao integrar o grupo de países que liderou o esforço conjunto da Assembleia Geral da ONU que aprovou, no dia 10/05/2024, a resolução que reativa a candidatura da Palestina a Estado-membro. Este texto, que concede mais “direitos e privilégios” à Palestina, foi aprovado por 143 votos a favor, nove contra e 25 abstenções. O desafio agora é convencer o governo de Joe Biden a não vetar essa resolução no Conselho de Segurança.

 

Ainda que a Palestina entre na ONU como um “Estado Observador”, sem direito a voto, será um bom avanço.

Mas a julgar pela reação do embaixador de Israel, o sionista Gilard Erdan, que triturou uma cópia da Carta das Nações Unidas durante a votação dessa resolução pró-Palestina na Assembleia Geral, o mundo ainda tem um grande desafio pela frente, se não quiser ficar com as mãos eternamente manchadas de sangue pelo extermínio do povo palestino.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

André Marcio

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