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Para beneficiar Trump em 2024, republicanos querem aparelhar sistema eleitoral dos EUA

Parte do partido ultradireitista tem trabalhado desde 2020 no discurso de fraude eleitoral e ameaça não aceitar resultados desfavoráveis
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

As eleições intermediárias iniciadas nesta terça-feira (8), nos EUA, se realizam frente a ameaças de violência política, manobras para suprimir o voto, candidatos que difundem anúncios em que aparecem armados, outros que abertamente declaram que se não ganharem é fraude, outros que não ocultam terem sido cúmplices da tentativa de Golpe de Estado em janeiro de 2021, e um crescente coro – incluindo o presidente – que adverte que a própria democracia estadunidense está em jogo. 

Todas as 435 cadeiras da câmara baixa, 25 das 100 do Senado e as governanças e outros postos chaves em 36 estados estão em jogo.

Nas eleições intermediárias, o partido do presidente quase sempre sofre perdas. Na véspera das eleições, as projeções indicavam que os republicanos conquistariam a maioria na câmara baixa, mas o controle do Senado era incerto (sempre vale recordar que as pesquisas fracassaram de maneira colossal em prognosticar a eleição de 2016, na qual todas indicavam a triunfo da democrata Hillary Clinton).

O processo eleitoral foi iniciado dias antes desta terça-feira, quando mais de 40 milhões de votos já haviam sido emitidos de maneira antecipada. Mais de 100 queixas judiciais foram registradas por republicanos na tentativa de desqualificar milhares dessas cédulas em três estados chaves: Michigan, Pensilvania e Wisconsin. Essas manobras, denunciam críticos, foram elaboradas para suprimir o voto democrata.

Eleições nos EUA: mais de 50% da população não confia no governo e na justiça do país

O pleito não se limita a um concurso eleitoral tradicional, uma vez manchado com as sequelas da tentativa de um golpe de Estado impulsionado pelo então presidente Donald Trump para reverter sua derrota depois das eleições presidenciais há dois anos. A maioria, quase 300, dos candidatos republicanos a postos legislativos federais e vários estaduais rechaçam ou questionam a legitimidade da passada eleição, incluindo alguns dos mais proeminentes neste ciclo eleitoral.

Enquanto alguns, como as deputadas ultradireitistas Marjorie Taylor Greene, Lauren Boebert e Jim Jordan, entre outros, não ocultam sua cumplicidade com o assalto armado ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, como parte do intento de golpe de Estado para anular a eleição presidencial, há outros como o candidato a deputado federal pela Georgia Mike Collins, que difunde anúncios de campanha nos quais declara, com um rifle de alta potência em mãos, que deseja ir a Washington para “compor” o sistema eleitoral depois que foi roubada a eleição a Trump. No final aponta, dispara e destrói uma urna. Collins não é o único que glorifica as armas como “direito sagrado” contra as forças da “esquerda radical” democrata.

Nessa eleição, republicanos direitistas lançaram uma campanha sistemática para literalmente assumir o controle dos mecanismos do voto, ocupando postos de secretários de estaduais e funcionários locais, que têm sob seus cargos a administração de processos eleitorais. O propósito é assegurar os resultados que desejam, entre eles subverter as eleições em preparação para a próxima corrida eleitoral federal, incluindo a presidencial, em 2024.

E falando em 2024, o ex-presidente Trump, que viajou a vários estados nestes últimos dias para apoiar republicanos leais a ele, convocou seus fanáticos a “esmagar os comunistas” – aparentemente em referência aos democratas – e repetiu que, para salvar o país, terá que voltar a lançar-se à Casa Branca, um anúncio que poderia se dar a qualquer momento. 

Oito senadores republicanos e 130 deputados federais tentaram subverter os resultados da última eleição, e muitos deles ganharam sua reeleição nesta terça-feira, junto com novos colegas que compartilham a “grande mentira” promovida por Trump. “Sua presença no Congresso representa um perigo à democracia”, concluiu em seu editorial pré-eleitoral o New York Times.

Parte do partido ultradireitista tem trabalhado desde 2020 no discurso de fraude eleitoral e ameaça não aceitar resultados desfavoráveis

Gilbert Mercier – Flickr
Desde a eleição de Trump, em 2016, até hoje, e sobretudo após a eleição de 2020, as ameaças de violência política chegaram a níveis sem prec

Na Carolina do Norte, os democratas organizaram brigadas de advogados nos postos de votação para proteger a integridade do voto. “Estamos particularmente preocupados em relação a homens armados e outros esforços para intimidar os eleitores”, comentou um advogado que participa desse esforço em um povoado rural, em entrevista ao La Jornada. “Tive que contemplar o uso de colete à prova de balas”, acrescenta.

O veterano deputado federal afro-estadunidense James Clyburn – centrista e chave na eleição de Biden – declarou que “a democracia estará chegando ao seu fim” se os democratas perderem a eleição intermediária. “Estudei a história durante toda a minha vida. Ensinei história. E lhes digo que o que vejo aqui são paralelos à história deste mundo nos anos trinta na Alemanha”.

Desde a eleição de Trump, em 2016, até hoje, e sobretudo após a eleição de 2020, as ameaças de violência política chegaram a níveis sem precedentes em tempos modernos, com as agências federais de segurança nacional enviando um alerta a autoridades estaduais e locais sobre o perigo de ações pós-eleitorais de “extremistas domésticos violentos”, sobretudo aqueles que questionam a legitimidade da eleição.

EUA: extremistas pró Trump escalam violência a eleitores e políticos às vésperas da eleição

E para distrair um pouco mais os estadunidenses do que verdadeiramente está em jogo neste país, uma vez mais chegaram os russos. A mídia informa que especialistas detectaram iniciativas digitais, para intervir no debate eleitoral estadunidense, que se “suspeitam” serem manejadas por russos. Será que a ameaça à democracia estadunidense provém de Moscou, outra vez? 

Por outro lado, o processo democrático poderia ter uma colheita positiva para alguns: se mais cinco estados aprovarem medidas de referendo nesta eleição, a maconha será legal em quase metade dos estados do país (19 estados e a capital já legalizaram o uso recreativo).

David Brooks, em Nova York, e Jim Cason, em Chapel Hill, Carolina do Norte | Correspondentes do La Jornada.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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